CV Interilhas: quase três anos de avarias, interrupções e constrangimentos nas ligações entre ilhas

Em 30 segundos

🚢 Quase três anos analisados: o Caboverde24.info reconstituiu os principais episódios que condicionaram as ligações marítimas desde janeiro de 2024.

👥 Passageiros e mercadorias: houve passageiros retidos, viagens canceladas ou reprogramadas e constrangimentos no abastecimento de algumas ilhas.

📊 2024 apresentou indicadores positivos: a CV Interilhas realizou 3.436 viagens e transportou 517.956 passageiros, segundo o relatório de gestão da concessionária.

⚖️ Concessão e diferendo: a empresa explora o serviço público marítimo interilhas através de uma concessão de 20 anos. Um diferendo contratual e financeiro com o Estado permanece sem decisão judicial definitiva publicamente conhecida.

Um levantamento a partir das preocupações dos leitores

Nos últimos meses, o Caboverde24.info recebeu de leitores referências a atrasos, alterações de horários, interrupções e outras dificuldades sentidas nas deslocações marítimas entre as ilhas.

A redação decidiu, por isso, reunir e organizar cronologicamente os principais acontecimentos tornados públicos desde o início de 2024.

Foram consultadas comunicações da CV Interilhas, relatórios da empresa, documentos oficiais, informações de entidades públicas, imprensa nacional e testemunhos de passageiros divulgados publicamente.

As ocorrências têm origens diferentes: avarias mecânicas, manutenção programada, incidentes durante manobras ou reparações, limitações de infraestruturas portuárias, assoreamento e condições meteorológicas adversas.

Nem todos os atrasos ou cancelamentos podem, portanto, ser atribuídos à concessionária.

Quem é a CV Interilhas

A Cabo Verde Interilhas – Transportes Marítimos, S.A., conhecida como CV Interilhas, foi constituída em 2019 e iniciou a operação concessionada em agosto desse ano.

O Estado de Cabo Verde celebrou com a empresa um contrato de concessão por 20 anos para a prestação do serviço público de transporte marítimo de passageiros e carga entre as ilhas.

A sociedade reúne 12 armadores. O Grupo ETE detém 51% do capital, através da Transinsular e da Transinsular Cabo Verde. Os restantes 49% pertencem a 11 armadores cabo-verdianos.

O modelo procurou integrar diferentes ligações marítimas numa operação única, incluindo rotas para ilhas com menor população e menor procura comercial.

Estado e CV Interilhas mantêm diferendo sobre a concessão

A relação contratual entre o Estado e a concessionária registou divergências financeiras e de interpretação do contrato desde os primeiros anos da concessão.

Uma das matérias em discussão esteve relacionada com os custos considerados elegíveis para efeitos de indemnização compensatória.

Segundo o Governo, determinadas verbas foram retidas por existirem dúvidas técnicas quanto à respetiva elegibilidade.

Em abril de 2023, as partes celebraram uma adenda ao contrato que fixou a indemnização compensatória em 6,6 milhões de euros por ano, a preços de janeiro de 2023 e sujeita a atualização.

Segundo o Executivo, a partir dessa alteração deixaram de existir retenções relacionadas com os pagamentos posteriores à adenda.

Permaneceram, contudo, divergências acumuladas desde os primeiros anos da concessão.

Em 2024, a CV Interilhas requereu a constituição de um Tribunal Arbitral, reclamando cerca de 16 milhões de euros no âmbito dessas divergências contratuais.

O processo arbitral não ficou limitado aos valores anteriores à adenda. O tribunal pronunciou-se também sobre outras matérias contratuais, incluindo a cláusula de exclusividade, custos de funcionamento da concessão, horários e tarifários.

O acórdão está datado de 23 de junho de 2025 e deu razão à concessionária em várias das pretensões apresentadas.

A decisão não foi unânime.

Segundo o Governo, o árbitro por si indicado apresentou voto de vencido relativamente a diferentes pontos do acórdão.

O Executivo contestou a decisão e, em 22 de agosto de 2025, apresentou no Supremo Tribunal de Justiça um pedido de anulação, alegando ilegalidades e irregularidades.

O Governo informou igualmente que os valores reclamados no âmbito do processo não tinham sido pagos.

Nas fontes públicas consultadas pelo Caboverde24.info até ao fecho desta reportagem, não foi localizada uma decisão posterior do Supremo Tribunal de Justiça que encerre definitivamente o diferendo.

A concessão continua em vigor enquanto o processo segue a sua tramitação.

Infografia: cronologia das principais avarias, incidentes, limitações portuárias e interrupções que condicionaram as ligações da CV Interilhas entre 2024 e 2026, com os respetivos impactos na operação e nos passageiros.

O episódio mais recente ocorreu no Liberdadi

Em 3 de outubro de 2026, o Liberdadi deveria realizar a ligação Santiago–Fogo–Brava.

Antes da saída do Porto da Praia foi identificado um problema num dos geradores, impedindo a embarcação de cumprir o horário programado.

A equipa técnica iniciou uma intervenção e a empresa informou que um componente necessário à conclusão dos trabalhos seria mobilizado a partir de São Vicente.

Durante o dia, a previsão de retoma foi sendo alterada.

Na última atualização recebida pela redação em 3 de outubro, a CV Interilhas previa uma possível partida da Praia às 02h00 de 4 de outubro, condicionada à conclusão dos trabalhos e às verificações de segurança.

Na manhã de 4 de outubro, porém, a programação oficial disponível já não apresentava essa ligação Santiago–Fogo–Brava às 02h00.

O Liberdadi aparecia programado para a ligação Santiago–Maio às 17h00 de domingo, 4 de outubro, e para Santiago–Fogo às 07h00 de segunda-feira, 5 de outubro.

Até ao fecho desta reportagem, o Caboverde24.info não encontrou confirmação pública acessível de que a partida prevista para as 02h00 tenha efetivamente sido realizada.

Janeiro de 2024 — avaria no sistema de governo do Dona Tututa

No final de janeiro de 2024, o Dona Tututa sofreu uma avaria no sistema de governo e manobra que condicionava a sua capacidade de navegar em segurança.

Durante a reparação, a CV Interilhas colocou o navio Interilhas na rota São Vicente–São Nicolau–Sal–Boa Vista.

A empresa informou que aguardava peças provenientes de Portugal e reorganizou horários e viagens durante a indisponibilidade do Dona Tututa.

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Março de 2024 — intervenção anunciada para três dias, regresso a 12 de março

A 1 de março, a concessionária anunciou uma intervenção técnica no Dona Tututa a partir do dia 8, inicialmente prevista para três dias.

A intervenção incluía uma atualização do software do sistema de geradores de energia.

A retoma estava prevista para 11 de março.

As viagens abrangidas pelo período de intervenção foram canceladas.

Na véspera do regresso, a Lusa noticiou que o navio voltaria a navegar no dia 12, depois de ter permanecido, segundo a agência, cerca de uma semana parado devido a uma avaria.

A CV Interilhas indicou que aproximadamente 800 passageiros tinham sido afetados.

A empresa referiu ainda que o Dona Tututa realizava 18 viagens por semana e apresentava uma taxa de operacionalidade de 93,4%.

Abril de 2024 — mais de sete horas de atraso por problema na rampa da Praia

Em 12 de abril surgiu um constrangimento de origem diferente.

Um problema na rampa ro-ro do Porto da Praia provocou um atraso superior a sete horas na saída do Dona Tututa de Santiago para São Vicente.

A ocorrência condicionou igualmente a operação do Kriola, que chegava do Fogo.

A CV Interilhas e a ENAPOR procuraram alternativas enquanto a infraestrutura permanecia indisponível.

Neste caso, a origem do atraso estava no equipamento portuário e não nas embarcações.

Maio de 2024 — assoreamento condiciona Porto Inglês

No Maio, o assoreamento do Porto Inglês também condicionou a operação.

As condições existentes na zona da rampa impediram o Kriola de realizar normalmente algumas operações.

Foi adotado um modelo em que o Kriola assegurava passageiros, enquanto o Dona Tututa era utilizado no apoio ao transporte de mercadorias.

Os problemas relacionados com a infraestrutura do Porto Inglês voltariam a condicionar o serviço em períodos posteriores.

Outubro de 2024 — duas intervenções no Dona Tututa

Em 19 de outubro, o Dona Tututa ficou retido no Porto Grande, em São Vicente, devido a problemas técnicos operacionais.

Foram afetadas viagens para São Nicolau, Sal, Boa Vista e Praia.

Poucos dias depois surgiu nova paragem.

Entre 29 e 31 de outubro, a CV Interilhas anunciou uma “intervenção técnica urgente” na embarcação, obrigando ao cancelamento das viagens previstas nesses três dias.

Liberdadi também esteve em intervenção em 2024

O relatório de gestão da empresa refere que o Liberdadi esteve sujeito a reparação corretiva e manutenção preventiva entre 3 de outubro e 18 de novembro de 2024.

Tratou-se de uma intervenção técnica que deve ser distinguida de uma avaria inesperada.

Os resultados globais de 2024 foram positivos

Apesar das ocorrências documentadas, os indicadores globais apresentados pela concessionária para 2024 foram positivos.

A CV Interilhas realizou 3.436 viagens, mais 7% do que em 2023 e acima das 3.316 previstas no modelo operacional contratual.

Foram transportados 517.956 passageiros, mais 17% do que no ano anterior.

O relatório apresenta um índice médio anual de operacionalidade da frota de 95%.

No gráfico individual são divulgados 100% para o Chiquinho BL, 94% para o Kriola e 91% para o Dona Tututa.

O mesmo gráfico não apresenta uma taxa individual de operacionalidade para o Liberdadi, embora o relatório refira separadamente as intervenções realizadas naquela embarcação durante 2024.

Posteriormente, o administrador Fernando Braz de Oliveira falou numa taxa de disponibilização dos navios próxima de 98% em 2024.

Como as fontes utilizam indicadores e valores diferentes, as duas percentagens não devem ser consideradas automaticamente equivalentes.

Os 517.956 passageiros transportados em 2024 ficaram também muito próximos dos 517.541 registados em 2021.

Janeiro de 2025 — cais de Tarrafal de São Nicolau indisponível

Em 29 de janeiro, as ligações São Vicente–São Nicolau e São Nicolau–Santiago foram afetadas pela indisponibilidade do cais do Porto do Tarrafal de São Nicolau.

O cais encontrava-se ocupado pelo navio Nho Padre Benjamin.

Foi organizada uma operação extraordinária de transbordo, com recurso a uma embarcação de pesca local, para reduzir os efeitos sobre os passageiros.

A origem do constrangimento não estava numa avaria da frota da CV Interilhas.

Fevereiro de 2025 — 81 passageiros retidos na Boa Vista

A 22 de fevereiro, uma ocorrência técnica no Dona Tututa afetou a ligação Santiago–Boa Vista–Sal–São Nicolau–São Vicente.

A embarcação permaneceu na Boa Vista para avaliação.

No dia seguinte, 81 passageiros em trânsito encontravam-se retidos em Sal Rei.

Alguns passageiros ouvidos pela imprensa queixaram-se da informação e da assistência recebidas durante parte da espera.

A CV Interilhas respondeu posteriormente que os passageiros tinham sido informados e assistidos.

O Kriola foi mobilizado para substituir temporariamente o Dona Tututa.

27 de fevereiro — Kriola sofre incidente na Palmeira

Na quinta-feira, 27 de fevereiro, o Kriola embateu no cais durante uma manobra de atracação no Porto da Palmeira, no Sal.

A CV Interilhas relacionou o incidente com as condições meteorológicas adversas, incluindo vento forte e rajadas.

Não houve feridos.

Dezoito passageiros em trânsito receberam alojamento enquanto eram procuradas alternativas para prosseguir viagem.

O navio seguiu posteriormente para reparação.

Março de 2025 — duas embarcações simultaneamente indisponíveis

No início de março, a CV Interilhas tinha duas embarcações simultaneamente indisponíveis.

O Dona Tututa permanecia em reparação na sequência da ocorrência técnica de 22 de fevereiro, que envolvia uma avaria na caixa de engrenagens.

O Kriola encontrava-se, por sua vez, em reparação depois do embate no Porto da Palmeira.

Em 5 de março, a empresa informou que recorreria à Transinsular Cabo Verde para apoiar o transporte de cargas entre Santiago, Sal, Boa Vista e São Vicente.

A indisponibilidade simultânea das duas embarcações reduziu as alternativas disponíveis para reorganizar as diferentes linhas.

Abril de 2025 — problema no motor principal do Liberdadi

Em 16 de abril, um incidente técnico no motor principal do Liberdadi impediu a realização da ligação Santiago–Maio.

O Dona Tututa foi mobilizado para assegurar parte das ligações afetadas.

A 18 de abril, a CV Interilhas anunciou que o Liberdadi estava novamente operacional.

Três dias depois ocorreu um novo incidente.

21 de abril — Liberdadi fica imobilizado junto ao Porto da Praia com 144 passageiros

O Liberdadi saiu da Praia com destino ao Fogo.

Depois de ser identificada uma anomalia durante a viagem, a tripulação decidiu regressar a Santiago.

Na aproximação ao Porto da Praia, uma falha num gerador afetou o controlo da máquina principal e a embarcação acabou por ficar imobilizada junto ao quebramar.

Seguiam a bordo 144 passageiros.

Todos foram desembarcados em segurança e não houve feridos.

As ligações Santiago–Fogo–Brava e Santiago–Maio ficaram posteriormente suspensas.

Kriola também estava indisponível

Nesse período, o Kriola encontrava-se igualmente indisponível e viria a permanecer em processo de reparação, inspeções em doca e renovação dos certificados de Classe e Bandeira.

A CV Interilhas não dispunha naquele momento de uma embarcação capaz de substituir integralmente o Liberdadi em toda a Linha Sotavento.

Foi necessário reorganizar a operação disponível.

Maio e junho de 2025 — trabalhos no Kriola prolongam-se

Em 27 de maio, durante os trabalhos na CABNAVE, o Kriola sofreu um descarrilamento parcial no berço de assentamento.

Não houve feridos.

No final de junho, os primeiros testes de estanqueidade não apresentaram resultados satisfatórios, obrigando a novas verificações e intervenções no casco.

O regresso às operações regulares ocorreu apenas em julho, após reparações, inspeções de navegabilidade e renovação das certificações.

Junho de 2025 — operação com apenas dois navios

Em 17 de junho, a própria CV Interilhas informou que estava a trabalhar num “contexto de emergência”, com apenas dois navios disponíveis.

A empresa indicou Maio e Brava entre as ilhas mais afetadas pela indisponibilidade do Kriola e do Liberdadi.

No mesmo comunicado, a concessionária afirmou que os atrasos no regresso das duas embarcações decorriam de fatores alheios à sua responsabilidade.

A programação do Dona Tututa foi ajustada para reduzir os constrangimentos.

Novidade transportes

Julho de 2025 — passageiros relatam sucessivas alterações

No início de julho, passageiros em São Vicente com destino a São Nicolau e Sal relataram à Inforpress sucessivas marcações, adiamentos e cancelamentos.

Alguns disseram ter regressado várias vezes ao Porto Grande depois de receberem novas datas para viajar.

Foram mencionadas despesas adicionais com alimentação e alojamento e dificuldades relacionadas com compromissos profissionais e pessoais.

Trata-se de testemunhos individuais, que não constituem uma avaliação estatística da satisfação do conjunto dos passageiros.

Brava regista dificuldades de abastecimento

Durante o mesmo período, comerciantes da Brava relataram falta de vários produtos, entre os quais óleo, açúcar, leite, frutas, legumes e congelados.

As dificuldades foram associadas à irregularidade das ligações marítimas durante a indisponibilidade de parte da frota.

Com a progressiva normalização das viagens, a situação melhorou.

Setembro de 2025 — Liberdadi regressa

Em 24 de setembro, o Liberdadi voltou oficialmente às operações, cerca de cinco meses depois do incidente na Praia.

A embarcação tinha concluído os trabalhos técnicos, inspeções e processos de certificação exigidos.

O regresso permitiu uma nova reorganização da frota.

Outubro de 2025 — Dona Tututa entra em docagem obrigatória

No início de outubro de 2025, o Dona Tututa entrou em docagem obrigatória para cumprimento das exigências de Classe e Bandeira e renovação das certificações internacionais.

A previsão inicial apontava para cerca de 60 dias.

O processo prolongou-se muito além desse período.

6 de novembro de 2025 — nova falha técnica no Kriola

A 6 de novembro, uma falha técnica impediu o arranque de um dos motores do Kriola durante a preparação da ligação Santiago–Fogo.

A programação para Fogo, Brava e Maio teve de ser reorganizada.

O Kriola regressou às operações em 9 de novembro, com partida de Santiago para o Fogo.

A ligação Santiago–Maio prevista nesse dia sofreu igualmente uma alteração de horário.

Dona Tututa permanece vários meses fora da operação

A docagem do Dona Tututa prolongou-se.

A embarcação permaneceu cerca de 120 dias no estaleiro.

Posteriormente, durante testes de navegação, ocorreu um incidente relacionado com um tanque de lastro.

Segundo a CV Interilhas, os elementos técnicos disponíveis apontavam para uma obstrução no sistema de respiração do tanque e para procedimentos de verificação que a empresa considerou não terem sido realizados pelo estaleiro.

A CABNAVE contestou a imputação de responsabilidade, afirmando que os trabalhos solicitados tinham sido concluídos e aprovados e defendendo que o apuramento das causas deveria resultar da avaliação técnica competente.

Na altura, o ministro do Mar considerou igualmente prematuro atribuir responsabilidades pelo incidente.

Em abril de 2026, durante as inspeções e testes posteriores, foi ainda detetada uma pequena fissura na chapa de fundo, na zona das cavernas à frente da casa das máquinas, que provocou entrada de água.

Foi necessária uma nova passagem pela doca para trabalhos corretivos.

O Dona Tututa regressou posteriormente à operação.

O período de indisponibilidade não corresponde integralmente a uma avaria: incluiu manutenção estatutária, reparações, testes, inspeções e processos de certificação.

CV Interilhas foi distinguida como “Empresa Excelência 2024”

Em novembro de 2025, a CV Interilhas foi anunciada entre as 25 empresas certificadas com o selo “Empresa Excelência 2024”.

A entrega formal das distinções ocorreu em 28 de novembro de 2025, no auditório principal do TechPark, na Praia.

A iniciativa é promovida pela BTOC Cabo Verde, com apoio técnico do Accelerator Lab do PNUD e apoio do Ministério das Finanças.

Os critérios utilizados incluem robustez financeira, governação, responsabilidade social, sustentabilidade e diferentes indicadores de desempenho empresarial.

A distinção corresponde, portanto, a um reconhecimento empresarial baseado nesses critérios e não constitui especificamente uma classificação da pontualidade das viagens ou da satisfação dos passageiros com o transporte marítimo.

Junho de 2026 — trabalhos programados no Dona Tututa

Em junho, trabalhos técnicos programados no Dona Tututa obrigaram a alterar a Linha Retangular.

As viagens inicialmente previstas entre 3 e 5 de junho foram transferidas para 10 a 12.

O navio manteve entretanto a operação na Linha Redonda.

Tratou-se de uma intervenção programada e não de uma avaria imprevista.

Porto Inglês voltou a condicionar cargas em 2026

No final de maio e durante junho de 2026, a inoperacionalidade da rampa metálica do Porto Inglês voltou a condicionar o transporte de cargas e viaturas para o Maio.

A infraestrutura tinha sido afetada pela forte agitação marítima.

O Liberdadi conseguiu utilizar a rampa de betão para o transporte de passageiros, mas sem condições para assegurar normalmente o embarque e desembarque de viaturas e cargas.

A CV Interilhas mobilizou o Dona Tututa para viagens extraordinárias destinadas ao abastecimento da ilha.

Estas operações obrigaram igualmente a reajustes na programação da Linha Redonda.

A origem do constrangimento estava na infraestrutura portuária e nas condições marítimas, e não numa avaria das embarcações.

Julho de 2026 — cabo de aço danifica hélice do Liberdadi

Em 20 de julho, durante uma manobra no Porto da Praia, uma defensa do cais soltou-se.

O respetivo cabo de aço enrolou-se na hélice de bombordo do Liberdadi, deformando-a.

A operação foi suspensa por razões de segurança.

As viagens Santiago–Fogo–Brava foram canceladas e o Dona Tututa teve de ser mobilizado para assegurar parte das necessidades operacionais.

A alteração teve igualmente efeitos noutras linhas.

Duas viagens para o Maio foram canceladas

A indisponibilidade do Liberdadi provocou também o cancelamento de duas viagens previstas para o Maio.

Passageiros ficaram condicionados e o transporte de mercadorias foi afetado num período de procura elevada.

As alternativas aéreas eram igualmente limitadas naquele momento.

Retoma anunciada e nova intervenção

O Liberdadi seguiu para a CABNAVE, onde foi reparado e submetido a testes de navegação.

A CV Interilhas anunciou a retoma da operação.

Depois da chegada do navio novamente a Santiago, porém, foi identificada a necessidade de outra intervenção técnica.

A ligação Santiago–Fogo–Brava teve de ser novamente alterada.

Críticas nas redes sociais são frequentes, mas não constituem uma sondagem

Atrasos, cancelamentos e sucessivas alterações de horários originam regularmente comentários críticos nas redes sociais.

Entre os temas mencionados pelos utilizadores estão a previsibilidade dos horários, a informação durante as interrupções, a assistência aos passageiros e o atendimento.

Esses comentários permitem conhecer experiências individuais, mas não representam necessariamente a opinião da totalidade dos passageiros.

Não existe uma amostra estatisticamente representativa que permita transformar as reações publicadas nas redes numa medida global da satisfação dos utilizadores.

Reclamações formais também incluem a CV Interilhas

Existem igualmente registos de reclamações formais.

A ADECO já incluiu a CV Interilhas entre as empresas objeto de queixas relacionadas, entre outros aspetos, com informação aos clientes, alterações de horários e qualidade do serviço.

Em 2025, a concessionária voltou a surgir entre as entidades com reclamações registadas pela associação, embora não estivesse entre as empresas que lideravam o ranking.

Inquérito da empresa apresentou 75% de satisfação em 2024

O próprio relatório de gestão da CV Interilhas apresenta um indicador favorável à empresa.

Num inquérito realizado através do call center foram efetuados 891 contactos e recolhidas 306 respostas.

Segundo o relatório, 75% dos participantes declararam-se satisfeitos ou muito satisfeitos, 20% pouco satisfeitos e 5% insatisfeitos.

O principal aspeto apontado para melhoria foi “Comunicação/informação ao cliente”.

A auditoria de acompanhamento da certificação ISO 9001 realizada em 2024 identificou igualmente oportunidades de melhoria no processo de gestão das reclamações, particularmente no tratamento e resolução dos casos.

2025 ficou abaixo dos resultados do ano anterior

Os resultados operacionais diminuíram em 2025.

Segundo o administrador Fernando Braz de Oliveira, foram realizadas cerca de 3.200 viagens e transportados aproximadamente 435 mil passageiros.

A própria administração considerou os resultados muito abaixo dos alcançados em 2024.

A empresa relacionou essa redução com condições meteorológicas adversas e com os problemas que atingiram o Kriola e o Liberdadi.

A CV Interilhas sustenta, contudo, que as obrigações de serviço público previstas contratualmente foram cumpridas dentro dos parâmetros estabelecidos.

Governo reconheceu dificuldades no modelo

Em agosto de 2025, o então ministro das Finanças, Olavo Correia, reconheceu publicamente a existência de falhas no modelo de parceria com a CV Interilhas e afirmou que o Governo não estava satisfeito com o nível de serviço então existente.

As declarações foram feitas no contexto do debate sobre a concessão, as responsabilidades do Estado e da empresa e a organização do transporte marítimo interilhas.

Nem todas as interrupções tiveram a mesma origem

A cronologia reúne situações de natureza diferente.

Algumas resultaram de avarias mecânicas.

Outras decorreram de manutenção programada, docagens e processos obrigatórios de certificação.

Houve ainda problemas relacionados com cais, rampas portuárias, assoreamento e condições meteorológicas ou marítimas adversas.

A soma das viagens alteradas não deve, portanto, ser apresentada como número de avarias nem como responsabilidade exclusiva da CV Interilhas.

Da mesma forma, cancelar ou adiar uma viagem quando não estão reunidas condições de segurança constitui uma medida necessária à operação marítima.

Menos embarcações disponíveis obrigaram a alterações noutras linhas

Os episódios analisados mostram que a indisponibilidade de determinadas embarcações teve efeitos noutras partes da programação.

Quando um navio ficou temporariamente fora da operação, houve situações em que outra embarcação teve de ser deslocada para assegurar a ligação afetada.

Em março de 2025, o Dona Tututa e o Kriola encontravam-se simultaneamente indisponíveis.

Em abril, o Liberdadi ficou fora de serviço numa altura em que o Kriola continuava em manutenção.

Em junho daquele ano, a própria empresa informou que trabalhava com apenas dois navios num “contexto de emergência”.

Em diferentes momentos, a realocação de navios para uma rota obrigou também a modificar horários ou viagens de outras linhas.

Estes episódios mostram a importância da disponibilidade de embarcações de substituição para a regularidade de uma rede que serve diferentes ilhas.

Mais dados permitiriam avaliar melhor a regularidade

Uma avaliação mais completa do serviço beneficiaria da divulgação pública e consolidada de indicadores operacionais.

Entre eles estão a percentagem de viagens realizadas dentro do horário, os cancelamentos discriminados por causa, o tempo médio necessário para repor uma embarcação, o número de passageiros reprogramados ou assistidos e os prazos de tratamento das reclamações.

A publicação regular da disponibilidade efetiva da frota e da capacidade de substituição ajudaria igualmente a acompanhar a evolução do serviço de forma objetiva.

Transporte marítimo permanece essencial para passageiros e economia

As consequências de uma alteração numa ligação marítima podem ultrapassar a própria viagem.

Para um passageiro, um atraso pode interferir com voos, consultas, trabalho ou compromissos familiares.

Para uma empresa, pode significar mercadorias entregues mais tarde, alterações no abastecimento ou cancelamentos de reservas.

A cronologia entre janeiro de 2024 e outubro de 2026 mostra períodos de bons indicadores globais de operação e outros em que diferentes embarcações estiveram simultaneamente ou sucessivamente indisponíveis.

Mostra também que as causas foram diversas e que avarias dos navios, intervenções de manutenção, condições meteorológicas e limitações das infraestruturas portuárias devem ser analisadas separadamente.

Regularidade das ligações, capacidade de substituição dos navios, assistência aos passageiros e qualidade da informação são, por isso, indicadores relevantes para acompanhar a evolução do serviço público de transporte marítimo interilhas em Cabo Verde.

Cape Verde 24.info

Fonte: CV Interilhas; Relatório de Gestão 2024 da CV Interilhas; Governo de Cabo Verde; acórdão arbitral de 23 de junho de 2025; Boletim Oficial; BTOC Cabo Verde/Empresa Excelência; Inforpress; Lusa; Expresso das Ilhas; ADECO; ENAPOR e imprensa nacional.

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