Guia das Eleições de 17 de Maio: o que precisa saber antes de votar

“Cinco partidos, 72 lugares e um país a decidir o seu futuro: conheça as principais propostas de cada força política antes de votar”

No próximo dia 17 de maio de 2026, os cabo-verdianos são chamados às urnas para eleger os 72 deputados da Assembleia Nacional. São cinco os partidos em competição, com visões diferentes sobre os mesmos problemas: emprego, saúde, transportes, habitação, educação e custo de vida. Este artigo existe para que cada leitor possa chegar a esse dia com informação clara e completa sobre o que cada partido propõe.

​A campanha eleitoral decorre entre 30 de abril e 15 de maio. Ao todo, foram validadas 48 listas de candidaturas, com mais de 500 candidatos efetivos a percorrer o arquipélago à procura do voto dos cerca de 419.700 eleitores inscritos — um crescimento de 7% face a 2021, especialmente na diáspora.

Como funciona a eleição

​Antes de entrar nos programas, convém perceber o que está em jogo. Os 72 deputados são distribuídos por 13 círculos eleitorais: 10 no território nacional e 3 na diáspora (África, América e Europa/Resto do Mundo). A ilha de Santiago, com dois círculos eleitorais, elege sozinha 33 deputados — quase metade do total. São Vicente elege 10, Santo Antão 6, Sal 4, Fogo 5, Santiago Norte 14, Santiago Sul 19, e assim por diante.

Quem é a Assembleia Nacional?

​A Assembleia Nacional é o órgão legislativo de Cabo Verde, composta por deputados que representam a vontade popular. Além de legislar, tem o papel fundamental de fiscalizar a ação do Governo e aprovar o Orçamento do Estado, sendo o coração da democracia parlamentar no arquipélago.

O partido que ganhar com maioria absoluta (37 ou mais deputados) forma governo sozinho. Caso contrário, será necessária uma coligação ou acordo de governação. Nas últimas legislativas, em abril de 2021, o MpD venceu com maioria absoluta, elegendo 38 deputados, contra 30 do PAICV e 4 da UCID.

Os cinco partidos em competição

🔵 MpD — Movimento para a Democracia

Líder e candidato a primeiro-ministro: Ulisses Correia e Silva

Slogan: “Continuar para Avançar” / “Cabo Verde no Caminho Seguro”

Círculos em que concorre: Todos os 13 círculos eleitorais

Resultado em 2021: 38 deputados (maioria absoluta)

O que defende: O MpD apresenta-se como o partido da continuidade e da estabilidade. Ulisses Correia e Silva, que governa desde 2016 e disputa agora um terceiro mandato consecutivo, defende que Cabo Verde construiu uma base sólida nos últimos dez anos e que o próximo passo é transformar esse crescimento em melhorias concretas na vida das famílias. A mensagem central do partido é que o país não precisa de ser “resgatado”, mas sim de ser bem governado — e que a estabilidade política é, em si mesma, um recurso valioso para uma pequena economia insular.

Propostas principais:

  • Economia e rendimento: Transformar o crescimento económico em aumento real do rendimento das famílias; Diversificação da economia através da economia azul e digital; Atualização continuada do salário mínimo nacional; Apoio ao investimento privado e ao empreendedorismo.
  • Fiscalidade: Redução do IVA da água e da eletricidade para 6%; Reforço das deduções fiscais ligadas à educação, saúde e mobilidade.
  • Saúde: Reforço do sistema de saúde em todas as ilhas, com mais profissionais e melhores serviços; Redução das evacuações médicas para o exterior; Construção de um hospital de referência nacional (projeto em andamento).
  • Educação: Universalização do ensino pré-escolar; Aumento do número de bolsas de estudo para o ensino superior (o MpD não promete gratuitidade, mas mais bolsas); Melhoria do ensino técnico, profissional e superior, alinhado com as necessidades da economia.
  • Habitação: Bonificação de juros no crédito à habitação, especialmente para jovens; Criação de garantias públicas para cobrir a entrada exigida pelos bancos; Aposta na habitação a custos controlados e no regime de renda resolúvel.
  • Transportes: Mais barcos e aviões para as ligações interilhas, com preços “justos e viáveis”; Reforço da regularidade e frequência das ligações marítimas e aéreas.
  • Proteção social: Criação de cerca de 3.000 empregos na área dos cuidados a idosos, pessoas com deficiência e doentes crónicos; Objetivo: eliminar a pobreza extrema ainda em 2026 e reduzir a pobreza absoluta.
  • Energia e ambiente: Aposta nas energias renováveis (o aeroporto de Santiago já atingiu 100% de autonomia energética); Reforço da dessalinização e gestão da água.
  • Segurança: Reforço da Polícia Nacional com mais efetivos; Maior celeridade da justiça e combate firme à criminalidade; Projeto “Cidade Segura” para reforço da segurança pública.

🔴 PAICV — Partido Africano da Independência de Cabo Verde

Líder e candidato a primeiro-ministro: Francisco Carvalho

Slogan: “Um Cabo Verde para Todos” / “A Vez do Povo”

Círculos em que concorre: Todos os 13 círculos eleitorais

Resultado em 2021: 30 deputados

O que defende: O PAICV apresenta-se como a força da mudança e da justiça social. Francisco Carvalho, que é também presidente da Câmara Municipal da Praia desde 2024, lidera um partido que quer voltar ao poder após dois mandatos na oposição. O discurso centra-se na ideia de que o crescimento económico dos últimos anos não chegou à maioria da população, e que Cabo Verde precisa de um Estado mais presente, mais social e mais capaz de distribuir a riqueza gerada pelo turismo. O partido renovou cerca de 70% das suas listas, apostando em independentes e em mais mulheres nas posições de destaque.

Propostas principais:

  • Emprego — a grande bandeira: A criação de emprego é apresentada como “o maior projeto nacional”; Aposta no setor primário (agricultura, pecuária e pesca) para fixar pessoas nas zonas rurais e travar a emigração; Mais apoio ao investimento privado, com menos burocracia; Incentivos à industrialização e à transformação de produtos locais.
  • Educação: Ensino superior público gratuito — a proposta mais marcante e diferenciadora do PAICV; Gratuitidade na formação profissional; Incentivos à formação técnica e universitária para jovens.
  • Saúde: Cuidados de saúde gratuitos para a população; Introdução de consultas especializadas nas ilhas mais carenciadas; Melhoria dos serviços de saúde locais para reduzir evacuações.
  • Transportes — uma das propostas mais debatidas: Ligações marítimas interilhas a 500 escudos; Passagens aéreas interilhas a 5.000 escudos; Resolução do problema dos transportes da Brava nos primeiros 30 dias de mandato (navio a pernoitar no porto da Furna); Tarifas especiais para produtores agrícolas e pescadores.
  • Habitação: Política habitacional mais social e acessível; Crítica à privatização do sector habitacional e ao aumento dos preços dos terrenos.
  • Estado e fiscalidade: Redução do “Estado gordo” — corte nas despesas supérfluas da máquina estatal; Compromisso de não aumentar a carga fiscal; Redução da dimensão do governo (menos ministros); Reforma profunda das instituições.
  • Setor primário: Investimento em mecanização agrícola; Mais água para rega; Valorização da pesca e da pecuária.

🟡 UCID — União Cabo-verdiana Independente e Democrática

Líder e candidato: João Santos Luís

Slogan: “Mais equilíbrio, melhor governação”

Círculos em que concorre: Todos os 13 círculos eleitorais

Resultado em 2021: 4 deputados (todos por São Vicente)

O que defende: A UCID posiciona-se como a terceira via — o partido que pode quebrar o ciclo de alternância entre MpD e PAICV que dura desde 1991. O seu argumento central é que nenhum dos dois grandes partidos deve governar sem uma fiscalização rigorosa, e que a presença da UCID no Parlamento serve exatamente para garantir esse equilíbrio. O partido é de inspiração democrata-cristã e tem o seu maior bastião em São Vicente.

Propostas principais:

  • ​Papel no parlamento: Ser o “equilíbrio” entre os dois grandes partidos, fiscalizando quem quer que governe; Defender os interesses das ilhas menos representadas; Pressionar por mais descentralização e autonomia para os concelhos.
  • ​Agricultura e pesca: Mecanização agrícola e mais água para rega; Maior acesso a mercados para escoamento da produção; Certificação e valorização de produtos locais (exemplo: café do Fogo para exportação); Reforço do setor da pesca com melhor apoio aos pescadores artesanais.
  • ​Energia: Aposta na energia geotérmica no Fogo, aproveitando o vulcão; Expansão das energias renováveis.
  • ​Transportes e descentralização: Maior regularidade nas ligações inter-ilhas; Crítica ao “excesso de centralização do poder” que impede o desenvolvimento das ilhas; Defesa de mais investimento público nas ilhas periféricas.
  • ​Juventude e formação: Mais oportunidades de formação técnica e universitária para jovens das ilhas; Combate à emigração forçada pela criação de emprego local.
  • ​Transparência e gastos públicos: Proposta de moderação dos gastos nas campanhas eleitorais; Maior responsabilização dos partidos e governantes; Defesa de uma política que “não viva acima das condições do povo”.
  • ​Turismo: Melhor aproveitamento do potencial turístico do Fogo (vulcão); Desenvolvimento do turismo nas ilhas com menor afluência.

🟠 PP — Partido Popular

Líder e candidato: Amândio Barbosa Vicente

Slogan: “PP, o voto da diferença”

Círculos em que concorre: Santiago Sul, Santiago Norte, Boa Vista e diáspora — 6 círculos

Resultado em 2021: Sem representação parlamentar

O que defende: O PP é um partido pequeno que se apresenta como uma alternativa de ruptura com o sistema bipartidário. O seu principal objetivo nestas eleições é eleger o primeiro deputado da sua história, com um discurso centrado na transparência e na luta contra a partidarização da administração pública.

Propostas principais:

  • Habitação: Reforma profunda na política habitacional, devolvendo essa responsabilidade às câmaras municipais; Fim do que descreve como “capitalismo selvagem” na venda de terrenos; Habitação acessível a todas as classes sociais; Crítica às empresas privadas ligadas a ex-governantes.
  • Saúde: Reforma profunda no sistema de saúde; Mais infraestruturas e equipamentos; Melhoria do acesso aos cuidados básicos.
  • Segurança social: Combate à emigração forçada através da valorização salarial e das pensões; Objetivo de atrair cabo-verdianos da diáspora de volta ao país.
  • Administração pública: Combate à partidarização da máquina do Estado; Mais transparência governativa; Governação mais próxima do cidadão.
  • Emprego e economia: Foco no poder de compra das famílias; Melhoria das condições laborais.

🟢 PTS — Pessoas, Trabalho e Solidariedade

Líder e candidata: Jónica Brito

Slogan: “Cabo Verde na Korason”

Círculos em que concorre: Santiago Sul, Santiago Norte, São Vicente e diáspora — 6 círculos

Resultado em 2021: Sem representação parlamentar

O que defende: O PTS centra o seu discurso na justiça social, nos jovens, nas comunidades invisibilizadas e na dignidade humana. A metodologia de campanha é marcadamente de proximidade — porta-a-porta nos bairros mais carenciados.

Propostas principais:

  • Habitação — a principal bandeira: Projeto de “tolerância zero à falta de dignidade, zero barracas”; Habitação digna como direito fundamental; Pressão política para que os apoios financeiros pós-tempestade cheguem efetivamente às populações afetadas.
  • Transportes: Revisão do modelo de concessão dos transportes marítimos; Fiscalização estatal mais rigorosa sobre horários e regularidade das viagens; Tarifas diferenciadas para produtores agrícolas e pescadores.
  • Juventude e emprego: Mais trabalho e rendimento digno para as famílias; Foco em jovens como agentes de mudança; Investimento em educação, lazer e desporto nos bairros periféricos como forma de combater a criminalidade.
  • Representação política: Ser a voz das pessoas “invisíveis e ignoradas” pelo sistema político; Defender no parlamento as comunidades afetadas por catástrofes; Prestação de contas sobre apoios financeiros concedidos a populações vulneráveis.
  • Custos de vida: Redução do custo de vida como objetivo central; Mais rendimento para as famílias.

Um dos temas que mais dividiu os partidos nesta campanha foi o preço dos transportes interilhas. A proposta do PAICV de ligações marítimas a 500 escudos e aéreas a 5.000 escudos foi a mais concreta e a que gerou mais polémica. O MpD considerou a proposta inviável, defendendo que preços tão baixos “poriam a companhia no chão” e que o objetivo deve ser ter mais barcos e aviões com preços justos — não populistas. A UCID e o PTS defendem maior regulação e fiscalização, sem comprometer a viabilidade financeira das operadoras.

O que os eleitores mais querem ouvir

​Segundo inquéritos de terreno, os principais temas que preocupam os cabo-verdianos são:

  1. Emprego — especialmente para os jovens e nas zonas rurais.
  2. Custo de vida — alimentação, energia e habitação cada vez mais caros.
  3. Saúde — falta de especialistas nas ilhas, evacuações frequentes e custos elevados.
  4. Segurança — aumento da criminalidade, especialmente nas cidades.
  5. Transportes e Habitação.

Nota Editorial: Este artigo é um guia informativo e não toma partido por nenhuma força política. Todas as propostas apresentadas foram recolhidas a partir das declarações públicas dos candidatos e dos documentos divulgados durante a campanha eleitoral. O caboverde24.info compromete-se a atualizar este artigo caso surjam propostas novas ou esclarecimentos relevantes até ao dia 17 de maio.

Caboverde24.info

Fonte: Comissão Nacional de Eleições (CNE), declarações públicas dos candidatos durante a campanha eleitoral. Imagem: IA

Recordamos que as eleições legislativas de 17 de maio de 2026 são as primeiras desde a vitória por maioria absoluta do MpD em abril de 2021. Nessas eleições, o MpD elegeu 38 deputados, o PAICV 30 e a UCID 4. Desta vez, cinco partidos concorrem aos 72 lugares da Assembleia Nacional, distribuídos por 13 círculos eleitorais, com mais de 419.000 eleitores inscritos em todo o país e na diáspora.

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