PAICV no poder: todas as promessas eleitorais ponto por ponto

“Francisco Carvalho vence as eleições com maioria absoluta e assume a chefia do governo com um programa ambicioso. Aqui ficam registadas todas as promessas feitas aos cabo-verdianos — para que possamos verificar, no futuro, se serão cumpridas.

Uma vitória histórica depois de dez anos

​O PAICV venceu as eleições legislativas de 17 de maio de 2026, regressando ao poder após dez anos na oposição. Francisco Carvalho será o novo primeiro-ministro de Cabo Verde.

​A composição da Assembleia Nacional ficou definida com 37 deputados do PAICV, 33 do MpD e 2 da UCID. Foram as mais renhidas eleições legislativas de sempre, com o cenário de maioria absoluta a ser confirmado apenas com os resultados do círculo eleitoral das Américas.

​A taxa de abstenção foi a mais elevada de sempre no país: 53,3%, mais 10 pontos percentuais do que nas eleições de 2021.

​Na noite eleitoral, Francisco Carvalho foi direto: “Podem esperar de nós tudo o que prometemos, com excepção do que depender de alterações constitucionais, porque o MpD não vai colaborar quanto a isso.”

​Este artigo regista, ponto por ponto, tudo o que o PAICV prometeu durante a campanha.

1. Estado e governação

Francisco Carvalho prometeu um governo muito mais pequeno do que o atual, com redução clara da dimensão do executivo. Os recursos poupados deverão ser canalizados para sectores prioritários. O candidato apontou como exemplo as despesas com deslocações e estadias inscritas no Orçamento do Estado de 2026: mais de 1 milhão de contos, equivalentes a cerca de 3 milhões e meio de escudos por dia. Criticou ainda os gastos com indemnizações compensatórias para transportes marítimos — mais de 700 mil contos — e as despesas com estudos e consultorias.

Francisco Carvalho especificou que Cabo Verde gasta atualmente cerca de 4,5 mil milhões de escudos em estudos e consultorias, valor que aumentou significativamente nos últimos anos, sendo que muitos desses estudos acabam sem aplicação prática. O PAICV defende que parte desses recursos pode ser redirecionada para sectores prioritários.

​O PAICV prometeu também aumentar o Fundo de Financiamento Municipal para 17% para todas as câmaras municipais, independentemente da sua cor partidária.

Francisco Carvalho comprometeu-se ainda a criar melhores condições para o investimento privado e a reduzir a burocracia, apontando a criação de emprego como o “principal projeto” do partido.

2. Saúde

​Na saúde, o PAICV prometeu acesso universal e gratuito até ao final da legislatura de 2031, com a criação de um Fundo Nacional de Saúde Universal, financiado através de tributação seletiva sobre produtos nocivos à saúde. “Saúde é direito, saúde não é luxo”, afirmou Francisco Carvalho.

​O candidato prometeu ainda a colocação de médicos especialistas nas áreas em falta e a instalação de equipamentos laboratoriais e aparelhos de TAC nas ilhas com carências, como a Boa Vista.

​Foi também anunciada a criação de programas de atualização e especialização para médicos, com o objetivo de reforçar a qualificação dos profissionais de saúde em Cabo Verde.

3. Educação

​O PAICV propõe a gratuidade total dos cursos na Uni-CV, defendendo que o Estado deve assumir o custo da formação superior para garantir que seja o mérito, e não a conta bancária, a ditar quem acede à universidade.

Francisco Carvalho especificou que a Universidade de Cabo Verde precisaria de cerca de mil milhões de escudos para deixar de cobrar propinas aos estudantes — valor muito inferior ao atualmente gasto em estudos e consultorias.

​O programa prevê também o reforço das bolsas de estudo, a construção de residências universitárias e a valorização da classe docente. O PAICV prometeu ainda combater a precariedade laboral e limitar o uso sucessivo de estágios.

​Aos professores, Francisco Carvalho garantiu que todas as reivindicações da classe estão contempladas na plataforma eleitoral e prometeu implementar as medidas em conjunto com os docentes.

4. Transportes interilhas: a promessa mais concreta e mais polémica

​Para um arquipélago de dez ilhas habitadas dispersas pelo oceano Atlântico, os transportes interilhas não são uma questão de conforto — são uma questão de dignidade e de coesão territorial. Foi precisamente por isso que as promessas do PAICV nesta matéria se tornaram o tema mais debatido de toda a campanha.

Os preços prometidos

Francisco Carvalho reafirmou em vários momentos da campanha o compromisso de baixar as tarifas de transporte interilhas, prometendo tarifas de 500 escudos para viagens de barco e 5.000 escudos para avião, garantindo pelo menos uma ligação diária a todas as ilhas.

​O candidato justificou a medida com palavras diretas: “O barco a 500 escudos e o avião a simplesmente cinco mil escudos é tudo para ir ao encontro da realidade cabo-verdiana.”

​Na própria noite da vitória eleitoral, Francisco Carvalho voltou a confirmar estas promessas como compromissos centrais do futuro governo: viagens domésticas de barco a 500 escudos — cerca de 4,53 euros — e de avião a 5.000 escudos — cerca de 45,35 euros.

​Estes números não foram ditos uma vez. Foram repetidos ao longo de toda a campanha e reafirmados após a vitória. Ficam aqui registados.

O que custa hoje viajar entre ilhas

​Para perceber a dimensão desta promessa é preciso ter presente a realidade atual. Uma passagem aérea interilhas em Cabo Verde pode custar entre 15.000 e 30.000 escudos ou mais, dependendo da rota e da antecedência da compra. Uma viagem de barco ronda habitualmente os 2.000 a 4.000 escudos. A promessa do PAICV representa portanto uma redução de preço de 70% a 90% face aos valores praticados atualmente.

O modelo que o PAICV quer mudar

​Para o PAICV, os transportes são a “coluna vertebral” da unidade nacional. O partido propõe uma mudança radical no modelo de gestão, passando de uma lógica puramente comercial para uma lógica de serviço público essencial. Propõe reavaliar o contrato com a concessionária Cabo Verde Interilhas para garantir que todas as ilhas, especialmente as mais periféricas como a Brava, São Nicolau e Maio, tenham ligações regulares, previsíveis e com horários adequados.

O caso urgente da Brava

​Para a ilha da Brava, Francisco Carvalho comprometeu-se a resolver o problema dos transportes nos primeiros 30 dias de mandato, com a introdução de um navio que passará a pernoitar diariamente no porto da Furna, assegurando maior regularidade nas ligações marítimas.

​A Brava é a ilha habitada mais isolada de Cabo Verde, sem aeroporto operacional e dependente de um porto que frequentemente não permite operações em condições de mau tempo. A promessa dos “primeiros 30 dias” é das mais concretas e verificáveis de todo o programa.

Transportes aéreos: fim do monopólio e soberania aérea

​Nos transportes aéreos, o PAICV prometeu a recuperação da soberania aérea e da conectividade interna, com o reforço das ligações interilhas e o fim do monopólio que isola as ilhas turísticas e as ilhas agrícolas e administrativas. Em relação à TACV, o partido quer garantir a viabilidade da companhia, focando-a não apenas no mercado internacional, mas como suporte estratégico para a coesão do território, com revisão das taxas aeroportuárias para tornar os bilhetes mais acessíveis.

A questão da viabilidade financeira

​A proposta foi considerada inviável pelo então primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva, que afirmou: “Querem preços que põem a companhia no chão e que não viabilizam transportes.”

​A resposta do PAICV foi sempre a mesma: o financiamento viria do corte nas gorduras do Estado, argumentando que somente cortando ao nível dos estudos e das consultorias seria possível financiar os custos tanto da saúde como dos subsídios aos transportes.

​O debate ficou em aberto durante a campanha. Será resolvido — ou não — durante a legislatura.

5. Emprego e juventude

Francisco Carvalho apontou a criação de emprego como prioridade, defendendo a instalação de fábricas no país e o reforço do apoio aos jovens empreendedores através do programa “Cabo Verde Empreende”.

​O candidato prometeu criar incentivos através de formações técnicas, universitárias e profissionais, para travar o abandono das ilhas por parte dos jovens em busca de melhores oportunidades.

​O PAICV comprometeu-se ainda a garantir concursos transparentes para que todos os cabo-verdianos possam ter acesso a cargos de topo da administração pública.

6. Agricultura, pescas e economia azul

​A agricultura, as pescas e a economia azul surgem entre as prioridades da proposta do PAICV, com destaque para a criação do Banco de Investimento Agroazul.

Francisco Carvalho destacou ainda a importância do acesso à água como condição essencial para o desenvolvimento sustentável do setor primário, criticando o abandono a que a pesca, a agricultura e a pecuária foram votadas durante os últimos anos.

7. Habitação e saneamento

​Para a Boa Vista, o candidato prometeu resolver o problema de saneamento e da rede de esgotos como uma das primeiras prioridades do governo. O programa prevê igualmente medidas de habitação para as famílias cabo-verdianas, com foco na redução das desigualdades de acesso.

8. Descentralização e poder local

​O PAICV prometeu ir “muito mais longe” em matéria de descentralização, garantindo que o futuro governo estará ao lado de todas as ilhas e câmaras municipais, independentemente da cor partidária. Francisco Carvalho defendeu ainda a possibilidade de um referendo para que os cidadãos possam escolher livremente o modelo de descentralização.

9. Comunicação social

​Na área da comunicação social, Francisco Carvalho prometeu reforçar a independência dos órgãos de comunicação e apoiar a imprensa privada.

10. Relações internacionais e fundos externos

Francisco Carvalho sublinhou que Cabo Verde é elegível para muitos fundos internacionais, mas que o que falta é capacidade para elaborar projetos competitivos e garantir acesso a esses financiamentos, comprometendo-se a reforçar essa capacidade institucional.

​O novo primeiro-ministro garantiu ainda que o futuro governo governará com responsabilidade e sentido de Estado, com enorme respeito pelo percurso que Cabo Verde tem feito e por todos os parceiros, destacando Portugal como parceiro privilegiado.

O que fica por cumprir depende da Constituição

​Uma ressalva importante foi feita pelo próprio Francisco Carvalho na noite eleitoral: algumas medidas poderão não ser implementadas caso dependam de alterações constitucionais, uma vez que o MpD não deverá colaborar nesse sentido. É um limite real que os cabo-verdianos devem ter presente ao acompanhar a execução deste programa.

We recall that...

O PAICV governou Cabo Verde de 2001 a 2016. Em 2016, o MpD chegou ao poder com Ulisses Correia e Silva, revalidando a maioria absoluta em 2021. Nas autárquicas de dezembro de 2024, o PAICV conquistou a maioria dos municípios do país, resultado que relançou as expectativas do partido em regressar ao poder nacional. Dez anos depois, o regresso concretizou-se com maioria absoluta nas eleições legislativas de 17 de maio de 2026.

Caboverde24.info

Fonte: Declarações publicadas na campanha eleitoral do PAICV – Imagem criada com IA

Would you like to be part of this blog?

Share your ideas and experiences with us!

  • Suggest topics you would like to see published here.
  • Tell us a story or life experience that has had a significant impact on you.
  • Send photos of your city or community.
  • Promote events near you and share any information you consider important to enrich our Cape Verdean community.

Your participation is essential to make this space increasingly lively, useful, and accessible to all of us.
info@caboverde24.com

Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields marked with *

Related articles

other publications

Related articles

other publications