“Entenda o funcionamento do aval de 440 milhões de escudos e o papel estratégico do Tesouro na manutenção da companhia de bandeira”
Recordamos que desde a renacionalização da TACV (Cabo Verde Airlines) em 2021, o Governo tem utilizado o mecanismo de garantias estatais como principal ferramenta de suporte à empresa. Uma garantia estatal funciona como um aval: o Estado não entrega o dinheiro diretamente, mas assume a responsabilidade de pagar o empréstimo aos bancos caso a empresa não o consiga fazer. Nos últimos anos, vários destes “balões de oxigénio” foram concedidos para permitir a retoma das operações e a renovação da frota com aviões Boeing e ATR.
Anatomia de um aval: Onde será aplicado o dinheiro?
A recente publicação no Boletim Oficial da autorização de uma nova garantia para um empréstimo de 440 milhões de escudos (cerca de 4 milhões de euros) trouxe novamente a TACV para o centro do debate público. Para compreender o que serve este apoio, é necessário analisar os detalhes técnicos e as contrapartidas desta operação.
1. Reforço da tesouraria e continuidade operacional
O objetivo central deste financiamento é garantir a liquidez imediata. No setor da aviação, os custos fixos — como combustível, manutenção técnica e taxas aeroportuárias — são extremamente elevados e exigem pagamentos a curto prazo. Este montante serve para assegurar que a TACV mantenha os seus compromissos com fornecedores essenciais, evitando qualquer interrupção na escala de voos que possa prejudicar a imagem da companhia e a mobilidade dos passageiros.
2. Prazos e compromissos financeiros
O empréstimo em causa tem um prazo de amortização de cinco anos. Este detalhe é fundamental, pois define um horizonte temporal para que o plano de reestruturação da empresa comece a dar frutos. O aval do Estado permite que a TACV aceda a taxas de juro muito mais baixas do que conseguiria por conta própria, dada a sua atual situação financeira, reduzindo assim o custo total da dívida.
3. O equilíbrio entre risco e benefício estratégico
Um olhar equilibrado sobre esta medida revela dois lados distintos:
- A Perspetiva do risco: Ao atuar como fiador, o Estado aumenta o seu passivo contingente. Se a rentabilidade da empresa não crescer conforme o esperado, o esforço financeiro poderá recair sobre o Orçamento do Estado, desviando recursos de outras áreas sociais.
- O Benefício estratégico: Por outro lado, a TACV é um pilar da conectividade de Cabo Verde. A sua sobrevivência garante a ligação com a nossa diáspora, promove o turismo e assegura a soberania aérea do país. O custo de “deixar cair” a companhia poderia ser dramaticamente superior ao valor das garantias agora concedidas, devido ao impacto negativo no PIB e no emprego.
4. Transparência e eficiência: O próximo passo
Para que este suporte sirva o seu propósito final, a gestão da TACV deve focar-se na eficiência operacional. A integração de novas aeronaves mais económicas e a otimização das rotas transatlânticas são passos cruciais para que, no futuro, a companhia possa obter crédito no mercado financeiro sem necessitar da assinatura do Estado.
Conclusão
Em suma, a garantia estatal é uma ferramenta de estabilização que permite à TACV continuar a voar enquanto tenta recuperar a sua autonomia financeira. Trata-se de um voto de confiança no plano de retoma da empresa, que exige agora um acompanhamento rigoroso e uma execução impecável para proteger os interesses de todos os contribuintes cabo-verdianos.
Caboverde24.info
Fonte: Boletim Oficial (B.O.) da República de Cabo Verde





































