“Estudo de 17 anos na Ilha do Sal revela que águas mais quentes antecipam a desova, mas reduzem drasticamente o número de crias”
Um estudo científico de longo prazo, recentemente publicado na prestigiada revista científica Animals (MDPI), trouxe um alerta preocupante para o ecossistema marinho de Cabo Verde. Investigadores da Queen Mary University of London, em estreita colaboração com organizações de conservação locais na Ilha do Sal, revelaram que o aquecimento global está a alterar profundamente o comportamento reprodutivo das tartarugas-comuns (Caretta caretta). O estudo, que compilou dados minuciosos de patrulhas noturnas e levantamentos matinais realizados entre 2008 e 2024, demonstra que o equilíbrio biológico destas criaturas milenares está sob pressão extrema devido ao aumento constante da temperatura dos oceanos.
Alterações no ritmo biológico e alimentar
A investigação científica concluiu que os anos caracterizados por águas mais quentes estão diretamente associados a um início mais precoce da época de nidificação e a períodos de permanência das fêmeas nas praias mais longos. No entanto, esta antecipação temporal não se traduz num maior sucesso reprodutivo para a espécie. Pelo contrário, o aquecimento das águas reduz a disponibilidade de nutrientes e a produtividade biológica no oceano, o que obriga as fêmeas a passar períodos muito mais extensos em busca de alimento. Como consequência direta, as tartarugas chegam à fase crítica da postura com menores reservas de energia, resultando em ninhadas menos frequentes e em ovos significativamente mais pequenos, o que compromete a sobrevivência das crias.
A importância global de Cabo Verde
O arquipélago de Cabo Verde é reconhecido internacionalmente como um dos santuários mais vitais para a reprodução da tartaruga-comum em todo o planeta. A Ilha do Sal, especificamente, alberga a segunda maior concentração de ninhos do país, recebendo anualmente no pico da época entre 9.000 a 17.000 fêmeas. A saúde e a estabilidade desta população não são apenas uma preocupação nacional, mas um pilar fundamental para a sobrevivência global da espécie no Oceano Atlântico. A redução da produção reprodutiva observada no estudo levanta questões sérias sobre a resiliência desta população face às projeções de aquecimento climático para as próximas décadas.
Quem é o Projeto Biodiversidade?
O Projeto Biodiversidade é uma organização não-governamental cabo-verdiana, sem fins lucrativos e sediada na Ilha do Sal, que se dedica exclusivamente à proteção dos ecossistemas locais. Esta instituição foi fundamental para a realização deste estudo, fornecendo os dados primários recolhidos ao longo de quase duas décadas de trabalho no terreno. Através de programas rigorosos de proteção de ninhos, educação ambiental nas escolas locais e forte envolvimento com a comunidade, a organização trabalha para mitigar ameaças como a caça furtiva, a poluição luminosa e os efeitos da erosão costeira, afirmando-se como o principal guardião da fauna marinha na ilha.
Riscos para a resiliência da espécie
Os cientistas e especialistas em conservação alertam que este declínio contínuo na produção reprodutiva poderá atrasar significativamente, ou mesmo impedir, a recuperação plena das populações de tartarugas. O estudo sublinha a necessidade imperativa de políticas de conservação que não se limitem apenas à vigilância das praias de areia, mas que considerem também a proteção das áreas marinhas de alimentação. Sem medidas globais e locais que mitiguem os impactos do aquecimento climático, a capacidade natural de adaptação destas espécies poderá ser ultrapassada, colocando em risco um dos maiores patrimónios naturais de Cabo Verde.
Caboverde24.info
Fonte: Animals (MDPI) / Queen Mary University of London
Nota Editorial: Este artigo foi elaborado com base nas descobertas científicas publicadas em fevereiro de 2026, refletindo o compromisso de Cabo Verde com a preservação da biodiversidade mundial.





































