Healthcare in Cape Verde: public praise contrasts with daily criticism on social media

Enquanto alguns destacam experiências positivas no sistema nacional de saúde, milhares de cabo-verdianos denunciam diariamente nas redes sociais a falta de atendimento, equipamentos e respostas do INPS a pedidos de evacuação sanitária”

O sistema nacional de saúde em Cabo Verde vive uma dualidade difícil de ignorar: ao mesmo tempo que surgem elogios públicos à qualidade de alguns serviços hospitalares, as redes sociais enchem-se diariamente de relatos dramáticos de utentes que enfrentam uma realidade bem diferente.
Recentemente, conforme relatado pelo jornal O País, numa entrevista ao programa “Conversa com Edna” da RTC, um paciente partilhou uma experiência muito positiva no Hospital Agostinho Neto, na Praia, onde foi submetido a uma intervenção cirúrgica cardíaca. O testemunho destacou a qualidade do atendimento, a competência da equipa médica liderada pelo Dr. Alexandre Dias, e um internamento de apenas quatro dias. O follow-up realizado posteriormente em Portugal confirmou a excelente qualidade da intervenção.

Será mesmo como relatado nesse artigo?

A realidade de milhares: críticas diárias e evacuações negadas

Contudo, este tipo de experiências positivas contrasta fortemente com a realidade vivida diariamente por milhares de cabo-verdianos anónimos. Críticas que se repetem diariamente em grupos de Facebook como “Cabo-verdianos indignados”, “Notícias de Cabo Verde” e diversos grupos comunitários relatam situações bem diferentes.
Surgem constantemente denúncias de utentes sobre o péssimo atendimento nos hospitais públicos, a falta de resposta do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) aos pedidos de evacuação sanitária, e a ausência de meios e equipamentos essenciais para diagnóstico e tratamento de doenças graves.
Pessoas sem voz, sem visibilidade, sem relevância identitária sofrem pela falta de atendimento e cuidados de saúde adequados. Muitos doentes veem os seus pedidos de evacuação para tratamento no estrangeiro serem sistematicamente negados ou atrasados, numa burocracia que pode custar vidas.

Ilhas turísticas sem médicos suficientes

Particularmente preocupante é a situação nas ilhas turísticas como Sal e Boa Vista, que recebem centenas de milhares de turistas por ano e contribuem significativamente para o PIB nacional, mas carecem de médicos e equipamentos suficientes para o atendimento da população residente.
Paradoxalmente, estas ilhas estão repletas de clínicas privadas, confirmando a existência de procura e evidenciando a falha gritante da assistência pública.

Será mesmo verdade?

Dois pesos, duas medidas?

A pergunta que muitos cabo-verdianos se fazem é inevitável: será que a qualidade do atendimento depende de quem é o paciente?
Esta questão não pode ser ignorada, especialmente quando se considera que a Saúde, juntamente com os transportes e salários mínimos, constituem as áreas de maior criticidade em Cabo Verde – problemas estruturais que nunca foram verdadeiramente resolvidos desde a independência em 1975.
A existência de um sistema de saúde “a duas velocidades” – um para quem tem nome, posição social e recursos, outro para o cidadão comum – é uma realidade que muitos cabo-verdianos sentem na pele mas que raramente é reconhecida publicamente.

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O papel crucial das ONGs num contexto de insuficiências

Neste contexto pouco entusiasmante, torna-se ainda mais importante reconhecer a atividade de ONGs e associações de voluntariado como a África Avanza, que há anos prestam serviços de assistência, apoio, formação, consultas e intervenções cirúrgicas no país.

Paradoxalmente, estas organizações operam muitas vezes num contexto de relativo apoio por parte das instituições, que frequentemente burocratizam as suas atividades, chegando mesmo a cobrar pela importação de equipamentos necessários à sua atuação – equipamentos esses que, em grande parte, são posteriormente doados às estruturas de saúde cabo-verdianas.

Médicos privados aproveitam-se do vazio deixado pelo Estado

É igualmente preocupante observar que, durante os fins de semana, um grande número de médicos se desloca às ilhas menos infraestruturadas do ponto de vista da saúde para prestar consultas privadas a 2.000-3.000 escudos, aproveitando-se de um vazio que obriga os cidadãos a recorrer à sanidade privada por falta de alternativas públicas.

Para além disso, a legislação cabo-verdiana torna complexa e difícil a entrada e atuação no país por parte de médicos estrangeiros que poderiam ajudar a colmatar as lacunas existentes, criando mais um obstáculo ao acesso a cuidados de saúde de qualidade para a população.

Um debate necessário sobre acesso igual para todos

Os elogios ocasionais ao trabalho de profissionais em alguns hospitais não devem ser postos em causa – certamente reflectem experiências reais e o trabalho dedicado de muitos profissionais de saúde que fazem o melhor possível com os recursos disponíveis.

No entanto, é fundamental que o debate público sobre a saúde em Cabo Verde não se baseie apenas em experiências positivas isoladas, mas reflicta a realidade da maioria dos utentes do sistema nacional de saúde: longas esperas, falta de medicamentos, equipamentos obsoletos ou inexistentes, e um sistema de evacuações que deixa morrer quem não tem voz para gritar.

O contraste entre testemunhos positivos ocasionais e os relatos diários de utentes comuns nas redes sociais serve de alerta: enquanto Cabo Verde não investir seriamente na saúde pública e garantir acesso igual para todos os cidadãos, independentemente da sua posição social, continuará a existir um sistema que, na prática, discrimina entre quem merece ser bem tratado e quem pode esperar – às vezes, até ser tarde demais.

Cape Verde24

Fontes indicadas no texto do artigo 

Imagem aprimorada com IA

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