“Um concurso lançado pelo Estado revela um novo passo na reorganização do setor elétrico. O modelo em preparação prevê uma entidade responsável por coordenar a rede e comprar a energia aos diferentes produtores. A mudança ganha importância com a entrada crescente das fontes renováveis.”
Em 30 segundos
⚡ Cabo Verde está a preparar uma nova etapa da organização do setor elétrico.
💰 O modelo prevê um “comprador único” para adquirir eletricidade aos diferentes produtores.
☀️ A mudança deverá ajudar a gerir uma rede com maior presença de energia solar e eólica.
🧾 O documento não prevê alterações imediatas nas tarifas pagas pelos consumidores.
Uma mudança nos bastidores da eletricidade
Quando uma família acende uma lâmpada, pouco importa quem produziu aquela eletricidade ou quem equilibrou a rede para que estivesse disponível naquele momento.
Nos bastidores, porém, Cabo Verde prepara uma mudança importante na forma como esse sistema será organizado.
Um procedimento lançado pela Unidade de Gestão de Projetos Especiais procura assistência técnica para preparar o reforço institucional da Operadora Nacional do Sistema Elétrico de Cabo Verde (ONSEC).
O objetivo é criar condições para que esta entidade desempenhe três funções centrais: operar a transmissão, coordenar o sistema elétrico e atuar como comprador único da energia produzida no país.
Mas o que é um “comprador único”?
É o ponto mais importante para compreender a mudança.
Imagine-se um parque solar, um parque eólico e outros produtores a colocar eletricidade na rede. Num modelo de comprador único, em vez de cada produtor negociar diretamente a venda da energia ao longo de toda a cadeia, existe uma entidade central que a compra de acordo com contratos e regras estabelecidos.
Essa entidade torna-se, assim, um ponto de ligação entre quem produz eletricidade e o restante sistema.
É essa função que está prevista no modelo para o qual a ONSEC deverá ser preparada.
Produzir energia e controlar a rede não são a mesma coisa
A reorganização ajuda também a separar tarefas diferentes.
Uma coisa é produzir eletricidade. Outra é transportá-la através da rede. E outra ainda é garantir, a cada momento, que a produção disponível corresponde ao consumo.
Esse equilíbrio é indispensável.
Se a procura aumenta, é necessário assegurar energia suficiente. Se a produção excede o consumo, o sistema também precisa de responder.
Quanto maior for a presença de fontes renováveis, mais importante se torna essa coordenação.
O desafio das renováveis
Cabo Verde pretende aumentar significativamente o peso da energia solar e eólica. Isso traz uma vantagem evidente — aproveitar recursos naturais abundantes — mas cria também novos desafios para a gestão da rede.
O sol desaparece ao fim do dia e o vento varia. A eletricidade produzida por essas fontes não é, portanto, constante.
Uma rede com maior participação de renováveis precisa de previsão, armazenamento e capacidade para equilibrar produção e consumo praticamente em tempo real.
Por isso, a transição energética não depende apenas da instalação de mais painéis solares ou turbinas eólicas. Depende também da existência de uma estrutura capaz de coordenar um sistema cada vez mais complexo.
Isto pode alterar a conta da luz?
É provavelmente a pergunta mais imediata para consumidores e empresas.
O documento agora lançado não prevê qualquer alteração imediata das tarifas.
O procedimento trata da organização e capacidade institucional do setor, não do preço final pago pelo consumidor.
A médio e longo prazo, fatores como o preço de compra da energia aos produtores, eficiência da rede, armazenamento e custos de operação influenciam naturalmente o custo global do sistema.
Mas seria prematuro concluir, a partir deste documento, que a reforma fará a eletricidade subir ou descer de preço.
Primeiro, será feito o roteiro
Também não estamos perante uma mudança já concluída.
O Estado procura assistência técnica para preparar um roteiro de reforço institucional, destinado a identificar as condições necessárias para que a ONSEC possa desempenhar as funções previstas.
O procedimento estabelece 9 de outubro como prazo desta fase do concurso.
Só depois será possível conhecer melhor a arquitetura definitiva e perceber como funcionarão, na prática, as relações entre produtores, operador da rede, distribuição, comercialização e regulação.
Uma reforma técnica com consequências práticas
À primeira vista, trata-se de um concurso especializado sobre a organização do setor energético.
Na realidade, toca numa questão fundamental para o futuro da eletricidade em Cabo Verde: quem comprará a energia produzida por diferentes operadores e quem garantirá que toda essa eletricidade funciona como um único sistema?
O documento aponta uma direção, mas ainda não responde a todas as perguntas.
Falta saber como serão definidos os contratos de compra de energia, que regras serão aplicadas aos diferentes produtores e como o novo modelo se articulará com a distribuição e a regulação.
É aí que estará a verdadeira dimensão da reforma.
Para o consumidor, nada muda amanhã na fatura.
Mas está a ser preparado um novo modelo para organizar o caminho que a eletricidade percorre entre quem a produz e quem a utiliza em Cabo Verde.
Cape Verde 24.info
Fonte: Unidade de Gestão de Projetos Especiais — documentação oficial do procedimento para reforço institucional da Operadora Nacional do Sistema Elétrico de Cabo Verde.



















