“Barreiras aos estrangeiros, retroativos em atraso: a crise que o novo salário médico em Cabo Verde não conseguiu resolver.”
Na sequência do grande interesse gerado pelo nosso artigo sobre as fortes limitações impostas aos médicos estrangeiros que pretendem exercer em Cabo Verde, muitos leitores colocaram uma pergunta nos comentários e nas mensagens que nos enviaram: afinal, quanto é que ganha um médico em Cabo Verde? Tendo em conta a curiosidade e o debate gerado, decidimos publicar este artigo para explicar, de forma clara, a nova grelha salarial aprovada em 2025 — e perceber por que razão, mesmo com aumentos expressivos no papel, o conflito entre os profissionais de saúde e o Governo continua em aberto.
Uma reforma histórica, mas incompleta
Após mais de duas décadas de estagnação, Cabo Verde aprovou em junho de 2025 o Plano de Cargos, Funções e Remunerações (PCFR) do setor da saúde — a reforma mais profunda das carreiras médicas desde 2003. Os números são expressivos. Na prática, porém, a implementação continua a gerar conflitos, como a semana de 28 de abril de 2026 bem demonstrou: uma greve de 72 horas suspensa de última hora, após negociações que se arrastam há mais de dois anos e meio.
Médicos da carreira geral
Para quem segue a carreira médica geral — médicos sem especialização reconhecida pelo sistema público — a mudança é significativa. O salário base, que estava fixado em 87.250 escudos, passou para um teto de 146.000 escudos, podendo atingir os 158.000 escudos no topo da carreira. Isto representa um aumento de 58,14% em relação ao valor anterior.
Médicos especialistas
Para os especialistas, o salário base sobe de 109.000 escudos para 158.000 escudos, com um teto máximo de 185.000 escudos — um aumento de 44,9%. Um especialista no início da carreira passa a receber o equivalente a cerca de 1.430 euros mensais, e no topo pode atingir os 1.680 euros.
O subsídio de risco e os suplementos
Para além do salário base, o PCFR introduziu um subsídio de risco mensal fixo de 13.000 escudos para todos os profissionais de saúde. A este valor somam-se suplementos remuneratórios variáveis que podem aumentar consideravelmente o rendimento final:
- Regime de urgência: +30% (diurno) ou +40% (noturno)
- Dias de descanso semanal e feriados: +50%
- Regime de chamada: +25%
- Disponibilidade permanente: +30%
- Atenção primária: +20%
- Dedicação exclusiva: +60%
Para contextualizar: o que ganham os outros
O salário mínimo nacional em Cabo Verde em 2025 é de 17.000 escudos, e na Administração Pública de 19.000 escudos. Um médico geral no início de carreira ganha, portanto, cerca de oito vezes o salário mínimo do país. Com o novo PCFR, os profissionais de saúde estão formalmente no topo da hierarquia salarial do setor público cabo-verdiano.
O problema: entre o papel e o bolso
A reforma existe na lei. O problema está na execução. Os retroativos devidos desde março de 2025 não foram pagos, alguns contratos continuam indexados à tabela antiga, e o subsídio de risco ainda não chegou a todas as categorias profissionais. O pagamento dos retroativos foi agendado apenas para depois das eleições legislativas de 17 de maio de 2026, condicionado à aprovação de um orçamento ratificativo pelo novo Governo.
Para os profissionais de saúde, esperar mais dois meses — com o resultado eleitoral ainda incerto — significa continuar a trabalhar com base em promessas que já foram adiadas demasiadas vezes.
Um paradoxo que o país não pode ignorar
O quadro salarial agora desenhado revela uma contradição difícil de justificar. Cabo Verde paga — ou promete pagar — salários competitivos aos seus médicos, mas ao mesmo tempo ergue barreiras que impedem médicos estrangeiros qualificados de exercer no arquipélago, agravando uma escassez crónica de especialistas nas ilhas mais afastadas da capital. Como mostrámos no nosso artigo anterior, um médico estrangeiro que queira trabalhar no setor privado em Cabo Verde — numa clínica, num consultório, junto da hotelaria turística — não tem qualquer via direta de acesso legal ao exercício da profissão. O resultado é um sistema que simultaneamente não consegue pagar os seus próprios médicos a tempo e não deixa entrar os de fora.
O que está verdadeiramente em jogo
Num país que precisa de atrair e reter profissionais de saúde qualificados, a questão central não é apenas o quanto os médicos ganham em Cabo Verde. É se o Estado consegue honrar o que prometeu — e se tem visão suficiente para abrir o setor a quem quer contribuir. Credibilidade e abertura: é isso que o sistema de saúde cabo-verdiano mais precisa neste momento.
Cape Verde 24.info
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