A saída de Jennifer Adams marca o início de uma nova era diplomática sob a doutrina “América em Primeiro Lugar”
A administração de Donald Trump iniciou uma remodelação sem precedentes no corpo diplomático dos Estados Unidos, visando alinhar a representação externa com a visão “America First”. Em Cabo Verde a Embaixadora Jennifer Adams, que assumiu o cargo em 2023 após uma longa carreira no serviço estrangeiro e na USAID, foi incluída na lista de demissões que afetará 29 países. Recordamos que a relação entre a Praia e Washington tem sido pautada por uma cooperação estratégica em segurança marítima e pelo apoio económico através do Millennium Challenge Corporation (MCC), parcerias que agora entram numa fase de transição sob a nova orientação política da Casa Branca.
A notícia da demissão de Jennifer Adams, a representante máxima de Washington em solo cabo-verdiano, não é um evento isolado, mas o capítulo local de uma mudança sísmica na política externa dos Estados Unidos. Na última semana, o Departamento de Estado americano confirmou a saída de quase 30 diplomatas de carreira de cargos de embaixador. O objetivo da administração Trump é claro: substituir os enviados da era anterior por figuras que promovam, sem hesitações, as prioridades da agenda “América em Primeiro Lugar”.
Cabo Verde, como um dos 13 países africanos diretamente afetados por esta vaga de demissões, encontra-se agora num momento de expectativa. O que esta mudança significa para um arquipélago que historicamente vê nos Estados Unidos um dos seus parceiros de desenvolvimento e segurança mais fiáveis?
A diplomacia de carreira vs. alinhamento político
Jennifer Adams é uma diplomata de carreira. Ao contrário dos nomeados políticos, que normalmente deixam os cargos nas transições de governo, os embaixadores de carreira costumam oferecer uma camada de estabilidade e continuidade técnica às relações bilaterais. A decisão de Trump de remover Adams e outros diplomatas de carreira antes do fim previsto dos seus mandatos sinaliza que a nova administração não pretende manter o “status quo”.
Para Cabo Verde, Jennifer Adams representava a continuidade do apoio ao desenvolvimento através da USAID e o acompanhamento dos preparativos para um possível novo compacto do Millennium Challenge Account. Com a sua saída programada para janeiro de 2025, o canal de comunicação direto entre o Governo da Praia e o Departamento de Estado entra numa fase de interinidade que pode durar meses.
O que muda na prática para Cabo Verde?
A doutrina “América em Primeiro Lugar” é, por natureza, transacional. Isto significa que a ajuda externa e o investimento americano serão cada vez mais medidos pelo retorno direto que trazem aos interesses dos Estados Unidos. Neste novo cenário, podemos esperar mudanças em três pilares fundamentais:
1. Segurança e narcotráfico:
Cabo Verde é a sentinela do Atlântico Médio. É provável que a administração Trump reforce a cooperação militar e policial, mas com um foco muito mais estreito na interdição de drogas e na segurança das rotas comerciais que afetam os EUA. A ajuda poderá tornar-se mais condicionada a resultados operacionais imediatos.
2. O Terceiro compacto do MCC:
Cabo Verde tem sido um “aluno exemplar” nos programas do Millennium Challenge Corporation. No entanto, sob uma administração focada no corte de despesas externas não-essenciais, o país terá de reafirmar a sua importância estratégica para garantir que os fluxos de financiamento para infraestruturas e educação não sofram interrupções ou novos critérios de elegibilidade mais rigorosos.
3. Geopolítica e a influência da China:
Trump tem uma postura declaradamente combativa em relação à expansão chinesa. Cabo Verde, que mantém uma relação de proximidade e grandes investimentos com Pequim, poderá ver-se pressionado por Washington a “escolher um lado” em questões tecnológicas (como o 5G) ou em infraestruturas portuárias estratégicas. A nova diplomacia americana na Praia será certamente mais assertiva em desencorajar parcerias que Washington considere contrárias aos seus interesses de segurança.
A diáspora e as relações humanas
Não podemos esquecer que a relação entre os dois países é sustentada por uma das maiores comunidades cabo-verdianas no exterior. Políticas de imigração mais restritas, frequentemente defendidas pela administração Trump, são uma fonte de preocupação constante para as famílias cabo-verdianas. Embora os embaixadores tenham pouco controlo sobre as leis de imigração em solo americano, a embaixada na Praia é o ponto de contacto para vistos e serviços consulares. Uma mudança de liderança pode trazer novas diretrizes administrativas que afetem a mobilidade entre as ilhas e os Estados Unidos.
Conclusão: Um desafio para a diplomacia Cabo-Verdiana
A demissão de Jennifer Adams não deve ser vista como uma afronta direta a Cabo Verde, mas como o início de um novo estilo de governação global. Para o governo cabo-verdiano, o desafio será adaptar-se rapidamente. Será necessário construir pontes com os novos rostos que chegarão de Washington — figuras que provavelmente virão do mundo empresarial ou de círculos políticos mais próximos da ideologia de Trump.
O arquipélago terá de vender a sua estabilidade e a sua localização geográfica não apenas como um valor democrático, mas como um ativo estratégico “útil” para a visão americana. A era da diplomacia baseada na assistência pode estar a dar lugar a uma era de diplomacia baseada na utilidade mútua.
Em janeiro, quando a bandeira de Jennifer Adams for recolhida e um novo encarregado de negócios ou embaixador assumir o posto na Praia, Cabo Verde começará a escrever um novo capítulo da sua história externa. O pragmatismo será a palavra de ordem.
Cape Verde 24.info
Fonte: City News Everywhere e imprensa Norte Americana
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