“À medida que o turismo cresce, a ilha do Sal enfrenta o desafio de proteger um dos maiores berçários de tartarugas marinhas do mundo — e a luz artificial está no centro do problema.”
Sal, segundo maior berçário de tartarugas do Atlântico
A ilha do Sal alberga um dos mais importantes sítios de nidificação de tartarugas cabeçudas (Caretta caretta) do mundo. Cabo Verde detém cerca de 15% dos ninhos de tartaruga cabeçuda a nível mundial, e só em 2024 foram registados mais de 36.500 ninhos na ilha do Sal — um número recorde que coloca o arquipélago num patamar de responsabilidade ambiental incontornável.
Todas as praias da ilha do Sal são praias de nidificação, incluindo as que ficam em frente a resorts de cinco estrelas ou apartamentos em Santa Maria. Esta realidade cria uma tensão permanente entre o desenvolvimento turístico e a sobrevivência de uma espécie globalmente ameaçada.
A luz artificial: uma ameaça invisível e crescente
Um estudo científico publicado em fevereiro de 2025 na revista Regional Environmental Change mapeou os riscos para os sítios de nidificação em Cabo Verde com recurso a drones, avaliando 61 segmentos de praia. São Vicente, Santiago e Sal são as ilhas mais afetadas, principalmente por detritos marinhos e poluição luminosa, e Sal apresenta a maior sobreposição entre áreas vulneráveis e zonas de alta densidade de ninhos.
A poluição luminosa artificial pode desorientar as fêmeas e as crias, afastando-as do oceano e reduzindo drasticamente as suas hipóteses de sobrevivência. Pode também levar as fêmeas a evitar praias iluminadas ou a atrasar a postura, resultando em tentativas de nidificação falhadas.
O que já está a ser feito
A organização Project Biodiversity, que opera em Sal há mais de uma década, tem vindo a desenvolver parcerias diretas com o setor hoteleiro. Entre as suas iniciativas consta a realização de estudos sobre o impacto da poluição luminosa na dispersão das crias e a relocalização de ninhos em risco para incubadoras protegidas.
Na ilha do Sal, todos os ninhos localizados em zonas edificadas são protegidos em incubadoras, que desempenham um papel fundamental na minimização do impacto do turismo. O grupo hoteleiro RIU tem sido um dos parceiros mais ativos nesta colaboração, disponibilizando espaço e apoio logístico às equipas de conservação.
Um estudo de 2026 alerta: mais tartarugas não significa mais saúde
Um novo estudo científico publicado em fevereiro de 2026, baseado em 17 anos de monitorização em Sal (2008–2024), revela que embora o número de tartarugas que chegam às praias esteja a aumentar, as fêmeas chegam mais cedo, põem menos ovos e demoram até o dobro do tempo a regressar. A coordenadora científica da Associação Projeto Biodiversidade, Kirsten Fairweather, sintetizou o paradoxo: “as tartarugas estão a trabalhar mais para um retorno menor”.
Quem é o Project Biodiversity?
O Project Biodiversity (Associação Projeto Biodiversidade) é uma organização não-governamental cabo-verdiana baseada na ilha do Sal. Fundada para proteger os ecossistemas únicos da ilha, a organização gere programas de conservação marinha e terrestre, com foco principal na proteção das tartarugas marinhas através de patrulhas noturnas, gestão de viveiros e programas de educação ambiental envolvendo a comunidade local e operadores turísticos.
O equilíbrio possível — e necessário
A adoção de protocolos de iluminação específicos — luzes de baixo espetro, orientadas para o interior dos edifícios, desativadas durante a época de nidificação — representa uma medida técnica relativamente simples, com impacto direto na sobrevivência das crias. O que falta é tornar esses protocolos obrigatórios para todos os estabelecimentos hoteleiros adjacentes às praias de nidificação da ilha.
Caboverde24.info
Fonte: Project Biodiversity; Springer Nature; Queen Mary University of London; SWOT.



















