Ozempic, o medicamento contra a obesidade que a OMS recomenda, não está disponível em Cabo Verde

“A revolução farmacêutica contra a obesidade chegou a África, mas Cabo Verde ainda não tem acesso. A caboverde24.info consultou a lista oficial da ERIS e confirmou: nenhum medicamento desta classe tem autorização no arquipélago.”

O medicamento que mudou tudo

​Há um nome que domina o debate mundial da saúde pública desde 2023: Ozempic. O seu princípio activo, a semaglutida, pertence a uma família de fármacos conhecida como agonistas do receptor GLP-1 — originalmente desenvolvidos para a diabetes tipo 2, mas que demonstraram uma capacidade inesperada de provocar perdas de peso significativas, entre 15% e 20% da massa corporal em contexto clínico supervisionado.

​Em poucos anos, tornaram-se o tema central da medicina metabólica a nível mundial. Governos, seguradoras e sistemas de saúde de dezenas de países debatem como integrá-los. Em Cabo Verde, onde quase metade dos adultos vive com excesso de peso, este debate ainda não começou.

A OMS deu luz verde em dezembro de 2025

​Em 1 de dezembro de 2025, a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou a sua primeira directriz global sobre o uso das terapias GLP-1 no tratamento da obesidade, reconhecendo-a formalmente como uma doença crónica e recidivante que exige cuidados ao longo de toda a vida. “As terapias GLP-1 podem ajudar milhões de pessoas a superar a obesidade e a reduzir os seus efeitos nocivos”, declarou o director-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus.

​A directriz recomenda os agonistas GLP-1 como parte de um programa de tratamento estruturado e de longo prazo para adultos com obesidade — não como solução isolada, mas como componente de uma abordagem que inclui mudanças de estilo de vida e acompanhamento profissional.

​Em dezembro de 2025, especialistas africanos de saúde pública apelaram aos governos do continente para que aproveitassem as novas directrizes da OMS, alertando que a inacção poderia aprofundar o peso crescente das doenças não transmissíveis em África. Cabo Verde não deu, até à data, qualquer sinal público de resposta a este apelo.

O que dizia a lista oficial da ERIS

​A caboverde24.info consultou a lista oficial de medicamentos com Autorização de Introdução no Mercado (AIM) publicada pela ERIS — Entidade Reguladora Independente da Saúde —, actualizada a 31 de dezembro de 2023 e composta por 543 medicamentos autorizados a circular em Cabo Verde. Nenhum agonista GLP-1 consta dessa lista. O Ozempic, o Wegovy, o Mounjaro e qualquer outra formulação de semaglutida, liraglutida, dulaglutida ou tirzepatida estão ausentes.

​A directora da Direcção de Regulação Farmacêutica da ERIS, Ester Oliveira, confirmou que o país não dispõe, neste momento, de medicamentos com autorização formal para o tratamento da obesidade ou para emagrecimento. Antes de qualquer medicamento ser comercializado em Cabo Verde, deve passar por uma avaliação técnico-científica no âmbito da Autorização de Introdução no Mercado.

​Existe uma porta lateral: a ERIS tem autorizado, em casos específicos, a importação de fármacos utilizados internacionalmente para este fim, desde que exista fundamentação clínica — o chamado Procedimento Simplificado de Importação Especial. Na prática, esta via é inacessível para a esmagadora maioria da população.

Projeção de custos globais e acesso

O preço da semaglutida de marca nos Estados Unidos oscila entre 4.248 e 9.648 dólares por pessoa por ano nas formulações injectáveis, valor que limitou drasticamente o acesso nos países de rendimento baixo e médio. Com a patente da semaglutida prestes a expirar em vários mercados neste ano de 2026, analistas prevêem uma queda de cerca de 80% nos preços — embora especialistas alertem que a procura elevada nos países ricos pode deixar os doentes dos países de rendimento baixo e médio para trás.

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O que acontece nos países africanos mais avançados

​O caso da África do Sul ilustra o paradoxo que Cabo Verde poderá enfrentar mesmo quando — e se — estes medicamentos chegarem ao arquipélago. Os fármacos GLP-1 não estão disponíveis no sector público sul-africano, e o seu custo elevado significa que o acesso no sector privado está maioritariamente limitado a pessoas com maior poder económico.

​Em Cabo Verde, sem sector farmacêutico privado estruturado para terapias crónicas desta natureza, sem especialistas em medicina metabólica em número suficiente e sem qualquer linha de financiamento público para doenças metabólicas não urgentes, a distância para esta realidade é ainda maior.

Uma janela que pode fechar

​Segundo as directrizes da OMS de dezembro de 2025, os países que pretendam alargar o acesso às terapias GLP-1 têm de considerar dados locais de custo-efectividade, impacto orçamental e implicações sociais e éticas, integrando estas terapias em modelos de cuidados crónicos suportados por sistemas de saúde com capacidade instalada.

​Estima-se que, com a expiração de patentes em 2026, medicamentos genéricos à base de semaglutida possam tornar-se disponíveis em 160 países, abrangendo 69% da população mundial. Se Cabo Verde estiver entre esses países — e nada o garante —, o desafio seguinte será regulamentar, financiar e distribuir estas terapias num sistema de saúde que ainda não tem estrutura para o tratamento crónico da obesidade em larga escala.

​A OMS foi directa: “A medicação por si só não resolverá esta crisis global de saúde.” Mas sem acesso à medicação, tampouco. Para Cabo Verde, a questão não é apenas o Ozempic. É saber se o país está a construir um sistema de saúde capaz de responder à epidemia silenciosa que já se instalou na sua população.

We recall that...

Segundo o Inquérito Nacional do INE de 2020, cerca de 44% dos adultos cabo-verdianos vivem com excesso de peso ou obesidade. Em dezembro de 2025, a OMS recomendou oficialmente os fármacos GLP-1 como tratamento da obesidade crónica. A caboverde24.info verificou a lista oficial da ERIS — 543 medicamentos autorizados — e confirmou que nenhum pertence a esta classe terapêutica. Com a chegada de versões genéricas prevista para este ano de 2026, a janela para agir está aberta, mas não ficará aberta indefinidamente no arquipélago.

Caboverde24.info

Fonte: Organização Mundial de Saúde (OMS) / ERIS — Entidade Reguladora Independente da Saúde de Cabo Verde

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