“Um diagnóstico de cancro da mama mudou a forma como a cabo-verdiana Eliane Furtado olhava para a vida. Quase quatro anos depois, mantém uma loja no Luxemburgo, criou a marca Sabibisti e procura transformar a própria experiência num espaço de encontro e apoio entre mulheres.”
Em 30 segundos
🎗️ Eliane Furtado descobriu um cancro da mama há cerca de quatro anos e passou por cirurgia, quimioterapia e radioterapia.
🇨🇻 Nascida em Cabo Verde, cresceu também em Portugal e vive atualmente no Luxemburgo.
👗 Durante o tratamento continuou a desenvolver um pequeno negócio que daria origem à marca Sabibisti e a uma loja em Esch-sur-Alzette.
💬 O projeto tornou-se também um espaço de convívio, onde algumas mulheres procuram não apenas roupa, mas conversa e apoio.
Um diagnóstico que mudou as prioridades
Durante anos, Eliane Furtado levou uma vida semelhante à de muitos emigrantes: trabalho, família e responsabilidades diárias.
Até que um pequeno caroço numa mama mudou tudo.
Eliane já tinha tido, aos 18 anos, um tumor benigno. Por isso, conta que numa primeira avaliação médica não recebeu sinais de alarme. Mas o caroço continuou a aumentar e, perante a preocupação, decidiu procurar uma segunda opinião.
Seguiram-se uma biópsia e uma consulta no hospital que alteraria profundamente a sua vida.
O diagnóstico era cancro da mama.
Vieram depois a cirurgia, a quimioterapia e a radioterapia. Eliane recorda que só percebeu verdadeiramente o peso da notícia quando um dos filhos lhe perguntou se iria morrer.
Foi também nesse momento que começou a questionar a vida que levava.
“Quando pensei que ia morrer, comecei a viver”, resumiu em entrevista ao jornal Contacto.
Eliane começou a desfilar ainda em criança em Cabo Verde e foi modelo fotográfica em Portugal. Aos 18 anos afastou-se desse mundo para se dedicar à família. Hoje regressou aos palcos nos desfiles que organiza no Luxemburgo. © Créditos: Fotograifa cedida por Eliane Furtado.
De Cabo Verde a Portugal e Luxemburgo
A história de Eliane começou muito antes da doença.
Saiu de Cabo Verde ainda criança e cresceu em Portugal, onde estudou. Aos 15 anos tentou viver no Luxemburgo, junto do pai, mas não conseguiu adaptar-se e regressou a Portugal.
Aos 18 anos constituiu família. Mais tarde, já mãe de duas crianças pequenas, voltou ao Luxemburgo.
Os primeiros tempos foram difíceis. Era necessário encontrar casa, trabalho e alguém que pudesse ajudar a tomar conta dos filhos.
Começou nas limpezas e passou posteriormente para a restauração, como ajudante de cozinha, num quotidiano marcado por longas horas de trabalho.
Mas havia outra dimensão da sua vida que acabaria por regressar.
A moda estava presente desde cedo
Eliane começou a desfilar ainda criança, em Cabo Verde, e chegou a trabalhar como modelo fotográfica em Portugal.
A moda fazia igualmente parte da história familiar: a mãe tinha uma loja de roupa em Cabo Verde.
Durante muitos anos, Eliane não imaginou seguir o mesmo caminho. Via sobretudo o esforço e as ausências exigidas pelo negócio.
Com o tempo, essa perceção mudou.
Enquanto trabalhava na restauração, algumas colegas começaram a pedir-lhe conselhos sobre roupa, aparência e cuidados pessoais. Eliane percebeu que gostava desse contacto.
Antes mesmo do diagnóstico de cancro, já vendia cintas modeladoras e outros produtos fora do horário de trabalho.
A doença acabaria por acelerar uma mudança que talvez já estivesse a formar-se.
Sabibisti nasceu durante o tratamento
Mesmo durante os tratamentos, Eliane decidiu continuar a desenvolver o pequeno negócio.
Inscreveu-se em formações através da Agência para o Desenvolvimento do Emprego do Luxemburgo e contou com a ajuda de familiares e amigos nos dias em que o cansaço provocado pelos tratamentos não lhe permitia trabalhar.
Foi nesse período que surgiu Sabibisti, nome associado à ideia de vestir bem, em crioulo.
O negócio começou em casa, passou por uma parceria com um salão de estética e acabou por chegar a uma loja própria em Esch-sur-Alzette.
A mãe de Eliane teve também um papel importante. Quando soube do diagnóstico, saiu de Cabo Verde para apoiar a filha. Posteriormente, juntamente com outra filha, abriu em Cabo Verde uma loja com a mesma marca.
O projeto que Eliane pensava nunca seguir acabou, assim, por aproximá-la também da trajetória da mãe.
Uma loja onde também se conversa
A loja de Eliane não foi pensada apenas como um local para vender roupa.
No interior existe um sofá onde clientes podem sentar-se, conversar e permanecer sem qualquer obrigação de comprar.
Essa dimensão ganhou importância inesperada.
Eliane admite que o negócio enfrenta dificuldades financeiras e que já ponderou fechar a loja. Mas algumas clientes reagiram perguntando onde passariam a conversar e desabafar.
Foi então que percebeu que o espaço tinha adquirido para algumas mulheres uma função diferente da inicialmente prevista.
O objetivo agora é ampliar o conceito e, no futuro, reunir no mesmo local outros serviços dirigidos às mulheres.
Desfiles sem um padrão único de corpo
Os desfiles promovidos por Eliane nasceram quase informalmente, a partir das transmissões que fazia nas redes sociais.
Algumas clientes começaram a pedir para participar.
A ideia evoluiu para eventos em que mulheres com diferentes corpos e histórias podem subir à passerelle. Em algumas iniciativas participaram também crianças autistas.
Há uma altura do ano que Eliane procura assinalar sempre: outubro, mês internacional de sensibilização para o cancro da mama.
Para ela, o Outubro Rosa tornou-se uma data pessoal.
As consequências continuam
O tratamento mais intensivo terminou, mas Eliane continua em acompanhamento médico.
Depois da quimioterapia, radioterapia e de uma mastectomia total, relata limitações na mobilidade do braço direito, cansaço, dificuldades em dormir e problemas de memória que associa aos tratamentos. Continua igualmente a fazer hormonoterapia.
É também por isso que chama a atenção para uma fase frequentemente menos visível da doença: o período depois dos tratamentos mais agressivos.
Para quem observa de fora, o fim da quimioterapia pode parecer o fim da doença. Para quem a viveu, explica Eliane, as consequências podem continuar durante muito tempo.
“Descobri o que era viver”
A doença provocou outras mudanças profundas.
Eliane decidiu avançar com um divórcio que, segundo explica, já vinha sendo discutido antes do diagnóstico. Pensou nas viagens que adiara, nos projetos que nunca concretizara e na vida que queria deixar como exemplo aos filhos.
Quase quatro anos depois, continua a gerir a loja, acompanha a evolução da própria saúde e desenvolve novos projetos.
O cancro permanece parte da sua história, mas deixou de ser a única forma de a definir.
A frase que escolhe para resumir essa transformação é simples:
“Naquele momento em que pensei que ia morrer é que descobri o que era viver.”
Cape Verde 24.info
Fonte: Contacto / Rila Berta































