“A ineficiência das ligações marítimas está a provocar uma gravíssima rutura no abastecimento de bens de primeira necessidade, desesperando residentes e comerciantes em plena quadra festiva”
Uma ferida aberta há décadas
Recordemos que Cabo Verde, pela sua natureza arquipelágica, depende visceralmente da fluidez dos transportes aéreos e marítimos. No entanto, a questão das ligações é um desafio que o País parece perder sistematicamente há décadas. Apesar das promessas de modernização, a incapacidade de gerir uma rede de mobilidade eficaz continua a ser o principal travão ao desenvolvimento económico e social. Para as ilhas chamadas “menores”, como a Brava, esta ineficiência não é apenas um transtorno logístico, mas transforma-se periodicamente numa verdadeira crise económica e social, isolando comunidades inteiras do resto do mundo.
Em seguida a reportagem da TCV para aprofundar a situação na Brava
A situação na ilha da Brava atingiu níveis críticos. O que deveria ser um período de festa e partilha transformou-se num pesadelo logístico para operadores económicos e consumidores. O sistema de transporte marítimo, descrito como “deficiente e pouco eficaz”, causou uma rutura total no stock de bens de primeira necessidade.
Prateleiras vazias e frigoríficos desligados
As imagens que chegam dos estabelecimentos comerciais de Nova Sintra e arredores são desoladoras: prateleiras completamente vazias, arcas frigoríficas que contêm apenas algumas garrafas de água e a ausência total de produtos frescos ou congelados. Benvindo Gomes, gerente de um minimercado local, expressou toda a sua frustração à TCV: “Não recebemos uma única palete de alimentos congelados. Nem fruta, nem legumes, nem qualquer outro produto. É uma situação crítica, especialmente agora no Natal”, declarou, sublinhando que a atividade comercial está reduzida ao mínimo.
Na mesma linha, José Baptista, outro comerciante da ilha, lamenta a falta de interlocutores institucionais: “Não há Ministro dos Transportes, não há Ministro do Mar que pareça preocupar-se com esta triste situação. Mais de 75% do nosso espaço está vazio. Falta óleo, falta cebola, batata, nem sequer um ovo para fazer um bolo”.
A voz dos residente
O descontentamento não poupa os cidadãos. Sónia Coelho, residente em Nova Sintra, realça como a ligação com a Brava se tornou uma incerteza: “A situação é complicada. Precisamos de ligações diárias seguras, mas o que reina é a incerteza“. Augusta Martins, de Santa Bárbara, reforça o coro de reclamações mostrando a falta de produtos básicos como sabão e bolachas: “Temos de fazer acordos com os barcos para trazer comida, senão morremos de fome”.
Uma economia que sufoca
O impacto económico é devastador. Durante a quadra festiva, o momento em que as empresas deveriam registar os maiores rendimentos, a economia da Brava encontra-se paralisada. Sem mercadoria para vender, os comerciantes não conseguem cumprir os seus compromissos e os cidadãos são obrigados a racionar o pouco que resta. O pedido que chega unânime da ilha é claro: soluções urgentes, seguras e consistentes para o transporte marítimo. Não se pode aceitar que, em 2025, uma população inteira continue refém de um sistema de transportes que falha na sua missão mais elementar: unir o País.
Cape Verde 24.info
Fonte e vídeo: reportagem da TCV
Imagem IA



































