“De sociólogo a presidente da câmara, de líder do PAICV a chefe do Governo: o homem que prometeu ‘um Cabo Verde para todos’ e cumpriu a promessa nas urnas”
De Santiago para Lisboa: as raízes académicas
Francisco Carvalho nasceu a 4 de dezembro de 1970. Fez a sua formação superior em Portugal, licenciando-se em Sociologia pela Universidade Nova de Lisboa, onde se pós-graduou também em Migrações, Minorias Étnicas e Transnacionalismo. É ainda doutorando em Sociologia e Economia Históricas — um percurso académico que moldou profundamente a sua visão do mundo e da política.
Foi nos corredores da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL que, já no ano 2000, Carvalho começou a construir a sua reputação como figura de liderança, destacando-se no associativismo estudantil e comunitário cabo-verdiano em Lisboa.
A carreira no Estado: das comunidades à capital
Regressado a Cabo Verde, Francisco Carvalho ingressou na função pública e percorreu um caminho no coração do aparelho do Estado. Foi assessor da ministra e do ministro das Comunidades Emigradas entre 2010 e 2012, diretor-geral das Comunidades de 2012 a 2016, e técnico especialista do Ministério dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades em 2016.
Este percurso não foi por acaso: colocou-o em contacto direto com os cabo-verdianos da diáspora, uma das comunidades mais numerosas e influentes do país. Conhecer de perto as suas dificuldades e aspirações tornou-se uma marca distintiva da sua visão política.
A aposta na Praia: a autarquia como trampolim
Em 2020, Francisco Carvalho deu o passo decisivo para a política ativa. Apresentou-se como cabeça de lista do PAICV nas eleições autárquicas para a Câmara Municipal da Praia, liderando o projeto “Praia Para Todos”. A sua promessa era clara: uma governação de fundo, estruturante, capaz de conduzir ao desenvolvimento real da capital — e não apenas a intervenções superficiais de embelezamento.
Ganhou. E cumpriu. A avaliação positiva que os praienses fazem da sua gestão municipal é considerada um dos pilares do prestígio que acumulou ao longo dos anos, e que o tornaria candidato natural à liderança do partido.
O PAICV escolhe-o como líder
Com o capital político acumulado na presidência da câmara, Carvalho anunciou em janeiro de 2025 a candidatura à liderança do PAICV, descrevendo-a como um “dever de consciência” enquanto cabo-verdiano. Invocou a sua ligação longa ao partido, a experiência como sociólogo e funcionário público, e sobretudo a “grande experiência” construída à frente da maior autarquia do país.
A 25 de maio de 2025, o resultado foi claro: Francisco Carvalho venceu as eleições internas do PAICV com 62% dos votos dos militantes, numa disputa com outros três candidatos. No discurso de vitória, assumiu o compromisso de “transformar o PAICV e organizá-lo internamente”, para construir “o Cabo Verde que tenho sonhado e que todos os cabo-verdianos merecem”.
A campanha: falar do “Cabo Verde real”
Francisco Carvalho entrou nas eleições legislativas de 17 de maio de 2026 como presidente do PAICV e presidente da câmara da Praia, candidato pelo círculo de Santiago Sul. O seu adversário direto era o então primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva, do MpD, que tentava um terceiro mandato consecutivo no poder.
A estratégia do PAICV foi clara: apostar no desgaste do governo e no descontentamento popular acumulado em torno do aumento do custo de vida, do desemprego jovem, das dificuldades no acesso à habitação e das desigualdades sociais. “Quero falar de Cabo Verde real — aquele Cabo Verde onde as pessoas levantam cedo e não têm o que comer em casa”, declarou num comício em Santiago.
Durante a campanha, prometeu reduzir as despesas “supérfluas” do Estado para financiar o seu programa e percorreu todas as ilhas, afirmando que “nada substitui o contacto direto com as pessoas, porque a realidade muda todos os dias”.
Não faltou a polémica: o MpD acusou-o de “contornar a lei”, argumentando que o código eleitoral proíbe que presidentes de câmara em exercício se candidatem sem renunciar. Carvalho optou por nomear um substituto temporário, sem abandonar o cargo definitivamente.
Vitória histórica: números e consequências
No dia 17 de maio de 2026 — o mesmo dia em que Cabo Verde celebra a liberdade de imprensa e 35 anos de democracia multipartidária — os cabo-verdianos foram às urnas para as oitavas eleições legislativas da história do país. Mais de 400 mil eleitores estavam inscritos.
O resultado, confirmado apenas nas últimas horas da contagem com a chegada dos votos das Américas, foi uma vitória clara do PAICV:
- PAICV: 88.966 votos — 46,7% — 37 deputados (Maioria Absoluta)
- MpD: 83.190 votos — 43,6% — 33 deputados
- UCID: 9.793 votos — 5,1% — 2 deputados
Comparado com as eleições de 2021, o PAICV ganhou 7 mandatos, o MpD perdeu 4 e a UCID perdeu 2. A taxa de abstenção atingiu um recorde histórico de 53,3%, superando em 10 pontos percentuais o valor registado em 2021 — um dado que lança desde já um desafio ao novo governo.
Pelas 00h15 locais, na sede do PAICV na Praia, Francisco Carvalho declarou a vitória: “Os cabo-verdianos passaram uma mensagem clara: chegou a hora de mudar a gestão do país.” E comprometeu-se perante o país: “Podem esperar de nós tudo o que prometemos. Não vamos invocar desculpas para não cumprir.”
As promessas que terá de honrar
Entre os compromissos eleitorais mais concretos assumidos por Carvalho ao longo da campanha destacam-se: acesso gratuito à universidade pública, cuidados de saúde sem custos para os cidadãos, viagens domésticas de barco a 500 escudos e de avião a 5.000 escudos, e um corte nas despesas “supérfluas” do Estado.
Quanto à política externa, foi categórico: “Portugal tem sido um grande parceiro. Seguramente vai continuar a ser e, digo eu, vai ser ainda mais.”
Um regresso com história
O PAICV regressa ao poder após dez anos na oposição. A sua última passagem pelo governo terminou em 2016, quando o MpD, então liderado por Ulisses Correia e Silva, venceu as legislativas e iniciou uma década de governação. Desde então, o PAICV foi acumulando força nas autarquias — em 2024, conquistou a maioria dos municípios do país — até à vitória nacional desta segunda-feira.
Do outro lado, Ulisses Correia e Silva reconheceu a derrota com serenidade, anunciou a demissão da liderança do MpD e garantiu uma “transição normal e pacífica”, comprometendo-se a fazer do partido uma “oposição responsável”.
A abstenção recorde de 53,3% ficará como a sombra desta vitória. Um cabo-verdiano em cada dois não foi votar. Para Francisco Carvalho, o verdadeiro desafio começa agora: reconquistar também esses cidadãos que ficaram em casa.
Recordamos que…
O PAICV venceu as eleições legislativas de 17 de maio de 2026 com maioria absoluta, elegendo 37 deputados e reconquistando o Palácio do Governo após uma década na oposição. O líder do partido, o sociólogo Francisco Carvalho, torna-se o novo primeiro-ministro eleito de Cabo Verde, derrotando Ulisses Correia e Silva num ato eleitoral também marcado pelo recorde histórico de 53,3% de abstenção.
Cape Verde 24.info
Fonte: Comissão Nacional de Eleições (CNE), Lusa, Público, RTP África – Imagem Redação Caboverde24.info































