​Ilha do Sal sem água: restaurantes, bares e alojamentos turísticos de Santa Maria em risco

“A crise afecta também Santiago e outras ilhas, e a população queixa-se da ausência de comunicação por parte das empresas distribuidoras”

Uma crise que paralisa Santa Maria e o resto da ilha

​Há vários dias que moradores e operadores económicos da ilha do Sal enfrentam uma situação de rotura no abastecimento de água. As sinalações chegam em número crescente, com particular incidência em Santa Maria, onde a interrupção está a afectar não apenas as famílias residentes mas também as actividades comerciais que sustentam a economia local.

​Restaurantes, bares e pequenos alojamentos turísticos estão entre os mais atingidos. Com as reservas de água esgotadas, vários estabelecimentos encontram-se incapazes de garantir a continuidade das suas operações, uma situação que pode ter consequências directas para a imagem do destino turístico de Sal.

O silêncio das distribuidoras

​O que mais revolta a população não é apenas a falta de água em si, mas a ausência de qualquer comunicação oficial por parte das entidades responsáveis. Nenhum comunicado, nenhuma previsão de resolução, nenhuma explicação sobre as causas da interrupção.

​Em Sal e São Vicente, é a Electra, S.A. a empresa responsável pela distribuição, comercialização e faturação de água. No entanto, até ao momento, nenhum comunicado foi emitido especificamente sobre a situação na ilha do Sal.

Santiago também sofre — e há precedentes recentes

​A crise da água não é exclusiva do Sal. Uma avaria técnica na Central Dessalinizadora do Palmarejo, em Santiago, provocou a falha numa das bombas de grande porte do sistema de produção, tornando indisponível um dos bastidores de uma das unidades dessalinizadoras, condicionando o abastecimento em vários bairros da Praia e em municípios adjacentes.

​Segundo informações da Electra, as equipas técnicas estavam mobilizadas para resolver a situação, com a normalização prevista para o final do mês de maio. Este padrão de avarias recorrentes nas infra-estruturas de dessalinização expõe uma fragilidade sistémica que ultrapassa a dimensão de um simples incidente técnico.

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Uma dependência estrutural perigosa

​Cerca de 80% da água para consumo doméstico em Cabo Verde é dessalinizada, com um elevado custo energético e implicação directa numa tarifa considerada uma das mais elevadas em África. Esta dependência quase total da dessalinização significa que qualquer avaria técnica pode rapidamente transformar-se numa crise de abastecimento, especialmente em ilhas turísticas como o Sal, onde a densidade populacional e a actividade económica são elevadas.

​O país recebe uma precipitação média de apenas 230 mm por ano, da qual somente 13% contribui para a recarga das águas subterrâneas — uma percentagem que vem diminuindo de ano para ano. O Sal, ilha árida sem recursos hídricos superficiais, depende integralmente de sistemas de dessalinização para abastecer tanto a população residente como o fluxo constante de turistas.

O que exige a população

​As vozes que chegam do Sal são claras: mais do que a resolução imediata do problema — que se espera urgente — exige-se transparência. Os operadores económicos precisam de saber quando poderão retomar a actividade em pleno. As famílias precisam de saber onde e como obter água potável enquanto a situação não é normalizada. E os cidadãos têm o direito de receber informação oficial sobre as causas e a duração previsível de uma interrupção num serviço essencial.

​A ausência de comunicação por parte das distribuidoras não é apenas uma falha de gestão: é um factor que agrava o impacto social e económico de qualquer crise deste tipo.

Recordamos que…

A dependência de Cabo Verde da água dessalinizada é uma realidade estrutural há décadas. As avarias recorrentes nas infra-estruturas de produção — como a registada recentemente em Santiago — reacendem o debate sobre a necessidade de investimento na redundância dos sistemas e na melhoria da comunicação com os cidadãos em situações de emergência hídrica que afetam o arquipélago neste fecho de maio de 2026.

Caboverde24.info

Fonte: Sinalações de moradores e operadores da ilha do Sal

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