Turismo gastronómico em Cabo Verde: o que falta para atrair viajantes pelo prato e não apenas pelo sol

“A cozinha cabo-verdiana tem identidade, história e sabor — mas ainda não chegou à mesa do turismo internacional como produto estruturado e vendável.”

Um país que come bem, mas que ainda não vende a sua cozinha

​Cabo Verde tem uma gastronomia rica, diversa e genuinamente singular. A culinária cabo-verdiana é o resultado da fusão entre as tradições culinárias dos povos da costa ocidental africana e da culinária portuguesa, refletindo mais de cinco séculos de história e tradição, com influências do Oriente e do Brasil. De guisados reconfortantes a marisco fresco e doces tropicais, cada prato reflete a alma das ilhas.

​Mas ter boa comida não é o mesmo que ter um produto turístico gastronómico. E aí reside o problema central: Cabo Verde ainda não transformou a sua cozinha num motor de atração de visitantes. O sol e a praia continuam a ser a única narrativa vendida ao mundo.

​O modelo todo-incluído bloqueia a experiência local

​O principal obstáculo ao turismo gastronómico em Cabo Verde tem nome: o modelo todo-incluído. Em 2019, 81% dos turistas viajaram através de um pacote de operador turístico, dos quais 94% estavam em regime all-inclusive. Os grandes resorts de propriedade estrangeira desenvolveram cadeias de abastecimento verticalmente integradas para satisfazer as necessidades de alimentação e bebidas, com ligações limitadas às cadeias de fornecimento locais.

​As consequências são claras. Mais de 80% dos produtos alimentares e bebidas consumidos pelos resorts all-inclusive eram importados. O turista entra no resort, come, dorme e parte — sem nunca ter provado uma cachupa feita por uma cozinheira local, sem nunca ter sentado numa esplanada da Santa Maria ou do Mindelo a beber um grogue com vista para o mar.

​As ligações entre o setor do turismo e os fornecedores locais são fracas. As micro e pequenas empresas não estão bem integradas na cadeia de valor do turismo.

​O que Cabo Verde tem para oferecer

​O potencial gastronómico existe e é sólido. Pratos como a cachupa, o modje ou o grogue artesanal são mais do que receitas tradicionais — são expressões vivas da identidade, da história e da alma crioula de Cabo Verde.

​A identidade culinária cabo-verdiana está profundamente ligada ao milho e ao feijão, os pilares de muitas receitas tradicionais. A cachupa varia significativamente de ilha para ilha, com algumas versões a usarem porco, outras peixe e outras frango — a cozedura lenta realça os sabores e cria uma consistência caseira e reconfortante.

​O arquipélago, rodeado pelo Oceano Atlântico, oferece uma abundância de peixe e marisco, com destaque para barriga de atum grelhada, esparguete de caranguejo, búzios guisados, guisado de lapas e lagosta. A isto junta-se o grogue de cana, o vinho do Fogo produzido nas encostas do vulcão, o bol de cuscuz com queijo de cabra e melaço de cana — uma riqueza que outros arquipélagos do Atlântico invejam.

Análise do Setor Gastronômico

Sinais positivos: o governo começa a olhar para a gastronomia

​Em julho de 2025, realizou-se na Praia a primeira edição da Semana Internacional da Gastronomia Cabo-Verdiana (SIGCV). O evento reuniu chefs nacionais e internacionais, especialistas, estudantes, produtores e amantes da gastronomia em seis dias de workshops, showcookings, conferências, concursos e exposições que ligam tradição e inovação. Para o Governo de Cabo Verde, esta semana representa uma aposta clara na diversificação da oferta turística, indo além do tradicional segmento “sol e praia” e colocando a autenticidade da cultura cabo-verdiana no centro das experiências turísticas.

​É um sinal positivo. Mas uma semana por ano não faz uma estratégia.

​Os visitantes que chegam a Cabo Verde têm saído cada vez mais dos resorts e hotéis em busca de experiências locais, especialmente para provar a cozinha local e a música, que são partes fundamentais da cultura cabo-verdiana. A procura existe. Falta a oferta estruturada.

​O que falta concretamente

​Para que o turismo gastronómico em Cabo Verde se torne uma realidade e não apenas uma aspiração, é necessário agir em várias frentes:

  • ​Roteiros gastronómicos por ilha: Cada ilha tem a sua identidade culinária. Santo Antão tem a sua aguardente e os seus pratos de montanha. Santiago tem a cachupa mais robusta. Fogo tem o vinho de altitude. Mindelo, em São Vicente, tem a cena de restauração mais cosmopolita. Estes ativos precisam de ser empacotados em produtos turísticos vendáveis.
  • ​Integração dos restaurantes locais nas plataformas de reserva internacionais: Um turista que chega de Londres ou de Lisboa e quer jantar fora do resort precisa de encontrar facilmente onde ir. Hoje, essa informação está dispersa e pouco acessível.
  • ​Formação e certificação de cozinheiros: A Escola de Hotelaria e Turismo de Cabo Verde (EHTCV) existe, mas a formação em cozinha tradicional cabo-verdiana como produto turístico ainda não tem o peso que merece.
  • ​Política de aprovisionamento local nos resorts: Os desafios identificados para o baixo nível de aprovisionamento local incluem normas sanitárias, volumes, fiabilidade de fornecimento e conectividade. São obstáculos reais, mas superáveis com vontade política e apoio técnico.
  • ​Marketing gastronómico internacional: Cabo Verde não aparece em nenhum ranking global de destinos gastronómicos. Isso não é por falta de qualidade — é por falta de comunicação.

​A concorrência não espera

​Marrocos, Senegal, Madagáscar e até as Canárias já posicionam a gastronomia como atração turística de primeira linha. Cabo Verde tem os ingredientes — literalmente. Falta a receita para os transformar em negócio.

​O rebranding da oferta turística de Cabo Verde em torno da “morabeza” — expressão crioula de hospitalidade e afeto — é uma base sólida. A gastronomia é, talvez, a expressão mais tangível e partilhável da morabeza. Um prato servido com generosidade diz mais sobre um povo do que qualquer brochura de marketing.

​Recordamos que…

Cabo Verde recebe anualmente mais de um milhão de turistas, a grande maioria concentrada nas ilhas de Sal e Boa Vista em regime todo-incluído. O Banco Mundial identificou há mais de uma década que o modelo all-inclusive cria poucas ligações com a economia local, incluindo na produção alimentar. O governo lançou em 2025 a primeira Semana Internacional da Gastronomia Cabo-Verdiana, inserida no Programa Operacional do Turismo 2022–2026, como passo inicial para diversificar a oferta turística para além do sol e praia nesta temporada de 2026.

​Caboverde24.info

​Imagem: IA

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