“As projeções demográficas apontam para uma transformação profunda da população cabo-verdiana nas próximas décadas. Menos crianças, baixa fecundidade, emigração e aumento da esperança de vida levantam novas questões sobre pensões, saúde, emprego e sustentabilidade do sistema de proteção social.”
Em 30 segundos
👴 Cabo Verde está a envelhecer: o peso dos menores de 15 anos caiu fortemente nas últimas décadas, enquanto aumenta a proporção de idosos.
👶 Os menores de 15 anos representavam cerca de 45,7% da população em 1990 e 25,6% em 2024, segundo a série internacional consultada.
📉 Entre os censos de 2010 e 2021, a população residente praticamente estagnou: passou de 491.875 para 491.233 pessoas.
💰 As despesas públicas com pensões têm aumentado, em média, 8% ao ano, e o FMI alerta para os efeitos da evolução demográfica sobre a sustentabilidade futura do INPS.
Uma pirâmide populacional em mudança
Cabo Verde continua a ser um país relativamente jovem, mas os números mostram uma transformação demográfica profunda.
Dados internacionais baseados nas projeções das Nações Unidas indicam que as pessoas com menos de 15 anos representavam cerca de 45,7% da população em 1990. Em 2024, esse peso tinha descido para aproximadamente 25,6%.
Em sentido contrário, a proporção de pessoas com 65 ou mais anos aumentou de cerca de 4,8% para 6,9% no mesmo período.
O próprio Instituto Nacional de Estatística identifica esta tendência. Entre 2010 e 2021, o índice de envelhecimento passou de 20,1 para 23,6 pessoas com 65 ou mais anos por cada 100 menores de 15 anos.
A tendência deverá prosseguir nas próximas décadas, embora as projeções estejam sujeitas a revisão. O próprio Fundo Monetário Internacional alerta que algumas estimativas demográficas poderão ainda não refletir plenamente a emigração recente de cabo-verdianos.
A fecundidade, a imigração, a emigração e a evolução da esperança de vida poderão alterar a trajetória demográfica do país.
Quase a mesma população em onze anos
Outro indicador ajuda a perceber a dimensão da transformação.
O Censo de 2010 contabilizou 491.875 residentes. Onze anos depois, o Censo de 2021 registou 491.233.
Ou seja, apesar de mais de uma década de intervalo, Cabo Verde tinha praticamente o mesmo número de residentes.
O Fundo Monetário Internacional considera que esta evolução resulta sobretudo da combinação da redução da fecundidade com a emigração.
O FMI observa ainda que a saída de cabo-verdianos poderá ter-se intensificado depois de 2021 e adverte que algumas projeções demográficas utilizadas pelas instituições podem ainda não refletir plenamente essa realidade.
O que isto tem a ver com as pensões?
Muito.
Um sistema de proteção social precisa de trabalhadores e empresas a contribuir para financiar as prestações atuais e futuras.
Se a população em idade ativa diminui em termos proporcionais e o número de pensionistas aumenta, o equilíbrio torna-se progressivamente mais difícil.
Na Declaração dos Riscos Orçamentais associada ao Orçamento do Estado para 2026, o Ministério das Finanças identifica as pensões como um risco fiscal relevante.
O documento revela que estas despesas têm seguido uma trajetória estruturalmente crescente, com uma subida média de aproximadamente 8% ao ano nos últimos nove anos.
O Ministério das Finanças reconhece também que o envelhecimento demográfico poderá aumentar esta pressão a médio prazo.
FMI alerta para a sustentabilidade futura do INPS
A questão chegou também ao Fundo Monetário Internacional.
Num relatório publicado em 2026, o FMI dedicou uma análise específica à relação entre demografia e segurança social em Cabo Verde.
A instituição considera que a diminuição da população residente, associada à baixa fecundidade e à emigração, representa um desafio para a sustentabilidade do regime de pensões do Instituto Nacional de Previdência Social.
O Fundo identifica ainda outro ponto de atenção: o último estudo atuarial do INPS foi elaborado em 2022 e utilizou projeções populacionais que poderão revelar-se demasiado otimistas face aos dados entretanto conhecidos.
Por isso, o FMI recomenda que a avaliação seja atualizada, incorporando os resultados definitivos do Censo de 2021 e dados mais recentes sobre a emigração.
Entre as medidas que coloca em discussão estão o controlo dos custos do sistema, uma gestão diferente dos ativos do INPS e, eventualmente, alterações graduais dos parâmetros das pensões.
Isso não significa que esteja decidida qualquer mudança na idade da reforma. Significa que a evolução demográfica está a obrigar as instituições a reavaliar a sustentabilidade do sistema a longo prazo.
Viver mais é também uma conquista
O envelhecimento da população não deve ser interpretado apenas como um problema.
Uma das razões para esta evolução é positiva: os cabo-verdianos vivem mais tempo.
A esperança de vida aumentou significativamente nas últimas décadas, acompanhada por uma forte redução da mortalidade infantil e por melhores condições de saúde.
O desafio surge quando essa conquista coincide com menos nascimentos e com a saída de parte da população jovem para o estrangeiro.
Cabo Verde poderá, assim, chegar às próximas décadas com menos jovens a entrar no mercado de trabalho e mais pessoas a necessitar de pensões, cuidados de saúde e apoio continuado.
Uma mudança que começa agora
As decisões necessárias para responder a uma transformação demográfica precisam de tempo e planeamento.
A formalização do emprego, o aumento da produtividade, a sustentabilidade das pensões, as políticas de família, a retenção de talento jovem, a formação profissional e o reforço da rede de cuidados geriátricos fazem parte do mesmo desafio.
A evolução demográfica de Cabo Verde não acontecerá de repente.
Os números mostram que o processo já está em curso.
Cape Verde 24.info
Fonte: Instituto Nacional de Estatística; Ministério das Finanças — Declaração dos Riscos Orçamentais do OE2026; Fundo Monetário Internacional; Nações Unidas — World Population Prospects; Banco Mundial.

































