“Antes das tartarugas gigantes, a primeira grande epifania científica de Charles Darwin aconteceu em Santiago”
O primeiro porto da expedição do Beagle
Quando se fala de Charles Darwin, quase toda a gente pensa nas Galápagos e nas suas tartarugas gigantes.
Mas há um pormenor que poucos conhecem, dentro e fora de Cabo Verde: o primeiro porto onde o naturalista inglês desembarcou na sua viagem de cinco anos a bordo do HMS Beagle foi o Porto da Praia, em Santiago — e foi ali, não no arquipélago das Galápagos, que Darwin teve a intuição que o levaria a escrever sobre o assunto.
Uma escala imprevista no Atlântico
Darwin, com apenas 22 anos, esperava explorar as Ilhas Canárias, mas as autoridades locais recusaram autorizar o desembarque da tripulação. O capitão Robert FitzRoy alterou então o rumo do Beagle rumo a Cabo Verde.
A embarcação ancorou no Porto da Praia a 16 de janeiro de 1832, numa altura em que Darwin tinha ouvido falar do porto da Praia sobretudo pela sua ligação ao tráfico de escravos e chegou com expectativas baixas.
O desânimo inicial durou pouco: o clima tropical e a paisagem vulcânica rapidamente conquistaram o jovem naturalista.
Três semanas que mudaram um cientista
Entre 16 de janeiro e 8 de fevereiro de 1832, Darwin teve a sua primeira oportunidade séria de estudar a história natural de um lugar exótico, e considerou este momento decisivo na própria vida.
Foi em Santiago que decidiu, pela primeira vez, investigar e publicar um livro sobre a geologia dos locais visitados durante a viagem — a semente do método que mais tarde aplicaria à teoria da evolução.
Segundo o seu próprio diário, citado por investigadores, “o primeiro lugar que examinei, nomeadamente São Tiago, nas ilhas de Cabo Verde, mostrou-me claramente a superioridade maravilhosa da forma de Lyell tratar a geologia” — uma referência ao geólogo Charles Lyell, cujas ideias Darwin levava consigo a bordo.
As rochas de Santiago (e a banana “enjoativa”)
Darwin passou os dias a percorrer o interior da ilha, o Ilhéu de Santa Maria (hoje conhecido como Quail Island, dentro do porto da Praia) e a colina de Signal Post Hill, onde estudou camadas de rocha vulcânica intercaladas com uma faixa branca de origem marinha — a chamada “praia antiga de Darwin”.
Foi também em Santiago que provou fruta tropical pela primeira vez: achou a banana “enjoativa e doce, com pouco sabor”, preferindo laranjas e tamarindos.
Um legado ainda pouco conhecido nas ilhas
Apesar da importância histórica, a passagem de Darwin por Santiago permanece quase desconhecida da população local. Na Praia existe uma via com o seu nome — a Avenida Charles Darwin —, uma das poucas homenagens visíveis à sua estadia.
O historiador cabo-verdiano António Correia e Silva e a investigadora Zelinda Cohen dedicaram-lhe um livro, “Cabo Verde: o despertar de Darwin”, que traça um roteiro pelos locais visitados pelo naturalista à volta da capital — um potencial percurso turístico e pedagógico ainda por explorar.
O que foi o HMS Beagle?O HMS Beagle foi um navio de exploração e mapeamento hidrográfico da Marinha Real Britânica que protagonizou, entre 1831 e 1836, a célebre expedição científica ao redor do globo comandada pelo capitão Robert FitzRoy, na qual o jovem Charles Darwin participou como naturalista convidado.
Nota editorial:
A passagem de Darwin por Cabo Verde antecede em três anos a sua chegada às Galápagos (1835), pelo que a “epifania científica” mais divulgada internacionalmente já tinha, na verdade, um capítulo anterior em Santiago.
We recall that...
Cabo Verde foi a primeira escala da viagem que, décadas depois, resultaria na obra “A Origem das Espécies”, sendo esta passagem de 1832 pela ilha de Santiago um capítulo científico do arquipélago sob valorização documental nesta quarta-feira, 22 de julho de 2026.
Caboverde24.info
Fonte: Darwin Online (Universidade de Cambridge) / Geological Society of London





























