“Pinto, Cohen, Levy, Benchimol, Anahory: os apelidos que ligam Cabo Verde a Marrocos há quase dois séculos”
Uma vaga migratória no século XIX
Percorrendo uma lista telefónica em Cabo Verde, ou simplesmente ouvindo os nomes de família mais comuns nas ilhas, há um pormenor em que poucos param para pensar: vários destes apelidos não têm origem portuguesa nem africana, mas sim judaica.
A explicação remonta a meados do século XIX e a uma pequena mas marcante onda migratória vinda de Marrocos e de Gibraltar.
Estas famílias eram judeus sefarditas — ou seja, descendentes dos judeus expulsos da Península Ibérica séculos antes, que se haviam refugiado em cidades marroquinas. Instalaram-se livremente em Cabo Verde depois de Portugal ter abolido a Inquisição em 1821 e depois de Portugal e a Grã-Bretanha terem assinado um tratado de comércio e navegação em 1842.
Como muitos judeus marroquinos negociavam com o vizinho território britânico de Gibraltar, alguns já tinham obtido cidadania britânica e viajaram para Cabo Verde com esses passaportes.
De Tânger e Essaouira até às ilhas
As inscrições em hebraico e português nas lápides dos pequenos cemitérios judaicos espalhados pelas ilhas indicam que a maioria destas famílias veio das cidades marroquinas de Tânger, Tetuão, Rabat e Mogador (atual Essaouira).
Fixaram-se sobretudo nas ilhas de Santo Antão, São Vicente, Boa Vista e Santiago, onde se dedicaram ao comércio internacional, à navegação e à administração pública e privada.
Os apelidos que sobreviveram ao tempo
Entre os nomes de família de origem judaica que ainda hoje se encontram em Cabo Verde contam-se Anahory, Auday, Benoliel, Benrós, Benathar, Benchimol, Brigham, Cohen, Levy, Maman, Pinto, Seruya e Wahnon.
Como estas famílias eram poucas e maioritariamente compostas por homens, muitos casaram-se com mulheres católicas locais. Este processo de miscigenação fez com que, hoje, praticamente não exista comunidade judaica praticante nas ilhas — mas os apelidos permanecem, atravessando gerações até aos dias de hoje.
Um jogador, uma pergunta que ganhou o mundo
Foi precisamente esta curiosidade que, durante o Mundial 2026, levou vários órgãos de comunicação internacionais a explicar ao mundo quem é Cabo Verde: um dos jogadores da seleção nacional, Gilson Benchimol, carrega um dos apelidos mais reconhecidamente sefarditas.
O detalhe, pequeno à primeira vista, tornou-se uma porta de entrada para contar uma história maior — a de um arquipélago moldado por várias ondas de chegada, encontro e mistura cultural.
Sobre o Cape Verde Jewish Heritage Project
O Cape Verde Jewish Heritage Project é uma organização sem fins lucrativos que tem como missão honrar a memória e explorar o contributo das famílias judaicas que imigraram para Cabo Verde vindas de Marrocos e Gibraltar em meados do século XIX.
A sua atuação foca-se na preservação dos cemitérios históricos e na documentação genealógica das famílias envolvidas. Em 2017, o governo de Cabo Verde classificou oficialmente os cemitérios judaicos e outros locais históricos judaicos como património histórico nacional.
Cemitérios que guardam a memória
A preservação destes espaços tem sido, ao longo dos anos, uma prioridade para descendentes e investigadores, que veem nas lápides desgastadas da Praia, da Ribeira Grande ou da Boa Vista uma das últimas provas físicas desta presença.
Trata-se de um património discreto, mas que ajuda a explicar a diversidade cultural que compõe a identidade cabo-verdiana.
Nota editorial: É importante sublinhar que, apesar da presença histórica destas famílias, não existe atualmente comunidade judaica praticante em Cabo Verde. A herança mantém-se sobretudo através de apelidos de família, memória oral e do trabalho de preservação de organizações dedicadas ao tema.
Recordamos que… este capítulo da história cabo-verdiana ganhou nova atenção internacional na sequência da participação histórica da seleção no Mundial 2026, quando vários órgãos de comunicação social estrangeiros associaram o percurso da equipa a este pouco conhecido legado judaico, sob acompanhamento documental nesta terça-feira, 21 de julho de 2026.
Cape Verde 24.info
Fonte: Cape Verde Jewish Heritage Project



























