“Sem recomendações, mas com mais confiança”: o contraste entre duas missões do Fundo Monetário Internacional em dois meses
Uma missão diferente das anteriores
A missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) que visitou Cabo Verde entre 21 e 24 de julho terminou com um tom marcadamente diferente das visitas anteriores.
Ao encerrar os trabalhos, em declarações à imprensa citadas numa nota do Governo, o diretor executivo do FMI para Cabo Verde, André Roncaglia, afirmou que a equipa saiu com mais esperança e confiança do que chegou, descrevendo o país, segundo a mesma nota, como “literalmente, um arquipélago de estabilidade num mundo que está a passar por choques sucessivos”.
A Secretária de Estado das Finanças, Maria José Pereira Lopes, foi ainda mais direta sobre a natureza do encontro: neste momento não há recomendações — existe um compromisso firme de trabalhar em conjunto na procura de soluções.
Esta postura contrasta com a missão técnica de maio, que não poupou críticas a um dos dossiês mais sensíveis da economia nacional: a TACV.
O que disse o FMI em maio sobre a TACV
Em maio, no âmbito da oitava avaliação da Linha de Crédito Alargado (ECF) e da quarta revisão do Mecanismo de Resiliência e Sustentabilidade (RSF), a missão técnica do FMI alertou, em comunicado, que os preços dos combustíveis mais elevados e a expansão de companhias aéreas de baixo custo nas rotas externas estavam a implicar maiores perdas para a TACV, pelo que o Governo deveria reconsiderar a reafectação de recursos para melhorar a conectividade inter-ilhas.
Na mesma ocasião, o Fundo sublinhou que reforçar a resiliência climática, sobretudo nos setores da eletricidade e da água, continuava a ser uma prioridade.
Foi, portanto, uma missão de avaliação técnica com recomendações explícitas — muito distinta da que agora terminou.
Uma missão de “primeiro contacto”
A diferença de tom explica-se, em parte, pela natureza da visita de julho. Tratou-se da primeira aproximação institucional ao governo liderado por Francisco Carvalho, empossado em meados de julho.
Segundo o chefe da missão, Martin Schindler, em declarações à imprensa, o objetivo era reunir-se com o novo governo e dar continuidade ao apoio do FMI a Cabo Verde, numa parceria sólida que já dura várias décadas.
A missão incluiu encontros técnicos e institucionais com o Ministério das Finanças, o Ministério da Economia, o Banco de Cabo Verde, parceiros de desenvolvimento e representantes do setor privado, mas sem o caráter avaliativo da missão de maio.
O retrato económico traçado pelo FMI
Apesar da ausência de recomendações formais, a missão deixou um diagnóstico macroeconómico atualizado.
Segundo o comunicado final da missão:
- A economia cabo-verdiana cresceu 6,4% em termos homólogos no primeiro trimestre de 2026, impulsionada por um forte investimento e pela exportação de serviços;
- A inflação manteve-se baixa, em 1,1% em junho;
- As reservas internacionais continuam a oferecer uma almofada confortável contra choques externos.
O Fundo notou, contudo, que persistem vulnerabilidades importantes, incluindo a dívida pública elevada e a exposição a choques externos e climáticos.
Quem é o FMI para Cabo Verde?
O FMI acompanha Cabo Verde há quase cinco décadas, apoiando o país através de linhas de crédito como a ECF (Linha de Crédito Alargado) e o RSF (Mecanismo de Resiliência e Sustentabilidade), instrumentos que combinam financiamento com reformas estruturais nas finanças públicas, no setor energético e na gestão da dívida.
Nota editorial
É importante notar que a ausência de recomendações nesta missão não significa que os temas levantados em maio — como a situação da TACV ou a dívida pública — tenham sido resolvidos ou esquecidos. Trata-se, segundo as próprias autoridades, de uma fase de escuta institucional; as avaliações técnicas mais detalhadas tendem a ocorrer em missões subsequentes. Note-se ainda que o pacote de apoio anunciado em maio (cerca de 8,9 milhões de euros) não é automático: depende de aprovação formal pelo Conselho Executivo do FMI.
We recall that...
a missão do FMI a Cabo Verde decorreu entre 21 e 24 de julho, tratando-se do primeiro contacto institucional com o governo de Francisco Carvalho, empossado em meados do mesmo mês. Em maio, uma missão técnica anterior tinha alertado para as perdas da TACV e para a necessidade de reforçar a resiliência climática, no âmbito de um pacote de apoio de cerca de 8,9 milhões de euros, ainda sujeito a aprovação do Conselho Executivo do Fundo.
Caboverde24.info
Fonte: Governo de Cabo Verde / Fundo Monetário Internacional







































