“Tecnologia de ponta identifica vírus perigosos em baleias-jubarte, colocando em alerta a conservação marinha e a economia azul de Cabo Verde”
Lembramos que as águas de Cabo Verde, com destaque para as ilhas da Boa Vista e do Maio, constituem um dos raros locais de reprodução da baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) no Atlântico Norte. Historicamente, a monitorização sanitária destes animais era um desafio logístico, dependendo de biópsias invasivas ou do exame de animais já mortos em encalhes. O Morbilivírus Cetáceo (CeMV), agora identificado nesta rota, é um patógeno conhecido desde o final da década de 80 por causar surtos epidémicos devastadores, resultando na morte de milhares de mamíferos marinhos em várias partes do globo.
O que se passa
Uma descoberta científica recente, publicada na terceira semana de dezembro de 2025, está a agitar a comunidade biológica e ambiental em Cabo Verde. Pela primeira vez, investigadores conseguiram confirmar a presença de vírus letais em populações de baleias vivas utilizando drones, revelando que as rotas migratórias que ligam o Ártico ao nosso arquipélago podem estar a servir de corredor para doenças preocupantes.
Inovação não invasiva nos véus de Cabo Verde
O estudo é o resultado de uma cooperação internacional que envolveu a Noruega, a Islândia e equipas locais em Cabo Verde, como a BIOS-CV. A grande inovação reside no uso de drones equipados com placas de recolha biológica. Estes aparelhos voam sobre o “sopro” das baleias — a exalação de vapor que libertam ao subir à superfície — capturando amostras de muco respiratório sem que o animal sinta qualquer stress ou presença humana.
Nas amostras recolhidas nas águas cabo-verdianas, os cientistas detetaram a presença de herpesvírus em baleias-jubarte. Embora este vírus possa ser comum em algumas populações, a sua monitorização é vital para entender como o sistema imunitário destes gigantes reage às crescentes pressões ambientais nas nossas ilhas.
O perigo do morbilivírus
A maior preocupação, contudo, vem do norte. O mesmo estudo detetou o morbilivírus cetáceo em baleias que se encontravam em águas norueguesas e islandesas, mas que fazem parte do mesmo grupo populacional que migra para Cabo Verde para acasalar e dar à luz. Este vírus é extremamente agressivo, afetando os pulmões, o cérebro e o sistema imunitário, sendo frequentemente fatal.
A confirmação de que este vírus está a circular ativamente no Atlântico Norte coloca Cabo Verde em alerta. Como as baleias viajam milhares de quilómetros para se reunirem em áreas de reprodução densamente povoadas no nosso arquipélago, o risco de transmissão entre indivíduos aumenta consideravelmente durante a época alta de observação.
Impacto na economia Verde e turismo
Para Cabo Verde, esta notícia transcende a biologia marinha. O turismo de observação de baleias (whale watching) é uma das atividades económicas mais valiosas da “Economia Azul” nacional. Um eventual surto de doença que resulte em mortalidade visível ou na diminuição das visitas destes animais às nossas baías teria um impacto direto nas receitas turísticas da Boa Vista e do Sal.
Além disso, o país reafirma-se como um laboratório estratégico. A capacidade de detetar estas doenças precocemente permite que as autoridades ambientais cabo-verdianas e as ONG locais se preparem para eventuais encalhes e colaborem em redes de vigilância globais, protegendo o prestígio de Cabo Verde como santuário marinho seguro.
Vigilância e futuro
Embora não haja motivo para pânico imediato entre os banhistas ou pescadores — uma vez que estes vírus são específicos de cetáceos — a comunidade científica sublinha a necessidade de vigilância contínua. O uso de drones provou ser a ferramenta do futuro para Cabo Verde, permitindo um “check-up” sanitário constante sem perturbar a tranquilidade das baleias e das suas crias nas águas nacionais.
A preservação da saúde marinha é, hoje, indissociável da tecnologia. Cabo Verde, ao integrar estas redes de investigação, dá um passo firme na vanguarda da conservação oceânica, garantindo que as futuras gerações ainda possam ver os saltos das jubartes no horizonte das nossas ilhas.
Cape Verde 24.info
Fonte:
revista BMC Veterinary Research em 18 de dezembro de 2025.
Imagem Ai





























