“O arquipélago enfrenta custos elevados, frequentes cortes no fornecimento e uma histórica falta de investimento para explorar seu imenso potencial energético renovável”
No ranking mundial, Cabo Verde situa-se entre os dez países com energia mais cara, superado apenas por territórios insulares como Bermuda (0,465 USD/kWh, aproximadamente 44,3 CVE/kWh) e Ilhas Caimão, além de alguns países europeus como Irlanda (0,444 USD/kWh, cerca de 42,3 CVE/kWh), Itália (0,419 USD/kWh, cerca de 39,9 CVE/kWh), Bélgica (0,402 USD/kWh, cerca de 38,3 CVE/kWh) e Dinamarca.
Com tarifas residenciais de 36,04 escudos por kWh para consumos superiores a 60 kWh/mês (dados da ARME, janeiro 2025), esta realidade representa um obstáculo significativo ao desenvolvimento económico do arquipélago e encarece substancialmente o quotidiano das famílias cabo-verdianas.
Paradoxalmente, Cabo Verde destaca-se em África pela quase universalização do acesso à eletricidade, com 98,6% de cobertura (2023), uma das taxas mais elevadas do continente, muito superior à média da África Subsariana (cerca de 50%) e próxima da média mundial de 92% registada em 2025. (Fonte: GlobalPetrolPrices.com)
Abismo tarifário na região
A disparidade torna-se ainda mais evidente quando analisada no contexto da África Ocidental. Enquanto Cabo Verde pratica 36,04 CVE/kWh, países vizinhos da sub-região apresentam valores significativamente inferiores: Serra Leoa cobra 23,84 CVE/kWh, Mali 22,32 CVE/kWh, Burkina Faso e Gabão 20,98 CVE/kWh cada, e Senegal 19,08 CVE/kWh.
A título comparativo, a tarifa cabo-verdiana é quase quatro vezes superior à da Nigéria (9,54 CVE/kWh) e mais de 63 vezes superior aos valores praticados na Etiópia e no Sudão (0,57 CVE/kWh cada), que registam os custos mais baixos do continente.
Mesmo em relação a economias mais desenvolvidas do continente, Cabo Verde destaca-se negativamente: a África do Sul, potência industrial africana, pratica apenas 6,67 CVE/kWh – cerca de 18% do valor cabo-verdiano. Marrocos, outro país com forte investimento em infraestruturas, cobra 7,63 CVE/kWh.
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O potencial extraordinário inexplorado
Contudo, Cabo Verde possui uma vantagem natural única: uma insolação excecional com uma radiação solar de 6-8 kWh/m²/dia durante todo o ano e mais de 3.500 horas de sol anuais. Estudos técnicos indicam que o potencial fotovoltaico solar do país é mais do que o dobro da capacidade elétrica atualmente instalada. O Atlas de Energia Renovável de Cabo Verde identificou um potencial total de 2.600 MW em fontes renováveis, dos quais mais de 650 MW foram estudados em projetos viáveis com custos de produção inferiores aos combustíveis fósseis.
Apesar desse potencial extraordinário, o país não realizou investimentos estratégicos consistentes nas últimas décadas para explorar estas fontes limpas de energia. A matriz energética permanece fortemente dependente de combustíveis fósseis importados, que representam aproximadamente 80% da produção elétrica, gerando vulnerabilidade face à volatilidade dos preços globais do petróleo e limitando o avanço rumo a um sistema sustentável.
Reduções recentes nas tarifas trazem alívio temporário
Em 2025, a ARME implementou reduções tarifárias em dois momentos distintos, refletindo a evolução dos preços dos combustíveis e a retirada definitiva da compensação do défice gerado durante o conflito na Ucrânia.
Primeira fase (janeiro a junho 2025)
A ARME implementou uma redução média de 14,81% nas tarifas da EDEC (Empresa de Distribuição de Eletricidade de Cabo Verde) e de 9,91% para a AEB (Águas e Energia da Boa Vista), válida até 30 de junho de 2025. Esta descida resultou da evolução favorável dos preços dos combustíveis e da retirada definitiva da compensação do défice gerado durante o conflito na Ucrânia (3,01 CVE/kWh para EDEC e 1,55 CVE/kWh para AEB).
Segunda fase (julho a dezembro – atual)
A partir de 1 de julho de 2025, entraram em vigor novas tarifas com reduções que variam entre 4,89% e 8,33%, dependendo do escalão de consumo, para ambas as empresas. Esta atualização, constante da Deliberação nº 51/CA/2025 de 1 de julho, visa proteger os consumidores e salvaguardar o equilíbrio económico-financeiro dos operadores.
No entanto, a situação desfavorável continua acentuada pelos frequentes cortes e suspensões no fornecimento de eletricidade, muitas vezes sem aviso prévio, impactando negativamente os setores residencial, comercial e industrial. Um episódio recente e emblemático foi a paralisação prolongada no fornecimento na cidade da Praia, que evidenciou a fragilidade da infraestrutura elétrica local. Adicionalmente, as perdas técnicas e não técnicas do sistema mantêm-se elevadas, situando-se em torno de 24%.
Além disso, o roubo de energia e as ligações abusivas continuam a ser desafios estruturais que implicam perdas financeiras significativas, impactando a sustentabilidade financeira das concessionárias e a qualidade do serviço prestado à população.
O papel da APP na transição energética de Cabo Verde
Face aos desafios do setor energético nacional, empresas privadas têm desempenhado um papel cada vez mais importante no desenvolvimento de soluções sustentáveis e no apoio às infraestruturas públicas. Um exemplo notável é a Águas de Ponta Preta (APP), que celebrou em 2025 os seus 25 anos de atividade em Cabo Verde.
Fundada no ano 2000 e parte do Grupo Impulso, a APP consolidou-se como a principal utility privada do país, atuando na gestão integrada de água, saneamento e energia. Com investimentos superiores a 40 milhões de euros ao longo de duas décadas e meia, a empresa expandiu-se pela maioria das ilhas do arquipélago, desenvolvendo projetos que vão desde a dessalinização de água do mar até à produção de energia solar fotovoltaica.
Investimentos em energia solar
Através da sua divisão APP Solar, a empresa opera centrais elétricas com capacidade instalada de 7,6 MW, integrando energia convencional com solar fotovoltaica. A APP foi pioneira na emissão da primeira obrigação verde (green bond) em Cabo Verde, no valor de 500 milhões de escudos, destinada ao financiamento de uma central solar de 5 MW em Salamansa, São Vicente. Este projeto inovador apresenta custos de energia de 5,59 CVE/kWh nos primeiros 15 anos e 4 CVE/kWh entre os anos 16 e 25 – valores 82% inferiores às tarifas reguladas pela ARME.
Em 2018, a APP inaugurou a Central Solar Fotovoltaica de Ponta Preta, no Sal, com capacidade de 1,318 MWp, num investimento de 260 milhões de escudos (aproximadamente 2,5 milhões de euros). Esta central, à época o terceiro maior parque fotovoltaico do país, utiliza 20% da energia produzida para produção e tratamento de água e lavandaria da APP, vendendo os restantes 80% aos hotéis da ilha.
Mais recentemente, a empresa concluiu a construção de cinco centrais solares fotovoltaicas nas ilhas de Santo Antão, São Nicolau, Fogo, Brava e Maio, no âmbito do Projeto de Energias Renováveis e Melhora do Rendimento dos Serviços Públicos de Cabo Verde, financiado pelo Banco Mundial. Estas infraestruturas somam uma potência instalada de 4,788 MWp e uma geração anual estimada de 8.302 MWh.
Complementaridade com o setor público
Na ilha do Sal, a APP atua em complementaridade com a Electra, a empresa pública de eletricidade e água, fornecendo água através de camiões-tanque para zonas urbanas em rápida expansão onde a infraestrutura pública ainda não consegue responder à procura crescente. Esta colaboração tem sido essencial para colmatar falhas temporárias no abastecimento e garantir a continuidade dos serviços básicos à população.
Mobilidade elétrica: TECV e a infraestrutura nacional de recarga
A aposta na mobilidade elétrica é outra vertente relevante do grupo. Através da TECV (Tracções Elétricas de Cabo Verde), empresa criada em 2023, foi desenvolvida uma rede nacional de estações de carregamento para veículos elétricos. A TECV conquistou a concessão de sete anos para implementar e gerir a infraestrutura pública de recarga no país, no âmbito do projeto governamental ProMEC (Promoção da Mobilidade Elétrica em Cabo Verde), financiado pelo Mitigation Action Facility com apoio da cooperação alemã.
A empresa instalou e opera 40 postos de carregamento público em todas as ilhas habitadas, complementados por cerca de 70 pontos de recarga privados, totalizando 110 carregadores geridos por uma plataforma inteligente de autogestão. O investimento na infraestrutura pública foi de aproximadamente 700 mil euros. A tarifa de carregamento está fixada em 40 CVE/kWh, indexada ao preço da eletricidade.
O primeiro posto público de carregamento rápido foi inaugurado em julho de 2023 na cidade de Santa Maria, no Sal, e até abril de 2024 já estavam operacionais mais de 20 carregadores em Santiago, São Vicente e Sal. Este investimento representa um passo importante na promoção de uma mobilidade mais limpa e alinhada com os objetivos nacionais de redução de emissões, com Cabo Verde já contando com mais de 200 veículos elétricos em circulação.
Medidas governamentais e perspetivas futuras
O país estabeleceu como meta atingir 50% de penetração de energias renováveis até 2030 e 100% até 2050, reforçando o seu compromisso com a neutralidade carbónica. Recentemente, têm sido ampliados os investimentos em energia solar e eólica, com a inauguração de várias centrais solares nas ilhas de Santiago, Sal e Boa Vista, que adicionaram 13 MW de capacidade renovável ao sistema.
No entanto, é crucial acelerar estes esforços e mobilizar investimento privado significativo para garantir o desenvolvimento de um sistema energético eficiente, acessível e sustentável. A afirmação do potencial solar do país, aliada a uma gestão eficaz e moderna, à privatização e reestruturação do setor elétrico, e à implementação de tecnologias de armazenamento de energia, poderá não só reduzir drasticamente os custos para todos os consumidores, mas também projetar Cabo Verde como um modelo regional em transição energética, fortalecendo a economia nacional e promovendo um desenvolvimento social equilibrado e sustentável.
Cabo Verde24
Fontes:
ARME – Agência Reguladora Multissetorial da Economia
GlobalPetrolPrices.com – Electricity Prices by Country
Gesto Energy – Renewable Energy Atlas of Cape Verde
APP – Águas de Ponta Preta
TECV – Tracções Elétricas de Cabo Verde
Portal Energia Cabo Verde – Programa ProMEC





































