“O arquipélago figura entre os dez países africanos com menor crédito pendente junto do Fundo Monetário Internacional, num continente onde a crise da dívida afeta dezenas de nações”
Um continente a duas velocidades
África é frequentemente associada a crises de dívida e programas de ajustamento impostos por credores internacionais. Mas os dados oficiais do Fundo Monetário Internacional (FMI) revelam uma realidade mais diversificada: entre os 47 países africanos com dívida ao FMI, um grupo restrito mantém obrigações financeiras extraordinariamente baixas — e Cabo Verde faz parte desse grupo.
O que dizem os dados mais recentes
Segundo os dados oficiais do FMI referentes a abril de 2026, Cabo Verde detém um crédito pendente de 79,52 milhões de dólares junto da instituição. Um valor que, comparado com os gigantes do endividamento africano, é residual.
No polo oposto, o Egito detém a maior dívida africana ao FMI, com 8,5 mil milhões de dólares. A Argentina lidera a nível mundial, com 40,3 mil milhões de dólares. No total, existem 91 países com dívida ao FMI, dos quais 47 são africanos — o que representa 52% dos países devedores a nível mundial.
Entre os países africanos com menor dívida ao FMI figuram, pela ordem dos valores mais recentes disponíveis: Lesoto, Essuatíni, Comores, São Tomé e Príncipe, Djibouti, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e Cabo Verde, seguidos de Somália e Seicheles.
O que significa esta posição para Cabo Verde
Manter uma dívida reduzida ao FMI tem implicações práticas e simbólicas. Os empréstimos do FMI, embora essenciais em momentos de crise, estão habitualmente associados a condicionalismos estritos que podem impor austeridade e cortes nos serviços públicos. Países com obrigações baixas preservam maior autonomia nas suas escolhas de política económica e orçamental.
É também um sinal relevante para os mercados e investidores: baixos níveis de dívida junto do FMI sugerem estabilidade, baixo risco de default e gestão fiscal responsável — fatores que influenciam positivamente a captação de investimento direto estrangeiro.
Vale notar que Botswana é o único país africano que nunca recorreu a empréstimos do FMI, um estatuto único no continente. A Nigéria, por seu lado, liquidou a sua dívida de 3,4 mil milhões de dólares em abril de 2025 e saiu da lista de devedores.
A economia cabo-verdiana: disciplina com crescimento
A posição de Cabo Verde neste ranking reflete um percurso de consolidação fiscal consistente. A economia cabo-verdiana registou um crescimento forte em 2024, de 7,3%, apoiado no turismo, no desempenho das exportações e no crescimento do consumo privado, com uma previsão de 5,2% para 2025 e inflação a manter-se próxima dos 2%.
As reservas internacionais atingiram 1,06 mil milhões de euros em dezembro de 2025, confortavelmente acima do objetivo de 5,5 meses de importações. O sistema financeiro mantém-se líquido, rentável e bem capitalizado.
O desempenho ao abrigo do programa ECF foi considerado satisfatório, com todos os critérios quantitativos de desempenho cumpridos, e as reformas estruturais a avançar, incluindo uma importante reforma de governação do Banco de Cabo Verde.
Em paralelo, Portugal anunciou em janeiro de 2025 um aumento do mecanismo de troca de dívida por ação climática com Cabo Verde, de 13 para 45 milhões de dólares, com extensão até 2030.
Uma trajetória a manter
Apesar do desempenho positivo, o FMI alerta que o elevado nível de dívida pública total continua a ser uma fonte de vulnerabilidade, e que o financiamento concessionado para limitar os custos de serviço da dívida permanece importante. Os riscos externos, as pressões fiscais das empresas públicas e o ciclo eleitoral são apontados como fatores a monitorizar.
O rácio dívida pública/PIB mantém-se numa trajetória descendente, com projeção de 104,9% até ao final de 2025, abaixo dos níveis pré-pandemia — um progresso real, ainda que o caminho a percorrer seja longo.
Manter a dívida ao FMI sob controlo é, neste quadro, um elemento de credibilidade que Cabo Verde tem sabido cultivar com disciplina, posicionando-se de forma favorável num continente onde a pressão da dívida continua a ser um dos principais obstáculos ao desenvolvimento.
We recall that...
Cabo Verde mantém dois programas ativos junto do FMI: a Extended Credit Facility (ECF) e a Resilience and Sustainability Facility (RSF), aprovados em 2022 e sucessivamente renovados com avaliações positivas. Os dados de crédito pendente auditados em abril de 2026 consolidam o arquipélago no top 10 dos países da região com a menor exposição financeira direta junto deste organismo multilateral.
Caboverde24.info
Fonte: Fundo Monetário Internacional (FMI) — dados oficiais de crédito pendente, abril 2026
Nota editorial: A dívida ao FMI referida neste artigo corresponde exclusivamente ao crédito pendente junto da instituição (outstanding credit), e não à dívida pública total do país, que inclui obrigações junto de outros credores bilaterais e multilaterais e que se situa em torno de 104,9% do PIB.







































