“Estudo de longo prazo revela que o aquecimento dos oceanos está a esgotar a energia das fêmeas, comprometendo o futuro da espécie.”
O arquipélago de Cabo Verde é mundialmente reconhecido como um santuário para a tartaruga-comum (Caretta caretta). No entanto, por trás das imagens de praias repletas de ninhos, esconde-se uma realidade biológica preocupante. Uma investigação recente, que compilou dados de quase duas décadas, responde à pergunta que intriga conservacionistas: apesar de estarem a chegar mais cedo às nossas costas, as tartarugas estão a produzir menos descendentes.
A resposta reside num desequilíbrio metabólico provocado pelas alterações climáticas. O aumento da temperatura da superfície do mar está a alterar a disponibilidade de alimentos nas áreas de pastagem, forçando estes animais a um esforço físico que a sua biologia não consegue compensar totalmente.
O défice energético no mar
As tartarugas marinhas não se alimentam enquanto estão em Cabo Verde para a desova; elas dependem das reservas de gordura acumuladas em zonas de alimentação ao longo da costa da África Ocidental. Com o aquecimento das águas, a produtividade de nutrientes nessas regiões tem oscilado, tornando a procura por alimento mais difícil e menos eficiente.
Quando as fêmeas iniciam a sua migração para as ilhas do Sal ou da Boa Vista, já o fazem com menos “combustível”. O resultado é uma redução direta na capacidade do organismo em produzir ovos. Em vez de investirem em ninhadas numerosas, o corpo prioriza a sobrevivência da própria fêmea, resultando em ninhos menos povoados.
Quem é a Queen Mary University of London?
A Queen Mary University of London é uma instituição de ensino e investigação de prestígio mundial, sediada no Reino Unido. Através do seu departamento de Biologia e Ciências Químicas, tem liderado estudos fundamentais sobre ecologia marinha em Cabo Verde. A sua colaboração com ONG locais permite que dados científicos robustos sejam transformados em políticas de conservação prática no terreno.
A ilusão da abundância
É fácil cair no erro de pensar que a conservação está ganha ao ver milhares de ninhos nas praias. Contudo, o estudo alerta que este “boom” observado nos últimos anos pode ser um reflexo de esforços passados, enquanto o problema atual — a redução de ovos por fêmea — só terá impacto visível na população adulta daqui a 20 ou 30 anos.
O ajuste no calendário de desova é uma tentativa de adaptação, mas a biologia das tartarugas tem limites. Sem a proteção das rotas migratórias e a mitigação das causas do aquecimento global, o futuro desta espécie icónica no arquipélago permanece incerto.
Caboverde24.info
Fonte: Queen Mary University of London























