Infraestrutura energética em Cabo Verde: o novo PCA, João Spencer, assume o desafio de acelerar a transição para as renováveis enquanto gere a complexa rede de distribuição nacional.
De gestor da Emprofac e candidato autárquico a líder da transformação da Electra: o perfil do novo PCA que assume o setor elétrico sob o escrutínio da partidarização da gestão pública.
A mudança de comando no setor energético
Numa movimentação estratégica que redefine o tabuleiro do setor energético nacional, João Spencer foi confirmado, na última Assembleia Geral, como o novo Presidente do Conselho de Administração (PCA) da Electra. Spencer assume o comando num momento crucial, sucedendo a Luís Teixeira, com a responsabilidade de liderar não apenas a empresa mãe, mas todo o ecossistema resultante da reestruturação do setor, incluindo as novas entidades EDEC e EPEC. Mas quem é o gestor a quem o Estado confiou a pasta mais crítica para o desenvolvimento económico de Cabo Verde?
A ligação antiga com a cúpula do poder
João Spencer não é um rosto desconhecido na alta gestão cabo-verdiana. Natural da ilha da Boa Vista, construiu um percurso que oscila entre a administração de grandes grupos privados e a liderança de instituições estatais. O seu currículo técnico sustenta-se numa formação sólida em Administração e Comércio e numa passagem marcante pelo setor privado, onde se destacou no grupo Tecnicil como Diretor de Planeamento e Controlo de Gestão.
É de sublinhar que, durante o seu percurso na Tecnicil, Spencer trabalhou sob a liderança direta de Olavo Correia, atual Vice-Primeiro Ministro e Ministro das Finanças, que à data exercia o cargo de Administrador Geral do grupo. Esta coincidência profissional revela que a confiança técnica entre o novo PCA da Electra e a atual cúpula financeira do Governo foi cimentada muito antes da esfera política, ainda no setor privado. Mais recentemente, Spencer consolidou a sua imagem de gestor público ao presidir à Emprofac e ao atuar como Administrador no Fundo Soberano.
Do palanque eleitoral à gestão pública
Contudo, a nomeação de João Spencer não escapa ao crivo da opinião pública e reacende o debate sobre a circulação de quadros entre a política e as empresas do Estado. A trajetória recente de Spencer é o exemplo mais visível: nas eleições autárquicas de 2024, foi a aposta forte do MpD para tentar recuperar a Câmara Municipal da Boa Vista.
Apesar de uma campanha intensa, o êxito nas urnas não se concretizou, tendo a sua candidatura sido derrotada pela continuidade da gestão local. No entanto, este desaire eleitoral não significou o fim da sua linha política; pelo contrário. Apenas um ano após a derrota na Boa Vista, Spencer transita diretamente do combate partidário local para a liderança da maior empresa pública do país.
Para analistas, este movimento demonstra que, para o Executivo, a “confiança política” e a lealdade demonstrada no combate eleitoral — somadas à sua competência técnica e à antiga ligação profissional a Olavo Correia — pesaram mais do que o resultado das urnas na hora de atribuir a guarda dos ativos energéticos do Estado.
Um caminho alternativo: A meritocracia internacional
Esta nomeação reabre também a discussão sobre a falta de audácia na profissionalização total do Setor Empresarial do Estado. Num momento em que Cabo Verde enfrenta desafios complexos, seria inovadora uma postura que rompesse com a lógica partidária na gestão de ativos críticos como a Electra, os TACV, a gestão de Infraestruturas ou até as Direções Hospitalares.
Vozes críticas da sociedade civil e especialistas em gestão defendem que o “salto qualitativo” só acontecerá quando estas posições forem ocupadas por figuras de inquestionável experiência técnica, possivelmente com percurso internacional, que já tenham provas dadas na recuperação (turnaround) e saneamento de grandes empresas em crise. Optar por gestores de carreira global, blindados contra pressões político-partidárias, seria a verdadeira revolução necessária para garantir a eficiência e a sustentabilidade das empresas estratégicas do país.
Missão hercúlea: privatização e transição energética
Política à parte, a tarefa que o novo PCA tem pela frente é de extrema exigência técnica. João Spencer assume o leme numa fase de transformação estrutural profunda. Com o processo de unbundling (separação das atividades de produção e distribuição) em curso, ele terá de preparar o terreno para a privatização parcial do setor.
As suas prioridades imediatas incluirão:
- Estabilização Financeira: Gerir o passivo da empresa num contexto de alta exigência de capital.
- Transição Energética: Acelerar a penetração das renováveis para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.
- Eficiência Operacional: Combater as perdas técnicas e comerciais que continuam a ser o “calcanhar de Aquiles” da Electra.
Conclusão: Um sinal de alinhamento total
Ao colocar um gestor com perfil financeiro, histórico de colaboração com o Vice-Primeiro Ministro e recente protagonismo político à frente da Electra, o Governo sinaliza que a gestão do dossier energético não admite falhas de comunicação com o poder central. Resta saber se este perfil híbrido será suficiente para resolver os problemas crónicos de energia no arquipélago, ou se a oportunidade de trazer “sangue novo” e expertise internacional foi, mais uma vez, adiada.
Caboverde24.info
Fontes:
• Comunicados da Assembleia Geral da Electra
• Relatórios e Contas da Emprofac (2021-2024)
• Histórico do Grupo Tecnicil
• CNE (Comissão Nacional de Eleições)
• Pagina Facebook João Spencer (incluindo a foto)







































