“Doze tripulantes do navio “Novo Ruivo” estão retidos há meses em Mindelo sem receber salários, após o abandono da embarcação pelo armador português“
O Porto Grande, em Mindelo, tornou-se o cenário de uma angústia prolongada para doze marinheiros — seis indonésios e seis angolanos. Estes homens estão retidos a bordo do “Novo Ruivo”, um navio de pesca de atum com bandeira de Portugal, enfrentando um dilema devastador: regressar aos seus países de origem sem o dinheiro devido ou permanecer na embarcação na esperança de receber quase um ano de ordenados em falta. O técnico de máquinas Surono, de 47 anos, personifica esta crise, relatando que a sua família na Indonésia atravessa dificuldades extremas para garantir o sustento básico enquanto ele permanece imobilizado em águas cabo-verdianas.
Dívidas acumuladas e abandono
O navio foi judicialmente apreendido em Cabo Verde a 11 de dezembro de 2025, devido a dívidas acumuladas pelo proprietário, uma empresa registada em Lisboa. Segundo relatos da Federação Internacional dos Trabalhadores dos Transportes (ITF), o armador abandonou a embarcação efetivamente em setembro, levando consigo documentos e deixando para trás uma dívida salarial que já ultrapassa os 45.000 euros no total. Para Surono, individualmente, a dívida ascende a cerca de 13.200 dólares, correspondentes a cinco meses de trabalho no mar e outros tantos de espera forçada no porto.
A vida a bordo e a assistência
A sobrevivência da tripulação tem dependido da solidariedade local e da intervenção das autoridades portuárias de Cabo Verde, que têm garantido mantimentos básicos. A ITF tem trabalhado com a Embaixada da Indonésia em Dakar para facilitar o repatriamento, mas os marinheiros têm recusado sair sem a garantia de pagamento. Temem que, ao abandonar o navio, percam o único recurso legal para recuperar o dinheiro necessário para saldar dívidas contraídas para obter o emprego e pagar a educação dos filhos.
Quem é o armador responsável?
O navio pertence a uma empresa comercial registada em Portugal. Sob o Direito Marítimo Internacional, Portugal, como “Estado de Bandeira”, tem a responsabilidade de fiscalizar o cumprimento da Convenção do Trabalho Marítimo. O proprietário alega estar a tentar obter financiamento para liquidar os atrasados, mas até ao momento, nenhuma solução concreta foi apresentada aos homens retidos em Mindelo, exacerbando o sentimento de abandono e desespero a bordo.
Um problema sistémico no mar
O caso do “Novo Ruivo” reflete uma crise global. Dados recentes indicam que 2025 e o início de 2026 registaram níveis recorde de abandono de tripulações. Frequentemente, estas situações envolvem navios de empresas que entram em colapso financeiro, deixando trabalhadores migrantes vulneráveis. Cabo Verde, pela sua localização estratégica, torna-se muitas vezes o último porto de abrigo para estas situações dramáticas, exigindo uma atenção redobrada das instituições de proteção dos direitos humanos.
Conclusão
Va recordar que esta situação em Mindelo surge num contexto de aumento global de casos de abandono de marinheiros, onde a falta de seguros obrigatórios por parte dos armadores deixa as tripulações sem proteção. O desfecho do caso do “Novo Ruivo” em São Vicente será um teste à eficácia das leis marítimas internacionais no território cabo-verdiano.
Caboverde24.info
Fonte e foto: AFP (Agence France-Presse) / ITF
Nota Editorial: As declarações publicadas refletem os relatos dos tripulantes e inspetores sindicais à imprensa internacional; as tentativas de contacto com a empresa proprietária não resultaram em esclarecimentos adicionais até ao momento.







































