UCID em crise: o que correu mal nas legislativas e o que muda agora para o partido

“De terceira força a força reduzida: a UCID perde metade dos seus deputados nas legislativas de 17 de maio e enfrenta agora um momento de profunda reflexão interna.”

Um resultado que ninguém esperava assim

​As eleições legislativas de 17 de maio de 2026 deixaram marcas profundas em quase todos os partidos, mas nenhum saiu tão ferido como a União Cabo-verdiana Independente e Democrática. O partido obteve apenas 9.229 votos, conquistando dois mandatos, ambos em São Vicente — um resultado que representa uma queda abrupta face à legislatura anterior e que obriga a uma reflexão séria sobre o futuro da formação democrata-cristã.

​Nas eleições de 2021, a UCID havia elegido quatro deputados, num parlamento onde o MpD venceu com maioria absoluta com 38 mandatos, contra 30 do PAICV. Em apenas quatro anos, o partido perdeu metade da sua representação parlamentar, regressando a uma presença mínima na Assembleia Nacional.

O que disse João Santos Luís

João Santos Luís, presidente da UCID e candidato a primeiro-ministro nestas legislativas, foi o primeiro a reconhecer a dimensão do revés. Nas suas primeiras declarações após os resultados provisórios, afirmou que “a abstenção venceu as eleições legislativas” e que o processo eleitoral ficou marcado por “muita sujeira” e “atitudes antidemocráticas” em todas as ilhas e na diáspora.

​O dirigente mostrou-se particularmente desiludido com os resultados em São Vicente, o principal bastião do partido, onde a UCID passou de quatro para dois deputados. Para João Santos Luís, o partido realizou uma campanha “terra a terra” e “porta a porta” em todas as zonas da ilha, sendo que a UCID foi, nas suas palavras, o principal defensor dos interesses de São Vicente no parlamento nos últimos anos. “O povo de São Vicente trocou o disco para tocar a mesma música”, afirmou, com visível amargura.

​O presidente da UCID acusou ainda as autarquias e o Governo de fazerem uso massivo de recursos públicos na campanha eleitoral, sustentando que a democracia cabo-verdiana é ainda muito incipiente e que os actores políticos manipularam o eleitorado durante os quinze dias de campanha e nos dias que os antecederam.

O problema da abstenção

​A taxa de abstenção atingiu 53,3%, revelando que mais de metade dos cabo-verdianos não foi às urnas. Para um partido como a UCID, cujo eleitorado é menos fidelizado e mais sensível ao desânimo político, esta realidade teve consequências devastadoras.

​O partido entrou na campanha com uma ambição clara: tornar-se a charneira de um eventual parlamento sem maioria absoluta, exercendo uma influência desproporcional à sua dimensão numérica. Esse cenário não se concretizou. Os eleitores que poderiam ter votado na UCID como “terceira via” ou não foram às urnas, ou acabaram por optar pelo voto útil nos dois grandes partidos — e a estratégia do equilíbrio parlamentar ficou sem base eleitoral suficiente para se sustentar.

Uma campanha ambiciosa que não chegou

A UCID construiu uma campanha de abertura, acolhendo nas suas listas candidatos provenientes de outros partidos. Entre os casos mais visíveis, Casimiro de Pina, com passagem pelo MpD, encabeçou a lista no Fogo, e Alberto Mello surgiu em Santiago Sul com o mesmo perfil. A lógica era clara: captar quadros experientes, dar sinais de renovação e atrair eleitores descontentes com o bipartidarismo tradicional.

​Mas o fenómeno foi mais amplo. O partido acolheu também figuras provenientes de outras formações políticas, numa aposta deliberada de construir uma frente mais heterogénea e representativa. A estratégia era sedutora no papel: juntar descontentes de várias origens e transformá-los numa alternativa credível ao duopólio MpD-PAICV.

​O resultado mostrou, porém, que a transferência de candidatos não arrastou consigo a transferência de votos. Os eleitores que acompanhavam essas figuras nos seus partidos de origem não seguiram o mesmo caminho nas urnas. A UCID pagou o preço de uma aposta que, sendo politicamente compreensível, não encontrou ressonância suficiente no eleitorado.

O bipartidarismo resistiu

​Desde 1991, o MpD e o PAICV alternam no poder em Cabo Verde e dominam a Assembleia Nacional. As legislativas de 2026 confirmaram, uma vez mais, esta tendência estrutural. O PAICV venceu com maioria absoluta, e o MpD segurou-se em segundo lugar com cerca de 30 mandatos. Para os partidos menores, o espaço continuou a ser estreito — e mais estreito do que nunca.

​O PTS dobrou os seus votos face a 2021, mas ficou igualmente sem assentos parlamentares. O voto de protesto contra o bipartidarismo existiu, dispersou-se entre várias formações menores, e nenhuma delas conseguiu concentrá-lo de forma eficaz. A UCID, que era a mais bem posicionada para o fazer, não o conseguiu.

O que muda agora

​Com apenas dois deputados, ambos concentrados em São Vicente, a UCID perde peso negocial, visibilidade parlamentar e capacidade de influência. O partido que sonhava ser o árbitro do próximo parlamento vê-se agora numa posição marginal, num hemiciclo dominado pelo PAICV com maioria absoluta — o cenário menos favorável para uma terceira força política.

​Apesar da derrota, João Santos Luís assegurou que o partido continuará a defender um projecto alternativo para o país. A frase com que encerrou a noite eleitoral foi reveladora da sua determinação: “A conclusão é que a luta continua, nós perdemos uma batalha, mas não perdemos a guerra.”

​O futuro imediato passará inevitavelmente por um processo de avaliação interna, pela consolidação da base em São Vicente e pela difícil tarefa de manter relevância e visibilidade num ciclo político que o partido não contribuiu para moldar. A questão que fica em aberto é se a UCID terá capacidade de se reinventar antes das próximas eleições — ou se continuará a encolher num sistema que, eleição após eleição, parece não deixar espaço para uma terceira via.

We recall that...

A UCID entrou nas legislativas de 2026 com quatro deputados, conquistados nas eleições de abril de 2021. O partido apresentou-se a 10 dos 13 círculos eleitorais com o objetivo declarado de romper o bipartidarismo histórico de Cabo Verde, defendendo uma “terceira república” mais descentralizada e equilibrada. Acolheu nas suas listas candidatos provenientes de outros partidos, numa estratégia de abertura que não produziu os resultados esperados. O resultado de 17 de maio ditou uma perda de metade da representação, com apenas dois deputados eleitos, ambos em São Vicente, num contexto de abstenção superior a 53%.

Caboverde24.info

Artigo de opinião fundamentado em declarações e análises dos dados eleitorais.

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