Banco Mundial aponta transportes como travão ao crescimento em Cabo Verde

“Representante da instituição no arquipélago defende um sistema de transportes inter-ilhas mais fiável para consolidar a recuperação impulsionada pelo turismo”

Crescimento económico sólido, mas com assimetrias

​O Banco Mundial identificou as dificuldades de transporte entre ilhas como um dos principais constrangimentos ao desenvolvimento inclusivo de Cabo Verde, num novo relatório intitulado “Analisando a Relação entre a Conectividade Inter-Ilhas e o Crescimento”. O documento técnico foi formalmente apresentado na cidade da Praia e confirma que a economia nacional continua a crescer a bom ritmo, mas alerta para fragilidades estruturais severas que limitam um desenvolvimento mais equilibrado entre as diferentes ilhas do arquipélago.

​Segundo o Banco Mundial, a economia cabo-verdiana cresceu 7% em 2024 e 6,3% em 2025, sustentada por um número recorde de chegadas de turistas internacionais e pelo aumento consistente do consumo privado. Para o ano de 2026, a instituição financeira prevê uma desaceleração para 4,8%, refletindo de forma direta os efeitos macroeconómicos do conflito no Médio Oriente, com uma estabilização posterior estimada em torno de 5,1% a médio prazo.

​Apesar destes resultados positivos, o relatório sublinha com preocupação que o crescimento continua concentrado essencialmente nas ilhas do Sal e da Boa Vista, deixando de fora uma parte significativa da população residente, sobretudo nas ilhas menos ligadas ao circuito do turismo de massas.

Transportes domésticos: o elo fraco da economia

​De acordo com os dados apresentados pelo Banco Mundial, o transporte doméstico, tanto no segmento aéreo como no marítimo, apresenta custos operacionais elevados e uma reduzida fiabilidade, constituindo-se atualmente como um dos principais obstáculos à integração económica regional e à diversificação do produto turístico nacional. A fraca conectividade encarece as operações para as empresas e o custo de vida para as famílias, limita de forma expressiva o desenvolvimento das cadeias de valor nacionais e reforça a forte concentração da atividade económica nas ilhas de maior vocação turística.

Indira Campos, representante oficial do Banco Mundial em Cabo Verde, defendeu convictamente a criação urgente de um sistema de transportes inter-ilhas fiável, previsível e acessível como condição mandatória para transformar a atual recuperação impulsionada pelo turismo num crescimento muito mais amplo, inclusivo e resiliente. Segundo a responsável, mitigar as falhas de conectividade reduzirá drasticamente os custos operacionais, integrará com sucesso os mercados locais e garantirá que mais cabo-verdianos, em todas as ilhas, possam beneficiar diretamente do crescimento económico do país.

O que propõe o relatório e o impacto no emprego

​O Banco Mundial recomenda formalmente o reforço rigoroso da regulação técnica, a modernização dos atuais modelos de concessão das ligações domésticas de passageiros e carga e a criação rápida de condições favoráveis para uma maior participação do setor privado nos serviços de transporte aéreo e marítimo inter-ilhas. Segundo a análise da instituição, estas medidas tornariam o sistema de transportes consideravelmente mais previsível e acessível, gerando benefícios económicos diretos para famílias e empresas em todas as ilhas.

​O relatório destaca ainda que o mercado de trabalho global revelou uma resiliência assinalável em 2025, com a taxa de desemprego geral a registar uma descida para 6,2%. Contudo, o desemprego jovem mantém-se estruturalmente acima dos 15%, uma situação crítica que o Banco Mundial associa diretamente às limitações de mobilidade física entre as ilhas, que dificultam seriamente o acesso a novas oportunidades de emprego fora dos principais polos turísticos do arquipélago.

Nota editorial:

Este relatório insere-se numa série de avaliações internacionais que, nos últimos anos, têm identificado de forma recorrente a conectividade inter-ilhas como um dos principais entraves estruturais ao desenvolvimento equilibrado de Cabo Verde, a par da elevada dependência do turismo e dos riscos ligados à gestão financeira das empresas públicas do setor.

Recordamos que…

o Banco Mundial já tinha alertado anteriormente para as assimetrias geradas pela concentração da atividade económica nas ilhas do Sal e da Boa Vista e para os riscos associados à sustentabilidade da dívida pública, temas de conectividade inter-ilhas que este novo relatório volta a reforçar e detalhar neste dia quarta-feira, 15 de julho de 2026.

Caboverde24.info

Fonte: Banco Mundial (World Bank Group)

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