Falta de moedas em Cabo Verde: comerciantes do Sal, Boa Vista e São Vicente continuam sem solução

Bancos reconhecem por escrito a escassez de trocos e remetem o problema para o Banco de Cabo Verde, que garante ter stock suficiente”

O impasse dos trocos no comércio nacional

​Quatro meses depois de o caboverde24.info ter denunciado, em março, a escassez de moedas metálicas que afeta gravemente o comércio em Cabo Verde, o problema mantém-se sem solução visível. A nossa redação continua a receber, com regularidade, relatos de comerciantes das ilhas turísticas do Sal e da Boa Vista, bem como de São Vicente, que descrevem dificuldades diárias para dispor de trocos suficientes no exercício da sua atividade económica.

​Vários operadores comerciais contactados pelo caboverde24.info partilharam correspondência oficial trocada com as suas instituições bancárias, nas quais os bancos confirmam, por escrito, disporem apenas de quantidades reduzidas de moeda metálica nas suas caixas. Nessas respostas, as instituições financeiras remetem a resolução definitiva do problema para o Banco de Cabo Verde (BCV), enquanto entidade emissora e responsável pela distribuição de notas e moedas no território nacional.

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A resposta oficial do BCV

​Perante estas denúncias, o caboverde24.info solicitou esclarecimentos formais ao BCV, que respondeu com prontidão e detalhe técnico. Segundo a instituição, encontram-se atualmente em circulação cerca de 78,6 milhões de moedas no país. Entre janeiro de 2025 e junho de 2026 foram colocadas em circulação mais de 9,5 milhões de novas moedas6,9 milhões em 2025 e 2,6 milhões apenas no primeiro semestre de 2026.

​O BCV sustenta que dispõe de stock suficiente para responder a todas as necessidades do sistema financeiro nacional e garante o abastecimento regular das instituições de crédito sempre que solicitado. Segundo a instituição, as situações pontualmente reportadas nalgumas ilhas não resultam de insuficiência de moedas, mas sim da reduzida recirculação da moeda metálica e de constrangimentos logísticos complexos ligados ao transporte marítimo e aéreo entre as ilhas.

​O BCV cita ainda os resultados do Inquérito sobre os Hábitos de Utilização da Moeda Metálica, por si realizado, segundo o qual uma parte significativa das moedas emitidas permanece retida fora do circuito económico — reduzindo a sua disponibilidade para reutilização nas transações correntes. O estudo aponta mesmo para a possibilidade de parte destas moedas estar a ser desviada para fins completamente diferentes daqueles para que foram originalmente cunhadas.

As consequências no terreno para comerciantes e clientes

​Para lá do braço de ferro institucional sobre as causas do problema, são os comerciantes das ilhas turísticas que enfrentam, diariamente, as suas consequências mais diretas:

  • Tensão no atendimento ao cliente: Sem trocos disponíveis, muitos estabelecimentos veem-se obrigados a negociar o valor do troco no próprio balcão — uma situação que gera embaraço para quem vende e frustração legítima para quem paga, já que o cliente tem todo o direito a receber o troco exato pela compra que efetuou.
  • Arredondamento sistemático para cima: Perante a impossibilidade de devolver o valor certo, a solução mais comum passa por arredondar os preços para o escudo, ou dezena de escudos, imediatamente superior. O que começa como um ajuste pontual tende a fixar-se como prática corrente, sobretudo em bares, restaurantes e pequenos comércios de rua.
  • Risco de pressão inflacionária: Multiplicado por milhares de transações diárias em ilhas de forte fluxo turístico como o Sal e a Boa Vista, este arredondamento sistemático contribui, de forma indireta mas bem real, para o encarecimento generalizado dos preços — um efeito que se soma às demais pressões inflacionárias já sentidas pelas famílias cabo-verdianas.
  • Outros efeitos colaterais: Comerciantes relatam ainda perda de tempo operacional na procura de trocos junto de outros estabelecimentos ou balcões bancários, recurso a alternativas informais de troca de moedas — o que alimenta um pequeno mercado paralelo já denunciado em março — e, nalguns casos, relutância em aceitar pagamentos de valores baixos em numerário, empurrando clientes para o cartão mesmo em transações que tradicionalmente seriam feitas em dinheiro.

Duas leituras do mesmo problema

​Do lado do comércio, a perceção é de escassez real e imediata. Do lado do BCV, o problema não é de quantidade, mas de circulação e distribuição — fortemente agravado por dificuldades logísticas próprias de um arquipélago disperso por várias ilhas. A instituição assegura estar a trabalhar em articulação com as instituições de crédito para promover uma maior redistribuição de moeda entre ilhas, reforçando as denominações mais procuradas nos locais onde as necessidades são maiores.

Uma possível solução: acelerar a moeda digital

​A discussão sobre uma solução estrutural ganha relevância num contexto em que o problema se repete ciclicamente. Entre as soluções em debate, ganha força a possibilidade de Cabo Verde antecipar a introdução de uma versão digital do escudo cabo-verdiano — um caminho que o próprio BCV já sinalizou publicamente, ao incluir o símbolo de uma moeda digital de banco central em emissões comemorativas recentes, apresentando-a como “sinal do futuro”. Un sistema deste tipo reduziria a dependência de numerário físico nas pequenas transações, aliviando a pressão sobre a circulação de moedas metálicas.

​Este movimento acompanharia, à sua escala, o processo em curso na área do euro, onde o Banco Central Europeu continua a desenvolver o projeto do euro digital, ainda sem data definitiva de lançamento. Para Cabo Verde, país com paridade cambial fixa ao euro, um eventual avanço paralelo nesta direção poderia representar uma resposta estrutural a um problema que, por agora, continua a ser gerido de forma pontual.

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Nota editorial:

O caboverde24.info contactou diretamente o BCV para obter esclarecimentos oficiais, cuja resposta integral serviu de base a este artigo. A redação manterá o acompanhamento deste dossiê, dando voz tanto às instituições financeiras como aos comerciantes afetados.

We recall that...

em março de 2026, o caboverde24.info já tinha alertado para a escassez de moedas metálicas e o seu impacto no comércio e no mercado paralelo em Cabo Verde. Quatro meses depois, as queixas de comerciantes do Sal, da Boa Vista e de São Vicente mantêm-se inalteradas, apesar da garantia do BCV de que o stock nacional é perfeitamente suficiente, sendo a situação acompanhada hoje, 10 de julho de 2026.

Caboverde24.info

Fonte: Banco de Cabo Verde (BCV) e comerciantes

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