“As sapatilhas conquistaram cada vez mais espaço no vestuário diário, incluindo em Cabo Verde. Mas a Nike atravessa uma das fases mais difíceis dos últimos anos, pressionada por novos concorrentes, pela queda das vendas na China e por mudanças nas escolhas dos consumidores.”
Em 30 segundos
👟 A Nike faturou 11,2 mil milhões de dólares no último trimestre, menos 4% do que um ano antes.
📉 Na Europa, Médio Oriente e África, as vendas de calçado da marca caíram 11%.
🌍 A quota da Nike no mercado mundial de calçado desportivo caiu para 22,9% em 2025, pelo terceiro ano consecutivo.
🇨🇻 Cabo Verde importou em 2024 mais de 240 mil dólares em duas categorias específicas de calçado desportivo, mas os dados aduaneiros não identificam as marcas.
As sapatilhas não desapareceram. O problema é outro
Durante duas décadas, as sapatilhas deixaram progressivamente de ser apenas calçado para praticar desporto e passaram a fazer parte do vestuário quotidiano.
Segundo dados citados pelo Corriere della Sera, com base em cálculos do Bank of America, as sapatilhas passaram de cerca de 20% para aproximadamente 50% do mercado mundial de calçado.
Ou seja, o problema da Nike não parece estar no desaparecimento das sapatilhas.
O que está a mudar é quem consegue vendê-las.
Marcas como On e Hoka ganharam espaço, particularmente no segmento de corrida, enquanto empresas como Anta e Li-Ning aumentaram a pressão competitiva no mercado chinês. A Adidas continua igualmente a disputar consumidores com a Nike nos segmentos de desporto e moda.
Nike perde quota pelo terceiro ano consecutivo
A dimensão da mudança aparece nos números da Euromonitor.
A quota da Nike no mercado mundial de calçado desportivo caiu para 22,9% em 2025, menos três pontos percentuais do que os 25,9% registados em 2024 e pelo terceiro ano consecutivo.
A evolução mostra a velocidade da perda de terreno: a Nike tinha 29,2% do mercado em 2022, passou para 28,8% em 2023, caiu para 25,9% em 2024 e chegou aos atuais 22,9% em 2025.
A empresa continua a ser uma gigante mundial, mas enfrenta um mercado muito mais fragmentado do que há alguns anos.
Vendas voltam a cair
Os resultados publicados pela Nike a 1 de outubro confirmaram as dificuldades.
No primeiro trimestre do exercício fiscal de 2027, encerrado a 31 de agosto, as receitas ficaram em 11,2 mil milhões de dólares, uma redução de 4% face ao mesmo período do ano anterior.
Só no negócio de calçado da marca Nike, as receitas diminuíram 6%.
Europa e África também recuam
A queda não está limitada à China.
Na região que a Nike classifica como Europa, Médio Oriente e África, as receitas totais diminuíram 5%.
No calçado, a descida foi ainda maior: 11%, passando de 2,021 mil milhões para 1,798 mil milhões de dólares.
Na Grande China, a situação é mais difícil. As receitas totais caíram 22%, ou 26% quando eliminado o efeito das variações cambiais.
A própria empresa reconhece que ainda tem trabalho a fazer na Nike Sportswear, na Jordan Brand e na Grande China.
Uma transformação para poupar 2,5 mil milhões
A resposta da empresa chama-se Pace.
É o novo modelo de transformação operacional anunciado pela Nike, que prevê uma reorganização em três grandes áreas geográficas, modernização da cadeia de abastecimento e criação de um novo campus empresarial na Índia.
A empresa estima conseguir cerca de 2,5 mil milhões de dólares de poupanças acumuladas até ao exercício fiscal de 2031.
Para o conjunto do exercício fiscal de 2027, a Nike prevê que as receitas diminuam numa percentagem situada na faixa alta de um dígito.
Nike, Adidas e Puma: 250 mil milhões perdidos desde os máximos
A dimensão da mudança torna-se ainda mais evidente quando se olha para a bolsa.
Segundo uma análise publicada pelo Corriere della Sera, Nike, Adidas e Puma perderam, em conjunto, aproximadamente 250 mil milhões de euros de capitalização bolsista relativamente aos máximos alcançados nos anos do boom das sapatilhas.
Isso não significa que tenham perdido 250 mil milhões num único dia ou num único ano.
O valor corresponde à diferença entre os respetivos picos de capitalização bolsista e os níveis atuais.
A Nike representa uma parcela importante dessa redução porque era também, de longe, a empresa mais valorizada das três.
E Cabo Verde?
As sapatilhas fazem parte da oferta comercial e do vestuário quotidiano em Cabo Verde, mas existe uma limitação importante: os dados públicos disponíveis não permitem determinar qual é a marca preferida dos cabo-verdianos.
As estatísticas comerciais permitem, contudo, observar a entrada de calçado desportivo no país.
Dados do World Integrated Trade Solution, baseados no UN Comtrade, mostram que Cabo Verde importou em 2024 cerca de 108 mil dólares, correspondentes a 52.349 pares, na categoria aduaneira 640411, relativa a calçado desportivo com parte superior têxtil.
Noutra categoria específica, a 640319, relativa a calçado desportivo com parte superior em couro, as importações chegaram a cerca de 132 mil dólares, correspondentes a 6.008 pares.
Somadas, apenas estas duas categorias representaram cerca de 240 mil dólares em importações de calçado desportivo em 2024.
Os números devem, no entanto, ser interpretados com prudência. Não representam necessariamente todas as sapatilhas que entram ou são comercializadas no país e, sobretudo, não distinguem Nike, Adidas, Puma ou qualquer outra marca.
Não seria, por isso, rigoroso concluir a partir destes dados que a Nike domina o mercado cabo-verdiano.
O que está realmente a mudar
O caso Nike mostra uma transformação maior.
Durante anos, alguns dos grandes fabricantes beneficiaram diretamente do crescimento mundial das sapatilhas. Hoje, o consumidor dispõe de mais alternativas e novos concorrentes conquistam espaço no running, no lifestyle e no calçado técnico.
A popularidade das sapatilhas permanece.
O que está a mudar é a marca que o consumidor escolhe para calçar.
Caboverde24.info
Fonte: NIKE Inc.; Euromonitor International; Reuters; World Bank/WITS — UN Comtrade; Corriere della Sera.



































