“Após críticas generalizadas nas redes sociais e questionamentos públicos, a concessionária controversa recebe oficialmente distinção que levanta sérias dúvidas sobre os critérios de avaliação”
Praia, 29 de novembro de 2025 – Confirmou-se o que muitos consideravam improvável: a CV Interilhas foi oficialmente galardoada com o Selo de Excelência 2024, numa cerimónia realizada esta sexta-feira que distinguiu 25 empresas cabo-verdianas. A notícia, avançada pelo portal Balai, materializa aquilo que o Cabo Verde24 havia questionado dias antes: como foi possível que uma empresa tão amplamente criticada conquistasse um dos selos mais cobiçados do setor empresarial?
A “maravilha” desta premiação não passa despercebida. Numa altura em que a CV Interilhas enfrenta contestação generalizada por atrasos sistemáticos, interrupções de serviço e litígios judiciais com o Estado envolvendo valores astronómicos, a empresa surge entre as distinguidas por “transparência, rigor financeiro, sustentabilidade e boas práticas de gestão” – precisamente os atributos que utentes e analistas questionam diariamente.
O discurso da excelência vs. a realidade do serviço
Na cerimónia, Fernando Braz de Oliveira, representante do Grupo ETE, proprietário maioritário da CV Interilhas, não poupou elogios à distinção: “Esse prémio veio fazer exatamente este reconhecimento a todos aqueles que trabalham na CVI e que trabalham 365 dias por ano, 7 dias por semana em prol dos cabo-verdianos, em prol da coesão territorial”, afirmou, destacando a “sustentabilidade” e as “contas transparentes e auditadas” da empresa.
O discurso contrasta fortemente com a realidade vivida pelos milhares de cabo-verdianos que dependem do transporte marítimo interilhas. Recentemente, o proprietário do Hotel Djabraba’s Eco-Lodge denunciou “abusos” da CV Interilhas, questionando se não seria o momento dos bravenses se rebelarem. Partidos da oposição exigem o resgate da concessão, enquanto o PAICV pede justiça política e criminal, solicitando até a intervenção da Procuradoria-Geral da República.
Silêncio editorial e validação acrítica
Particularmente surpreendente é o facto de o artigo publicado pela Balai sobre a cerimónia não fazer qualquer referência à incongruência desta premiação. O texto limita-se a reproduzir as declarações laudatórias dos administradores da CV Interilhas, sem contextualizar minimamente as sérias reservas que pesam sobre a empresa.
Esta omissão editorial é significativa. Ao não recordar aos leitores, nem sequer de forma breve, a contestação pública que envolve a concessionária, o artigo contribui para legitimar uma distinção que muitos consideram descredibilizada. A ausência de qualquer contraponto jornalístico numa matéria tão sensível levanta questões sobre o papel da comunicação social na fiscalização de iniciativas que se apresentam como certificadoras de excelência empresarial.
Credibilidade em causa: o efeito dominó
A confirmação da premiação à CV Interilhas não afeta apenas a reputação desta empresa – compromete a credibilidade de todo o projeto “Empresa Excelência” e, por extensão, das restantes 24 empresas distinguidas. Se uma concessionária envolta em polémicas e processos judiciais pode receber o selo, que valor tem realmente esta distinção?
O problema torna-se ainda mais grave quando se considera que o selo é apresentado como facilitador de acesso a financiamento. Durante a cerimónia, foi assinado um protocolo entre a BTOC e a Pró-Garante, garantindo condições pré-aprovadas de crédito para as empresas premiadas. Antónia Cardoso, PCA da Pró-Garante, explicou que “os requisitos exigidos pela Pró-Garante coincidem com os requisitos exigidos para obter o selo de excelência”.
Esta correlação levanta questões preocupantes: estarão as instituições financeiras a conceder facilidades creditícias com base em critérios que, aparentemente, não refletem a realidade operacional e reputacional das empresas?
Critérios automatizados vs. realidade operacional
Como o Cabo Verde24 havia alertado, o sistema de avaliação da iniciativa “Empresa Excelência” baseia-se numa plataforma automatizada que analisa indicadores financeiros, sociais, ambientais e de governança – maioritariamente a partir de dados fornecidos pelas próprias empresas candidatas.
Este modelo, embora possa ter méritos técnicos, revela uma fragilidade evidente: não contempla adequadamente a satisfação dos utentes, o cumprimento efetivo de obrigações contratuais com o Estado, nem a reputação pública da empresa. Uma concessionária pode apresentar contas aparentemente equilibradas enquanto falha sistemicamente na prestação do serviço público que lhe foi confiado.
O Secretário de Estado e a "transformação económica"
Pedro Lopes, Secretário de Estado da Economia Digital, presente na cerimónia, definiu o prémio como “um instrumento de qualificação do nosso tecido empresarial, um selo de confiança para a própria banca e para quem quer investir nas empresas, e é um motor de transformação económica que incentiva a transparência e a inovação”.
A questão que se impõe é: que tipo de “transformação económica” se promove quando empresas publicamente contestadas recebem selos de confiança? Que mensagem se transmite aos empresários cabo-verdianos sobre o que realmente constitui excelência?
As vozes que ficaram de fora
Enquanto a CV Interilhas celebrava o reconhecimento de “cinco anos de trabalho contínuo”, milhares de cabo-verdianos continuam a experienciar cancelamentos de viagens, atrasos inexplicados e comunicação deficiente por parte da concessionária. Em São Vicente, passageiros exigiram recentemente respostas da empresa por cancelamentos para São Nicolau e Sal. O armador Vladimiro Ferreira defende publicamente a anulação do contrato de concessão.
Estas vozes – dos utentes, dos operadores turísticos prejudicados, dos comerciantes que veem mercadorias retidas – não encontraram eco na cerimónia de premiação. Não foram consideradas nos critérios de avaliação. Ficaram ausentes da narrativa de excelência.
Que excelência é esta?
A confirmação da CV Interilhas como empresa de excelência 2024 representa mais do que uma incongruência pontual. Simboliza a desconexão entre sistemas de certificação empresarial e a realidade vivida pelos cidadãos. Compromete a credibilidade de uma iniciativa que poderia, em princípio, incentivar genuinamente as boas práticas corporativas.
Para as outras empresas premiadas – muitas das quais podem efetivamente merecer o reconhecimento – a inclusão da CV Interilhas na lista representa um dano colateral à sua reputação. Afinal, se o selo distingue indistintamente empresas excelentes e empresas controversas, que valor diferenciador oferece?
A sociedade cabo-verdiana aguarda não apenas transportes marítimos fiáveis, mas também sistemas de reconhecimento empresarial que reflitam verdadeiramente o mérito, a qualidade e o compromisso com o serviço público. Até lá, premiações como esta continuarão a gerar não admiração, mas perplexidade e indignação justificadas.
Cabo Verde24
– Balai CV, “Empresas com Selo Excelência 2024 enaltecem reconhecimento que reflete anos de esforço” (28/11/2025)
– Cabo Verde24, “CV Interilhas premiada como ‘Empresa de Excelência 2024’: Um reconhecimento que levanta indignação” (10/11/2025)
– Declarações públicas de partidos políticos e operadores do sector

































