Praia sem água: o quotidiano em modo de sobrevivência

“Uma avaria numa bomba de grande porte da central dessalinizadora do Palmarejo está na origem da crise que há semanas afeta a capital cabo-verdiana”

A Praia sem água: o quotidiano em modo de sobrevivência

​Há algumas semanas que a falta de água na cidade da Praia tem levado famílias e pequenos negócios a recorrer a camiões cisterna e a encher recipientes e depósitos para garantir reservas mínimas. O problema não é novo, mas a situação atual atingiu uma dimensão que força moradores de vários bairros da capital a reorganizar completamente as suas rotinas diárias.

​”Às vezes passamos semanas sem água em casa”, relatou Fátima Baldé, 39 anos, residente no bairro da Várzea, imigrante da Guiné-Conacri que vende refeições noutro ponto da cidade. A estratégia de sobrevivência é simples: “quando há água, aproveito para encher e guardar.”

Negócios a funcionar no limite

​No bairro de Achada Santo António, Julieta Moreno, 52 anos, gere um bar e recebe clientes para almoço todos os dias. A falta de água complica a cozinha, a limpeza e o atendimento. “Os clientes precisam sempre de água”, afirmou. Quando as reservas de barris acabam, a solução é chamar camiões cisterna, a cerca de 1.200 escudos — aproximadamente 10,90 euros — por tonelada. Segundo a comerciante, os problemas de abastecimento agravam-se nos períodos mais quentes do ano: “no tempo de calor sentimos mais a crise de água, justamente quando mais precisamos.”

Bairros inteiros sem acesso à rede

​Os relatos de escassez são transversais à capital. No bairro de Eugénio Lima, Quimtiliano Pires, 78 anos, reformado, aguardava que os filhos regressassem com baldes de água. “Hoje, ainda não fiz as minhas necessidades desde que acordei”, queixou-se a meio da manhã. “Há um mês que não vejo água a correr nas torneiras.” Na mesma rua, Maria Gomes, 72 anos, esperava os autotanques junto à estrada: “compro sempre duas toneladas, mas não dura. O dinheiro dava para outra coisa, mas as faturas continuam a aparecer.”

Jussara Rodrigues, 22 anos, estudante universitária no bairro de Fundo Cobom, descreveu a mesma realidade: “já faz mais de uma semana que estamos sem água em casa.”

A causa técnica: avaria na dessalinizadora do Palmarejo

A Electra, empresa pública responsável pela produção de água dessalinizada na ilha de Santiago, confirmou através de um comunicado que a falha se verificou “numa das bombas de grande porte” da central dessalinizadora do Palmarejo, deixando indisponível “un dos bastidores” de uma das unidades. A normalização do sistema estava prevista para a semana seguinte à execução do comunicado.

Um problema estrutural que não é novo

​A falta de água tem sido um problema recorrente na Praia, afetando todos os bairros da capital, que conta com 145.000 habitantes. As faturas da Águas de Santiago continuam a chegar aos moradores mesmo durante os períodos de ausência total de abastecimento, gerando revolta generalizada.

​A AdS tem admitido, noutras ocasiões, uma dificuldade crónica de cobrança: mais de metade da água introduzida na rede não é faturada, devido a ligações clandestinas, perdas nas tubagens e outras falhas no sistema. Esta realidade cria um ciclo perverso — menos receita significa menos investimento na manutenção de infraestruturas, o que aumenta a frequência das avarias.

O custo real para as famílias

Solange Vieira, 44 anos, vendedora de produtos agrícolas no bairro de São Pedro, resumiu a situação com clareza: “há três meses que estamos sem água. Compro um barril de 200 litros e não dá nem para dois dias porque somos sete em casa. Nem lavo a roupa, uso para cozinhar e para as crianças tomarem banho antes da escola.” Cada barril de 200 litros custa 320 escudos — cerca de 2,90 euros — o equivalente às receitas de meio dia de trabalho ao sol.

​A aritmética é cruel: as famílias mais vulneráveis gastam uma proporção significativa dos seus rendimentos a comprar água que, em teoria, já pagaram nas faturas mensais da empresa distribuidora.

Recordamos que…

A falta de água na cidade da Praia é um problema cíclico que se repete com especial intensidade nos meses mais quentes do ano. A atual crise foi desencadeada por uma avaria técnica na central dessalinizadora do Palmarejo, operada pela Electra, que reduziu o fornecimento à rede da Águas de Santiago. A situação expôs, mais uma vez, neste mês de maio de 2026, a fragilidade das infraestruturas hídricas da ilha de Santiago e o peso que esta instabilidade tem sobre as famílias e os pequenos negócios da capital.

Caboverde24.info

Fonte: Lusa / Executive Digest

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