Um arquipélago com mar, sol e vento em abundância, mas que ainda importa 75% do que consome. As razões são conhecidas — e algumas podem ser resolvidas”
Um paradoxo visível
Quem visita Cabo Verde depara-se rapidamente com uma evidência difícil de ignorar: os supermercados estão cheios de produtos importados, os restaurantes servem peixe que veio de fora, e os hotéis abastecem-se com mercadorias descarregadas nos portos. E isto num país rodeado de oceano, com sol garantido durante todo o ano e um sector turístico que em 2025 atingiu um novo recorde histórico, com mais de 1,2 milhões de visitantes.
Segundo dados do Banco Mundial, cerca de 75% dos alimentos consumidos em Cabo Verde são importados, com as importações alimentares a representar 11,7% do PIB. Trata-se de uma dependência estrutural que encarece o custo de vida, fragiliza a economia em momentos de perturbação logística global e limita o desenvolvimento de sectores produtivos internos com real potencial.
O paradoxo não é novo. Mas as razões que o perpetuam merecem ser analisadas com clareza — porque algumas delas não são inevitáveis.
O mar está aí, mas o peixe vem de fora
A pesca é um dos sectores com maior potencial do arquipélago. Emprega mais de 5.800 pessoas e fornece cerca de dez por cento das proteínas animais consumidas pelos cabo-verdianos. São números que impressionam — até que se descobre o reverso da medalha.
De acordo com dados de 2023, Cabo Verde importou aproximadamente 70 milhões de dólares em peixe e derivados. Mais revelador ainda: dos cerca de 19.000 toneladas de peixe processado e exportado em 2024, apenas 20% utilizaram matéria-prima local. Uma das principais unidades de transformação do país importa mais de 85% das suas necessidades de matéria-prima.
É um ciclo que parece absurdo: um arquipélago com águas ricas em atum e lagosta que importa filetes congelados e camarão para abastecer os seus hotéis. A aquacultura existe em fase piloto, mas ainda não atingiu escala suficiente para fazer diferença. O potencial está identificado — o investimento estruturado ainda não chegou.
A energia mais cara de África
Para que Cabo Verde possa transformar matéria-prima local — conservar peixe, processar fruta, produzir sumos, embalar produtos — precisa de energia competitiva. E é exactamente aqui que surge um dos obstáculos mais graves.
Segundo o GlobalPetrolPrices, o preço da electricidade residencial em Cabo Verde é de 0,339 dólares por kWh, o que representa quase o dobro da média africana e mais de 190% da média mundial. Cabo Verde regista os custos de electricidade mais elevados de todo o continente africano. Para uma unidade de transformação alimentar, este factor é determinante: torna economicamente inviável qualquer projecto que dependa de cadeia de frio, cozinha industrial ou conservação.
O contraste com outras ilhas é elucidativo. El Hierro, nas Canárias, tornou-se uma referência mundial ao avançar para a autossuficiência energética através de eólica e armazenamento hídrico por bombagem — posicionando-se numa trajectória de 100% de energia renovável. Cabo Verde tem o mesmo sol, o mesmo vento — e uma factura energética que continua a sufocar a indústria.
O transporte entre ilhas: um custo invisível mas real
A produção agrícola existe em Cabo Verde — sobretudo em Santo Antão, São Nicolau e Santiago. O problema começa quando é preciso movê-la. O transporte marítimo de mercadorias entre ilhas é caro, irregular e com capacidade limitada. Um agricultor de Santo Antão que queira abastecer os hotéis do Sal enfrenta uma logística que frequentemente inviabiliza a operação em termos económicos.
Para produtos alimentares frescos, com prazo de validade curto e necessidade de cadeia de frio, este sobrecusto pode ser decisivo. O resultado prático é que importar de Portugal ou do Senegal sai mais barato do que transportar de uma ilha para outra.
As Canárias, com uma estrutura insular semelhante e uma dimensão turística muito superior, desenvolveram ao longo de décadas redes de distribuição inter-ilhas subsidiadas e integradas no mercado europeu, que garantem escoamento à produção local. A produção anual de bananas estabilizou-se em torno de 150.000 toneladas métricas, servindo simultaneamente o mercado interno e a exportação. É um modelo que não surgiu espontaneamente — foi construído com política pública e investimento de longo prazo.
Mais de um milhão de turistas, uma oportunidade por explorar
Há um dado que resume bem a oportunidade desperdiçada: em 2025, Cabo Verde recebeu mais de 1,2 milhões de turistas — um novo recorde histórico. A grande maioria deles alimenta-se em hotéis que se abastecem com produtos importados — arroz do Paquistão, fruta de Espanha, peixe congelado de Marrocos.
Não existe nenhuma plataforma estruturada que ligue produtores locais aos compradores institucionais — hotéis, restaurantes, catering de bordo. A informalidade domina as trocas; a regularidade de fornecimento é insuficiente para responder às exigências dos operadores turísticos. A procura está ali, garantida, previsível, crescente. A oferta local existe mas está fragmentada, sem organização e sem visibilidade comercial.
A agricultura em modo protegido — estufas de baixo custo com irrigação gota-a-gota — já demonstrou funcionar em contexto cabo-verdiano. O problema é de escala e de organização, não de vocação ou de clima.
O que falta para mudar
A dependência alimentar de Cabo Verde não é um destino inevitável. É o resultado acumulado de investimentos adiados, de políticas descontínuas e de uma estrutura de custos que desincentiva a produção local. As condições naturais existem: sol, mar, vento e uma procura turística em crescimento que poderia ser o principal motor de um mercado interno alimentar.
O que falta é uma combinação de energia mais barata, logística inter-ilhas mais eficiente e uma plataforma que organize a oferta local face à procura já existente. Três variáveis que não dependem de condições climatéricas nem de recursos naturais adicionais — dependem de decisão política e de investimento estruturado.
Recordamos que…
Cabo Verde registou um crescimento do PIB de 7,3% em 2024, segundo o Banco Mundial, impulsionado pelo turismo. É precisamente este contexto favorável que torna mais urgente — e mais possível — o debate sobre a produção alimentar interna neste mês de junho de 2026, visando reduzir a dependência de 75% em alimentos importados através de uma reestruturação energética e de transportes marítimos eficientes.
Caboverde24.info
Fonte: Dados Banco Mundial























