“Em apenas um ano nasceram menos 814 crianças em Cabo Verde. O INE mostra claramente o que está a acontecer. Mais difícil é responder à pergunta seguinte: porquê?”
Em 30 segundos
👶 Cabo Verde registou 5.999 nascimentos em 2024, menos 814 do que no ano anterior.
📉 A Taxa Geral de Fecundidade atingiu o nível mais baixo do período 2016–2024, caindo para 46 por mil mulheres.
🏠 Custo de vida, habitação, estabilidade profissional e projetos de emigração pesam no adiamento da maternidade e paternidade.
⚫ Foram registados 3.082 óbitos, reduzindo o saldo natural para 2.917 pessoas.
Nasceram menos 814 bebés. A pergunta é porquê
Em 2023 nasceram 6.813 crianças em Cabo Verde. Um ano depois foram 5.999.
São menos 814 bebés em apenas doze meses, o que representa uma contração próxima dos 12%.
O fenómeno não parece traduzir uma oscilação meramente pontual. A Taxa Geral de Fecundidade, que mede o número de nados-vivos por cada mil mulheres em idade fértil (15 aos 49 anos), passou de 77,1 em 2016 para 52,5 em 2023, descendo aos 46 em 2024.
Trata-se do registo mais baixo em toda a série analisada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
Primeiro a casa e a estabilidade. Depois os filhos?
Apesar de não existir um inquérito específico que isole uma causa única, a realidade demográfica cabo-verdiana converge com as transformações verificadas a nível internacional.
Estudos comparados sobre a quebra da natalidade apontam para variáveis socioeconómicas determinantes: elevação do custo de vida, pressão nos preços da habitação, precariedade laboral e aumento dos custos associados à criação e educação.
Constituir família deixou de ser uma decisão exclusivamente pessoal para se tornar um planeamento financeiro rigoroso. Quando a obtenção de rendimentos estáveis e de teto próprio se protela no tempo, o nascimento do primeiro filho é sucessivamente adiado.
E se o futuro estiver fora de Cabo Verde?
A componente migratória introduz um elemento estruturante na dinâmica demográfica do país.
Dados apurados pela rede Afrobarometer em 2024 revelaram que 64% dos cabo-verdianos inquiridos já equacionaram emigrar, proporção que escala para os 76% na faixa etária dos 18 aos 35 anos.
A expectativa de mobilidade para Portugal, Estados Unidos ou outros destinos leva frequentemente os jovens a suspender decisões de longo prazo em solo nacional. Para muitos, a constituição de família e a parentalidade acabam por se concretizar apenas nos países de acolhimento.
Ter menos filhos pode ser também uma escolha
A dinâmica não resulta unicamente de restrições materiais.
A sociedade cabo-verdiana registou uma crescente capacitação escolar e académica feminina, maior integração no mercado profissional e transformações nas aspirações de vida:
- Maior recurso ao planeamento familiar;
- Preferência por agregados familiares de menor dimensão;
- Redefinição de prioridades pessoais e profissionais antes de assumir encargos familiares.
Enquanto nascem menos crianças, aumentam os óbitos
O quadro demográfico completa-se com a evolução da mortalidade.
Em 2024 registaram-se 3.082 óbitos no país, mais 157 face ao ano antecedente. Como consequência direta da quebra nos nascimentos e da subida nos falecimentos, o excedente natural fixou-se em 2.917 pessoas, contra as 3.888 apuradas em 2023.
Em apenas um ano civil, a margem de substituição natural encolheu em quase mil indivíduos.
Uma pergunta que vai muito além dos bebés
O declínio sustentado dos nascimentos acarreta consequências de médio e longo prazo:
- Redução imediata da frequência nas creches e no ensino básico;
- Menor entrada de contingente populacional no mercado de trabalho;
- Alteração progressiva do rácio de dependência demográfica, aumentando a pressão financeira sobre o sistema de previdência e a Segurança Social.
Os indicadores oficiais do INE fornecem o retrato quantitativo da viragem demográfica. O passo seguinte para as políticas públicas consistirá em analisar e responder aos fatores estruturais que estão a levar os cabo-verdianos a ter menos filhos.
Caboverde24.info
Fonte: Instituto Nacional de Estatística de Cabo Verde (INE) — Estatísticas Vitais 2024.



























