“Na era das redes sociais, denúncias e lamentos da população cabo-verdiana encontraram espaço e voz principalmente no Facebook.”
Recentemente, foi por este meio que Raffaella Gozzelino, ex-reitora universitária e importante cientista da diáspora, publicou um post contundente sobre a crise dos apagões elétricos que há anos afeta profundamente Cabo Verde. Esta publicação, feita na sua própria página, representa não só o desabafo de uma cidadã ilustre, mas também o eco de uma indignação coletiva que cresce a cada nova interrupção no fornecimento de luz.
Cabo Verde: anos de contínuos apagões
O cenário descrito por Gozzelino não é novidade para os cabo-verdianos. Segundo dados e reportagens, há anos a população convive com cortes frequentes de energia elétrica, prejuízos sociais e económicos e uma crescente sensação de atraso em relação ao progresso mundial. Os apagões são recorrentes e impedem não só atividades essenciais como educação, saúde, comércio, serviços, mas também minam sonhos de inovação tecnológica, desenvolvimento sustentável e atração de investidores.
Esta situação já faz parte da rotina do país, com repercussões diretas em famílias, negócios, serviços públicos e na imagem internacional de Cabo Verde.
Quem é Raffaella Gozzelino
Figura de enorme prestígio académico, Raffaella Gozzelino nasceu em Itália, filha de mãe cabo-verdiana, e construiu uma carreira marcada pela investigação científica, pela liderança na educação superior e pela promoção de redes internacionais de colaboração. Foi reitora da Universidade Técnica do Atlântico e coordenou projetos inovadores ligados à diáspora, ciência e desenvolvimento social. Lidera um grupo de investigação sobre inflamação e neurodegeneração na Nova Medical School, dirige associações científicas mundiais, colabora com instituições internacionais e é fundadora da rede “Diáspora Mundi”, que trabalha pela excelência científica e fortalecimento do capital humano africano. Gozzelino é exemplo de cidadania global, paixão pelo país e dedicação à promoção das gerações futuras, sendo voz ativa no setor público, académico e no debate social.
Do privado ao público: a indignação cresce
O post de Gozzelino reflete um sentimento de exaustão: “Estou profundamente cansada dos constantes cortes de energia elétrica em Cabo Verde. Não se trata apenas de um incómodo, trata-se de um verdadeiro travão ao progresso do país e ao bem-estar das pessoas. Quero trabalhar, quero produzir, mas não consigo. Tudo é interrompido a meio porque o mais básico continua por resolver!”. Em palavras duras e francas, denuncia que o monopólio energético – seja Electra, EDEC ou outras empresas do setor – só atrasa o desenvolvimento. Os cortes afetam profissionais, estudantes, famílias, empresas, a saúde e a própria credibilidade do país perante o mundo.
A sua opinião, publicada no Facebook, representa não só um protesto pessoal, mas também um apelo coletivo por justiça: “Se não conseguem, que se abra o mercado!”. E fecha com uma pergunta incisiva, que serve de chamada à responsabilidade para gestores públicos e privados do setor energético.
Pergunta aos gestores: até quando?
Num país que sonha com modernização, inclusão digital, turismo sustentável e uma economia aberta ao futuro, o que falta para resolver o que é mais básico? E a pergunta lapidar que Gozzelino deixa aos responsáveis:
Até quando vamos aceitar que os cortes de energia sejam um entrave ao bem-estar, à modernização e ao desenvolvimento sustentável de Cabo Verde?
E os administradores responsáveis por tanta evidente e contínua ineficiência não se sentiriam na obrigação de se demitir?
Cabo Verde24
Texto inteiramente fundamentado no testemunho de Raffaella Gozzelino, na sua carreira de relevância internacional e nos dados que confirmam a prolongada crise energética em Cabo Verde







































