“Paralisação de 72 horas no principal aeroporto do país pode afetar turismo, ligações inter-ilhas e tráfego transatlântico”
Os controladores de tráfego aéreo da empresa Aeroportos e Segurança Aérea (ASA) vão entrar em greve de 72 horas, de 3 a 6 de dezembro, após tentativas de negociação fracassadas com a administração da empresa. O anúncio foi feito esta quinta-feira, na ilha do Sal, em conferência de imprensa pela presidente do Sindicato dos Transportes, Comunicações e Administração Pública (Sintcap), Maria de Brito.
A greve, decidida unanimemente em assembleia realizada no dia 14 de novembro, abrange todos os serviços prestados pelos controladores de tráfego aéreo, com início às 07:30 do dia 3 e término às 07:30 do dia 6 de dezembro. O pré-aviso foi entregue no dia 20 de novembro, seguido de uma reunião de mediação realizada na quinta-feira, 27, na Direção Regional do Trabalho, que terminou sem acordo em nenhum dos pontos reivindicados.
Reivindicações antigas sem resposta
Entre as principais exigências dos controladores estão o enquadramento adequado da carreira profissional, a atualização do subsídio de turno – congelado desde 2019 -, o pagamento mensal das horas extraordinárias trabalhadas entre as 23:30 e as 07:30, a atribuição de descanso compensatório após turnos consecutivos, e a regularização do subsídio de refeição.
Maria de Brito foi clara ao explicar o cerne do problema: “Não existe uma carreira profissional do controlador de tráfego aéreo, consequentemente não há promoções legalmente estabelecidas e o direito à promoção nunca se concretiza”. Os controladores fazem apenas progressões salariais de três em três anos, no valor nunca superior a 4.500 escudos. São necessárias 27 progressões para se atingir o último escalão.
A presidente do Sintcap concluiu que os controladores “não lutam apenas por melhores condições, mas pela segurança e qualidade do serviço de tráfego aéreo” em Cabo Verde.
O que pode acontecer?
A greve marcada para o início de dezembro coloca Cabo Verde numa situação delicada, com potenciais impactos que vão muito além do Aeroporto Internacional Amílcar Cabral.
Caos no principal aeroporto turístico?
Sem controladores de tráfego aéreo, os voos simplesmente não podem operar com segurança. O cenário mais provável é o cancelamento ou adiamento massivo de operações no Sal durante as 72 horas de greve. Centenas de turistas que planearam começar as suas férias em Cabo Verde neste período poderão ver os seus voos cancelados ou desviados.
O timing é particularmente crítico. Dezembro marca o início da época alta turística, quando os hotéis e operadores turísticos do Sal esperam a chegada de milhares de visitantes europeus. Os estabelecimentos hoteleiros, restaurantes e empresas de animação turística podem sofrer perdas significativas com cancelamentos de última hora.
Tráfego transatlântico em risco?
Mas o problema transcende o turismo local. A FIR (Região de Informação de Voo) Oceânica do Sal controla um vasto espaço aéreo sobre o Atlântico, crucial para voos entre a Europa e as Américas do Sul e Central. Dados do primeiro trimestre de 2023 indicavam uma média de 151 voos diários controlados pela FIR do Sal, próxima dos valores pré-pandemia.
Com a greve, as companhias aéreas internacionais que atravessam o espaço aéreo cabo-verdiano terão de encontrar rotas alternativas, aumentando custos operacionais e tempo de voo. Este desvio terá repercussões económicas diretas, já que Cabo Verde cobra taxas pela utilização do seu espaço aéreo – uma fonte importante de receitas para o país.
Cabo Verde Airlines: operações suspensas?
A transportadora nacional Cabo Verde Airlines será provavelmente uma das mais afetadas. Já fragilizada por problemas operacionais e financeiros ao longo de 2025, a companhia não tem margem para absorver mais três dias de paralisação completa das operações.
Para os passageiros com voos domésticos e internacionais marcados, o cenário é de grande incerteza. As ligações inter-ilhas poderão ficar suspensas, deixando residentes e turistas bloqueados nas diferentes ilhas do arquipélago. Quem precisa de viajar por motivos de saúde, trabalho ou emergências familiares enfrentará sérios transtornos.
Segurança aérea em causa?
O argumento dos controladores tem peso quando analisado sob a perspetiva da segurança. Numa profissão que exige concentração absoluta e onde o erro pode ter consequências catastróficas, questões como a fadiga acumulada por turnos consecutivos mal compensados e horas extraordinárias não pagas não são apenas laborais – são de segurança aérea.
Com subsídios congelados há seis anos e sem perspetivas de progressão na carreira, a motivação e as condições de trabalho destes profissionais podem, eventualmente, comprometer a qualidade do serviço prestado.
Três dias para evitar o colapso
Com a reunião de mediação de 27 de novembro terminada sem qualquer acordo, restam poucos dias para a ASA apresentar propostas concretas que evitem a paralisação. Os sindicatos reiteraram que a greve será mantida e apelaram à empresa para retomar as negociações “com propostas concretas”.
O Governo cabo-verdiano terá de decidir se intervém – seja através de mediação reforçada ao mais alto nível, seja através de mecanismos de serviços mínimos que garantam pelo menos operações essenciais como voos médicos e situações de emergência.
Nota da redação
Apesar da tensão atual, a experiência de situações semelhantes em Cabo Verde sugere que um acordo de última hora é o cenário mais provável. Historicamente, greves anunciadas em setores estratégicos têm sido evitadas através de negociações intensivas nos dias que antecedem a paralisação. A caboverde24.info acredita que, dada a criticidade do setor e o impacto económico potencial, ASA e Governo encontrarão uma solução negociada antes de 3 de dezembro, evitando assim o colapso das operações aeroportuárias no início da época alta turística.
Cape Verde24
Fonte: Conferência de imprensa Sintcap, 28/11/2025







































