“O arquipélago não chegou aqui por acaso: por detrás do ranking está uma estratégia deliberada de transformação digital construída ao longo de seis anos”
Um número que surpreende
Quando se fala de ecossistemas de startups, os nomes que surgem são quase sempre os mesmos: Estados Unidos, Israel, Singapura, Estónia. Cabo Verde não costuma aparecer nessa conversa. E no entanto, o Global Startup Ecosystem Index 2026 da StartupBlink coloca o arquipélago no top 15 mundial na dimensão de atividade da comunidade startup — à frente de países com economias incomparavelmente maiores.
Cabo Verde ocupa hoje a 74.ª posição mundial no ranking, que analisa 120 países e mais de 1.500 cidades, consolidando cinco anos consecutivos de progressão. Desde 2021, o país avançou 13 posições, com um crescimento global do ecossistema de 31,3%, o segundo mais rápido de toda a África Ocidental.
O que explica este resultado?
A aposta na infraestrutura tecnológica tem nome próprio: o TechPark CV. Com um investimento total de 51,85 milhões de euros, dos quais 45,5 milhões financiados pelo Banco Africano de Desenvolvimento, o projeto compreende dois campus — um na Praia, em Santiago, e outro no Mindelo, em São Vicente — inaugurados formalmente em maio de 2025.
Não se trata de uma infraestrutura simbólica. O TechPark CV opera como zona económica especial, oferecendo isenções fiscais sobre importações tecnológicas e sobre o imposto sobre o rendimento. Os seus programas de formação cresceram de seis em 2023 para 50 no primeiro trimestre de 2025, qualificando 2.769 pessoas em áreas como inteligência artificial, cibersegurança e desenvolvimento de software.
O parque alberga hoje 26 empresas de 7 países, e aplica uma taxa de imposto sobre as sociedades de 2,5% para as empresas elegíveis — uma das mais competitivas do continente africano.
A posição geográfica como vantagem estratégica
Há um fator que nenhum investimento pode criar artificialmente: a localização. O presidente do TechPark CV, Carlos Monteiro, descreveu o projeto como “a concretização da ambição de transformar Cabo Verde num hub tecnológico para a África Ocidental”, destacando que a posição atlântica do arquipélago cria uma porta de entrada para investimentos e oportunidades de negócio entre África, Europa e as Américas.
A este ativo geográfico soma-se a conectividade digital internacional, reforçada pelo cabo submarino EllaLink, que liga Cabo Verde à Europa e ao Brasil e reduz a latência nas comunicações digitais.
Talento, diáspora e a estratégia “Brain Gain”
Um dos desafios estruturais de Cabo Verde é a falta de uma força de trabalho especializada em escala. O TechPark CV responde a este problema através de programas como o “Go Global” e o “Brain Gain”, que visam atrair cabo-verdianos altamente qualificados residentes no estrangeiro, para regressarem como investidores, mentores ou trabalhadores remotos dentro do ecossistema do parque.
A diáspora cabo-verdiana — estimada em cerca do dobro da população residente — é assim encarada não como uma perda, mas como um recurso estratégico.
Um modelo para países pequenos
A StartupBlink não passou em branco sobre o significado do caso cabo-verdiano. No seu relatório, a organização descreve Cabo Verde como “um caso de estudo convincente de como nações mais pequenas, com a coordenação e visão certas, podem desenvolver ecossistemas de startups credíveis e ganhar visibilidade internacional”.
A comparação com Israel, Singapura ou a Estónia — países de dimensão reduzida que construíram ecossistemas de inovação de referência global — é cada vez mais frequente nos fóruns internacionais de tecnologia. A inauguração do TechPark CV atraiu mais de 300 empresas, incluindo mais de 100 internacionais como a Intel, a Microsoft e a Smart Africa — um sinal de que o interesse externo é real.
O desafio que vem a seguir
O secretário de Estado da Economia Digital, Pedro Lopes, foi direto no seu comentário aos resultados. Segundo Lopes, “o desafio agora é transformar este reconhecimento em mais startups que conseguem efetivamente fazer negócio, mais investimento e mais emprego qualificado”.
É a questão central: os rankings medem potencial e visibilidade, mas não garantem por si mesmos a sustentabilidade do ecossistema. O próximo capítulo da história do digital em Cabo Verde dependerá da capacidade de reter talento, atrair capital de risco e criar condições para que as startups locais consigam escalar além das fronteiras do arquipélago.
We recall that...
Cabo Verde entrou pela primeira vez no top 100 do ranking StartupBlink em 2020. Em seis anos, passou do anonimato internacional à posição 74.ª mundial, com liderança reconhecida na África Ocidental em múltiplas dimensões do ecossistema de inovação. O Global Startup Ecosystem Index é publicado anualmente e avalia países com base em quantidade de atividade startup, qualidade dessa atividade e ambiente de negócios, confirmando a trajetória ascendente do arquipélago neste mês de junho de 2026.
Caboverde24.info
Fonte: StartupBlink — Global Startup Ecosystem Index 2026;

























