12 pescadores presos no Mindelo há meio ano: armador abandona tripulação angolana e indonésia em Cabo Verde

“O navio Novo Ruivo está parado no porto de São Vicente desde setembro de 2025, com 12 trabalhadores a bordo sem salários há cerca de um ano e sem poder regressar a casa”

O porto do Mindelo, na ilha de São Vicente, é cenário de uma situação que a Federação Internacional dos Trabalhadores do Transporte (ITF) classifica como “horrível”: doze pescadores de nacionalidade angolana e indonésia estão retidos a bordo do navio de pesca Novo Ruivo, pesqueiro de origem galega com bandeira portuguesa, há cerca de seis meses, sem salários há aproximadamente um ano e sem perspetiva clara de regresso a casa.
O barco encontra-se judicialmente arrestado no porto do Mindelo desde setembro de 2025, e os trabalhadores continuam a bordo com os vencimentos em atraso, segundo fontes ligadas ao processo confirmadas à agência Lusa.

O que disse o capitão dos portos do Barlavento

O capitão dos Portos do Barlavento cabo-verdiano, Aguinaldo Lima, confirmou à Lusa que os trabalhadores “ainda estão cá, no porto do Mindelo”, e adiantou que o armador terá manifestado intenção de vender o navio, afirmando ter um comprador e que a situação deveria ficar resolvida em breve.
Uma promessa que, na prática, se arrasta há meses sem concretização.

Angola e Indonésia: dois países, uma só tragédia

O embaixador de Angola em Cabo Verde, Agostinho Tavares, confirmou à Lusa que o problema “não está resolvido” e que a solução avançada pelo armador continua a ser a venda da embarcação — processo que ainda não foi concluído apesar das propostas de compra existentes.
Segundo o diplomata angolano, os trabalhadores não podem sequer abandonar a ilha porque os seus documentos de identificação estão na posse do armador — uma situação que configura restrição de liberdade. O embaixador garantiu, porém, que os pescadores têm recebido apoio básico: há alguém no terreno que leva mantimentos e combustível, e os trabalhadores comunicam semanalmente com os serviços consulares angolanos. Ainda assim, os próprios pescadores recusam-se a regressar a Angola sem receber os salários em atraso.

A ITF denuncia abandono e exige solução imediata

A Federação Internacional dos Trabalhadores do Transporte denunciou publicamente o caso, com o seu inspetor Gonzalo Galan a classificar a situação como “horrível” e a exigir “a única solução justa possível: receber os salários em atraso e regressar a casa em segurança e sem demora”.
A ITF apelou ainda aos empregadores da indústria pesqueira europeia para que negociem acordos coletivos que garantam proteção efetiva às tripulações estrangeiras em embarcações de capitais europeus.

Um problema que vai além do Novo Ruivo

O caso do Novo Ruivo não é isolado. No mesmo porto do Mindelo encontra-se também um navio senegalês pertencente a um armador italiano, com quatro tripulantes senegaleses retidos em condições semelhantes — sem salários há vários meses, com a embarcação arrestada e ancorada na Baía do Porto Grande, o que representa, nas palavras do capitão dos Portos do Barlavento, “uma preocupação enorme para a Autoridade Marítima”.
Estes casos inserem-se num padrão global documentado pela ITF: em 2024, cerca de 90% dos navios abandonados navegavam sob bandeiras de conveniência — registados em países com regras de navegação mais permissivas — uma prática que fragiliza

Cabo Verde no centro de um problema marítimo internacional

A situação coloca Cabo Verde numa posição delicada: o país não é responsável pelo comportamento do armador, mas é no seu território e sob a supervisão das suas autoridades que o drama se desenrola. As autoridades cabo-verdianas têm mantido contacto com as embaixadas de Angola e da Indonésia para facilitar o eventual repatriamento dos trabalhadores, mas sem salários pagos, os próprios pescadores resistem a partir.
A resolução definitiva depende de uma decisão que ainda não chegou: a conclusão da venda do Novo Ruivo e o pagamento integral dos salários em atraso.

Caboverde24.info

Fonte: Lusa / ITF – Federação Internacional dos Trabalhadores do Transporte

Iagem: CNN

 

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