Abstenção em Cabo Verde: por que cada vez menos cabo-verdianos vão votar?

“Com 53,4% nas legislativas de 2026 — o valor mais alto desde a independência — o afastamento os cidadãos das urnas tornou-se o maior problema da democracia cabo-verdiana”

Um recorde que ninguém queria bater

​Nas eleições legislativas de 17 de maio de 2026, 218.087 cabo-verdianos decidiram não votar. É mais de metade do eleitorado registado — 53,4% — e representa o valor mais elevado de abstenção desde que Cabo Verde introduziu o multipartidarismo em 1991. Não se trata de um acidente estatístico. É o resultado de uma tendência que se agrava eleição após eleição, e que os partidos políticos, as instituições e os analistas têm ignorado com uma consistência preocupante.

​Para perceber onde estamos, basta olhar para os números:

A luta contra a abstenção já era considerada, no início de 2026, o maior desafio das eleições legislativas. Os resultados provaram que esse desafio não foi vencido. Muito pelo contrário.

O desinteresse que vem de longe

​A democracia representativa em Cabo Verde apresenta falhas significativas, sendo um sistema em declínio e em perda de legitimidade. O fenómeno de desconexão entre eleitos e eleitores torna-se cada vez mais evidente, resultando no crescente desinteresse da população pelos assuntos públicos.

​Os dados do Afrobarometer de 2025 confirmam a dimensão do problema: 63% dos cabo-verdianos acreditam que o país está no caminho errado, um aumento de 7 pontos desde 2019. Atualmente, 55% dos cabo-verdianos consideram o desemprego o maior problema do país, a saúde aparece em segundo lugar com 51% e a criminalidade em terceiro com 48%. Além disso, 83% da população acredita que o governo está falhando no combate à criminalidade, e 68% consideram a sua atuação contra a corrupção ineficaz.

​Neste contexto, a abstenção deixa de ser apatia e passa a ser uma mensagem: muitos cidadãos não vão votar porque não acreditam que o voto mude as suas condições de vida, independentemente do partido que governe.

Os jovens: a geração que não vai votar

​O grupo etário mais afastado das urnas é também o mais numeroso e o mais decisivo para o futuro do país. Num estudo sobre a participação eleitoral em Cabo Verde, os investigadores Évora e Ramos concluíram que o grupo que mais se abstém são os indivíduos entre os 25 e os 34 anos, e que nos jovens entre os 18 e os 24 anos regista-se uma percentagem significativa de quem nunca votou. Este comportamento pode indicar um desinteresse total pela política — ou uma recusa de legitimidade do sistema político, que significa insatisfação com a forma como o sistema está a funcionar e descontentamento com o desempenho dos políticos e das instituições.

​Um estudo sobre participação eleitoral realizado pela DGAPE, CNE e ICIEG concluiu que 66% dos inquiridos cabo-verdianos afirmam interessar-se pouco ou nada por política, com maior impacto nos jovens, sendo o desinteresse ainda maior entre as mulheres, com 70%.

​Dois em cada três cabo-verdianos dizem não se interessar por política. E o voto — o único instrumento formal de participação democrática — paga o preço desse afastamento.

A emigração esvazia as urnas

​Há um fator estrutural que agrava todos os outros: a emigração massiva de jovens cabo-verdianos. O sociólogo Elísio Semedo alertou que a emigração deve estar no centro do debate eleitoral, sublinhando que ainda há jovens que podem decidir ficar se houver condições, e que a falta de alternativas continua a empurrar jovens para fora do país.

​O mesmo sociólogo alertou para o impacto demográfico da saída de jovens, agravado pela queda da natalidade: “Estamos numa linha vermelha. Antigamente, uma mãe tinha seis a dez filhos. Agora, no máximo, tem três. É esta a reality que temos.”

​Um jovem cabo-verdiano que emigra para Portugal ou para os Estados Unidos mantém o registo eleitoral em Cabo Verde — mas raramente vota. A diáspora tem círculos eleitorais próprios, mas a participação é historicamente baixa. O país perde cidadãos ativos e perde votos em simultâneo.

A desconexão entre eleitos e eleitores

​Os cabo-verdianos não desapareceram da vida pública — migraram para as redes sociais, que hoje funcionam como praças públicas onde os cidadãos se expressam livremente. Comentam, criticam e debatem no Facebook e no Instagram. Mas não vão votar. A política entrou no telemóvel mas saiu das urnas.

​Esta realidade coloca uma questão fundamental: os partidos políticos cabo-verdianos continuam a fazer campanha como se estivéssemos em 1991, mobilizando militantes e organizando comícios. Mas os cidadãos de 2026 — especialmente os mais jovens — querem ser ouvidos todos os dias, não apenas de quatro em quatro anos.

O que dizem os números de 2026

​Nas legislativas de 17 de maio, o PAICV conquistou a maioria absoluta com 88.966 votos — menos de 9% da população total estimada de Cabo Verde. O MpD obteve 83.190 votos. A diferença entre os dois partidos foi de apenas 5.776 votos. Num universo de 408.731 eleitores registados, estes números revelam uma base de apoio real extremamente estreita para qualquer governo que se pretenda verdadeiramente representativo.

​Registaram-se ainda 2.002 votos nulos e 2.673 votos em branco — cidadãos que foram às urnas mas recusaram escolher. Mais um sinal de protesto silencioso que os partidos não podem ignorar.

O que é preço mudar

​As soluções debatidas pelos analistas passam por várias frentes. Em primeiro lugar, uma maior abertura dos partidos à participação cidadã fora dos ciclos eleitorais — não apenas em tempo de campanha. Em segundo lugar, políticas públicas de emprego e retenção de jovens que reduzam a emigração forçada. Em terceiro lugar, a modernização do sistema de voto para facilitar a participação da diáspora, que representa uma fatia enorme do eleitorado registado mas com participação mínima. E, finalmente, uma comunicação política que fale a linguagem real dos cabo-verdianos.

​Como sublinhou o sociólogo Elísio Semedo, ainda há jovens que podem decidir ficar, se houver condições. É preciso criar essas condições — e é preciso fazê-lo antes que a normalização da emigração se torne irreversível.

​O novo governo do PAICV tem agora cinco anos para demonstrar que a política pode, de facto, mudar a vida das pessoas. Se o conseguir, talvez nas próximas eleições mais cabo-verdianos decidam sair de casa para ir votar. Se falhar, a abstenção de 2031 poderá ser ainda mais alta do que a de 2026.

We recall that...

A taxa de abstenção nas legislativas cabo-verdianas passou de 34% em 2016 para 53,4% em 2026 — um aumento de quase 20 pontos percentuais em apenas uma década, transformando a abstenção no fenómeno político mais importante do arquipélago.

Caboverde24.info

Fonte: Afrobarometer 2025; Lusa/Executive Digest; DGAPE/CNE/ICIEGEstudo sobre Participação Eleitoral em Cabo Verde; Portal eleicoes.cv

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