Cabo Verde chama médicos aposentados: quem vai substituir os especialistas que deixam os hospitais?

Em 30 segundos

🩺 Cirurgia, cardiologia, urologia e radiologia estão entre as especialidades atualmente em falta, segundo o Ministério da Saúde.

👨‍⚕️ O Ministério começou a ouvir médicos aposentados para saber quem está disponível para voltar a colaborar com o Serviço Nacional de Saúde.

⚠️ O plano nacional para 2026–2045 reconhece um elevado número de especialistas próximos da aposentação e alerta para necessidades futuras de substituição.

🎓 Cabo Verde pretende formar centenas de novos especialistas até 2045, enquanto prepara para novembro o arranque de um programa estruturado de especialização hospitalar no próprio país.

Quando um especialista se reforma, quem ocupa o seu lugar?

A pergunta ganhou nova atualidade esta semana.

O Ministério da Saúde reuniu médicos aposentados, na Praia, para saber quais estão disponíveis para regressar à prestação de cuidados e ajudar a responder à falta de especialistas no país.

Cirurgia, cardiologia, urologia e radiologia foram apontadas entre as áreas onde existem atualmente necessidades mais prementes de profissionais.

Mas a procura de médicos já reformados revela uma questão mais profunda do que a necessidade imediata de preencher algumas vagas: Cabo Verde conseguirá formar novos especialistas suficientemente depressa para substituir aqueles que estão a chegar ao fim da carreira?

A preocupação consta dos próprios documentos oficiais.

Plano nacional já alertava para as aposentações

O Plano Estratégico de Formação Médica Graduada e Especializada em Cabo Verde 2026–2045, aprovado pela Resolução n.º 151/2025, publicada no Boletim Oficial de 30 de dezembro de 2025, reconhece limitações estruturais na força médica nacional.

Entre elas estão a distribuição desigual dos profissionais, a insuficiente capacidade de formação especializada no país, a dependência de médicos cooperantes estrangeiros e um elevado número de especialistas próximos da aposentação.

O diagnóstico identifica necessidades em diferentes áreas médicas, incluindo:

  • Medicina de emergência, medicina interna e anestesiologia;

  • Cirurgia geral, ortotraumatologia e urologia;

  • Pediatria, oncologia e oftalmologia;

  • Anatomia patológica, cardiologia e imagiologia.

O desafio, portanto, não consiste apenas em preencher as vagas existentes hoje. Será também necessário substituir progressivamente especialistas que deixarão o sistema nos próximos anos.

875 especialistas até 2045

A resposta estrutural prevista pelo país passa pela formação.

O plano estabelece como horizonte a formação de 875 médicos especialistas até 2045, abrangendo 25 especialidades prioritárias, com a meta de elevar progressivamente o peso dos especialistas no Serviço Nacional de Saúde.

Para a primeira fase, entre 2026 e 2030, está previsto um investimento público de aproximadamente 342 milhões de escudos.

O documento estima também que o investimento na formação especializada poderá gerar poupanças futuras, nomeadamente através da redução da necessidade de evacuações médicas e da dependência de especialistas recrutados no exterior.

Mas os resultados serão necessariamente graduais.

Especialização hospitalar começa a ganhar estrutura no país

Cabo Verde prepara-se para dar um novo passo na formação médica: desenvolver no próprio país um programa estruturado de especialização hospitalar.

O início está previsto para novembro, inicialmente nas áreas de pediatria, medicina interna, cirurgia geral e anestesiologia, envolvendo instituições nacionais e parceiros portugueses.

Parte dos estágios deverá continuar a ser realizada em Portugal.

A formação médica de base existe na Universidade de Cabo Verde desde 2015, numa parceria iniciada com a Universidade de Coimbra. Cabo Verde possui também experiência de formação em serviço na área de Medicina Geral e Familiar.

A nova etapa pretende ampliar essa capacidade para especialidades hospitalares, permitindo que uma parte crescente do percurso de especialização possa ser realizada no país.

Desde 2020, aposentados já foram chamados várias vezes

Recorrer à experiência de médicos reformados não é uma solução inédita.

Desde 2020, o Governo já utilizou diferentes resoluções para autorizar pontualmente a contratação de profissionais aposentados perante necessidades do Serviço Nacional de Saúde:

  • Em 2020: autorizada a contratação de um especialista aposentado em ortopedia e traumatologia;

  • Em agosto de 2021: nova resolução justificou a contratação de um médico aposentado com o défice de especialistas em cirurgia geral no SNS;

  • Em julho de 2022: o Governo voltou a recorrer ao mecanismo, desta vez autorizando a contratação de médicos de clínica geral aposentados, perante o défice de profissionais e o aumento da procura de cuidados de saúde.

A iniciativa atual tem, porém, uma dimensão diferente: em vez de responder apenas a uma necessidade individual através de uma resolução específica, o Ministério começou por reunir um conjunto de médicos aposentados para conhecer de forma mais ampla quem continua disponível e em que condições poderá colaborar com o sistema.

Ainda não foi anunciado quantos profissionais poderão regressar nem quais serão os modelos de colaboração.

Uma corrida entre formação e aposentação

É aqui que surge a questão central.

No curto prazo, Cabo Verde precisa de garantir profissionais capazes de assegurar especialidades onde existem carências. Recuperar médicos experientes que ainda tenham disponibilidade pode funcionar como solução de transição.

No médio e longo prazo, será a capacidade de formar novos especialistas que determinará se o país consegue substituir quem se reforma e, simultaneamente, reduzir a dependência de profissionais estrangeiros e das evacuações médicas.

O facto de o próprio plano estratégico identificar um número elevado de especialistas próximos da aposentação torna esta substituição geracional particularmente relevante.

Cabo Verde tem agora um plano até 2045, metas de formação e uma nova etapa da especialização médica prestes a começar. O desafio será garantir que os novos especialistas chegam aos hospitais antes que a saída dos mais experientes abra novas lacunas.

Cape Verde 24.info

Fonte: Ministério da Saúde e Boletim Oficial da República de Cabo Verde.

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