“Uma nova carta da rubrica Entre Nós: a história de Manuel, entre Roterdão e a ilha do Fogo”
A carta de Manuel
Chamemos-lhe Manuel. É natural da ilha do Fogo, mas há dezoito anos vive e trabalha no porto de Roterdão, na Holanda.
É ele quem nos escreve, na primeira pessoa, para partilhar uma dor que carrega desde o início do ano:
“Nha mãe more, e N ka podé txiga tenpu pa odja-l pa últimu vez. Es duenxa ki N ta leba pa dentu di mi ka ta sara.”
“A minha mãe faleceu numa quinta-feira à noite, em São Filipe. Recebi a chamada da minha irmã de madrugada, já a chorar, a dizer que tinha sido rápido, um problema no coração. Nesse momento, o meu mundo parou, mas o relógio não parou comigo.”
“Passei as primeiras horas a tentar encontrar um voo. Não havia lugares diretos, os preços de última hora eram impossíveis para o meu orçamento, e o meu patrão, apesar de compreensivo, só me podia libertar do trabalho dali a dois dias. Cada hora que passava, sentia que estava a trair a minha própria mãe.”
“Cheguei a Cabo Verde três dias depois do funeral. A minha família já tinha enterrado a minha mãe sem mim. Fui direto do aeroporto para o cemitério de São Filipe, sozinho, e chorei diante de uma campa ainda fresca, sem ter podido carregá-la, sem ter podido dizer as últimas palavras que tinha guardado para ela durante tantos anos de saudade.”
“Sinto uma culpa que não sei onde pousar. Dezoito anos a mandar dinheiro, a ligar todos os domingos, a prometer que ia voltar em breve — e no momento mais importante, não estive lá. Os meus irmãos dizem que não tenho culpa, que fiz o que pude, mas há uma voz dentro de mim que não os deixa convencer-me disso.”
“N ta leba kel kulpa li dentu di mi tudu dia. N sabe ma nha irmon ka ta kulpa mi, má N ka ta konsigi tra es pezu di riba di nha peto. Kuzê ki N debé faze pa N para di sinti-m assim? Ken ki dja pasa pa kel mesmu kuza, podé djuda-m ku un konsedju?”
Quem é Manuel?
Manuel é cabo-verdiano da diáspora, trabalhador portuário em Roterdão há quase duas décadas. A sua história representa milhares de emigrantes que vivem longe da família nos momentos decisivos — incluindo a despedida final de quem se ama.
A resposta da redação
Manuel, obrigado por teres tido a coragem de nos escrever sobre uma dor tão profunda. Sabemos que muitos leitores, espalagados pela diáspora, se vão rever nesta carta — porque a distância, quando cruza o luto, deixa uma ferida particular, diferente de qualquer outra.
É importante que ouças isto com clareza: não chegaste tarde por falta de amor. Chegaste tarde porque um oceano, um bilhete de avião e um horário de trabalho se colocaram, por acaso cruel, entre ti e o momento que gostarias de ter vivido. A culpa que sentes é real e compreensível, mas não é justa contigo mesmo.
O luto vivido à distância tem uma particularidade: muitas vezes não há um único momento de despedida onde a dor possa “fechar-se”. Por isso, pode ajudar criar o teu próprio ritual — visitar a campa da tua mãe com calma, levar-lhe uma carta, contar-lhe tudo o que não conseguiste dizer a tempo. O luto não exige estar fisicamente presente no funeral para ser válido ou completo.
Os teus irmãos têm razão ao dizer que não tens culpa — mas sabemos que ouvir isso nem sempre é suficiente para senti-lo. Se esta dor continuar a pesar-te no dia a dia, impedindo-te de dormir ou de viver com tranquilidade, procurar apoio psicológico, mesmo à distância, pode ajudar-te a atravessar este luto de forma mais leve.
A tua mãe passou dezoito anos a receber o teu amor através de chamadas de domingo e de sacrifícios feitos em teu nome. Isso também é presença, Manuel, e é algo que nenhuma distância consegue apagar. A tua história, Manuel, é também a história de um país espalhado pelo mundo.
Nota editorial
Esta rubrica não substitui o acompanhamento de um profissional de saúde mental. Em situações de luto prolongado ou sofrimento emocional persistente, recomendamos sempre a procura de apoio especializado.
We recall that...
esta é mais uma carta publicada na rubrica Entre Nós, espaço criado pelo caboverde24.info para dar voz a histórias como a de Manuel — relatos anónimos e reais, acompanhados com respeito pela nossa redação.
Caboverde24.info
Fonte: Carta enviada por um leitor à redação



























