“Pela primeira vez num Mundial, um país anfitrião barra um jogador por acusações criminais — e a FIFA admite não ter qualquer poder sobre isso”
Um caso sem precedentes na história do futebol
O médio ganês Thomas Partey não poderá participar no jogo de estreia da sua seleção contra o Panamá, depois de as autoridades canadianas terem recusado o seu pedido de visto. É a primeira vez que um jogador convocado para um Mundial é impedido de entrar num país anfitrião por razões judiciais — e não desportivas.
As acusações e a cronologia do processo
O caso judicial contra Partey desenvolve-se em duas fases distintas. Em julho de 2025, foram apresentadas cinco acusações de violação e uma de agressão sexual, relacionadas com três mulheres e com alegados incidentes ocorridos entre 2020 e 2022. As investigações arrancaram após uma queixa apresentada em fevereiro de 2022. Em fevereiro de 2026, surgiram duas novas acusações de violação envolvendo uma quarta mulher, na sequência de alegações reportadas à polícia em agosto de 2025.
O julgamento, inicialmente marcado para novembro de 2026, foi adiado para junho de 2027. O jogador permanece em liberdade sob caução, com condições que proíbem o contacto com as alegadas vítimas. Negou sempre todos os factos.
A posição da FIFA: “Não é connosco”
A FIFA confirmou a situação em comunicado, afirmando que o jogador não conseguiu deslocar-se do campo de treinos da seleção de Gana, em Boston, para o Canadá, e que a organização “not está envolvida nos processos de imigração dos países anfitriões, incluindo a análise de pedidos de visto”.
É uma posição que expõe uma lacuna significativa no regulamento: a FIFA pode gerir transferências, suspensões e fair-play financeiro, mas não tem qualquer mecanismo para intervir quando um país soberano decide barrar um atleta por motivos legais.
A lei canadiana e o princípio da inadmissibilidade
Um porta-voz do Ministério da Imigração, Refugiados e Cidadania do Canadá explicou que cada pedido é analisado individualmente, com base nos factos disponíveis e na legislação aplicável, e que os estrangeiros podem ser considerados inadmissíveis mesmo sem uma condenação formal.
Fontes familiarizadas com o processo indicaram que a recusa se deve às restrições de imigração canadianas, que podem barrar a entrada a indivíduos acusados de determinados crimes, independentemente de terem ou não sido condenados. Trata-se de uma prerrogativa soberana que coloca o desporto diante de uma realidade jurídica que nem a FIFA nem os regulamentos da competição conseguem contornar.
Quem é Thomas Partey?
Internacionalmente, Partey tem sido um pilar dos Black Stars ao longo de quase uma década, tendo participado em várias edições da Taça das Nações Africanas e no Mundial de 2022. Entrou no torneio de 2026 como vice-capitão — o que torna a sua ausência na estreia ainda mais significativa para a seleção ganesa.
O que este caso significa para os Mundiais de 2026
O caso Partey abre um debate que vai muito além do Gana. Com 48 seleções e três países anfitriões — Estados Unidos, Canadá e México —, o Mundial de 2026 é a competição mais complexa da história em termos logísticos e legais. A possibilidade de que um jogador seja admitido nuns países e barrado noutros cria uma assimetria sem paralelo.
Partey deverá, contudo, poder participar nos jogos da sua seleção realizados em solo norte-americano, nomeadamente o encontro contra a Inglaterra, marcado para o dia 23 de junho em Boston. Uma situação que ilustra como as fronteiras nacionais podem fragmentar a presença de um atleta num mesmo torneio.
We recall that...
Thomas Partey foi acusado em duas fases — julho de 2025 e fevereiro de 2026 — de um total de sete violações e uma agressão sexual envolvendo quatro mulheres. Negou sempre todas as acusações. O julgamento criminal em solo britânico foi oficialmente adiado para junho de 2027. O Canadá recusou formalmente o seu pedido de visto para jogar em Toronto nesta primeira jornada de junho de 2026, decisão soberana que a FIFA confirmou não ter competência ou poder legal para reverter.
Caboverde24.info
Fonte: FIFA, AFP



















