Queda na produção de milho: Safra de 2025 regista recuo de quase 40% face à média dos últimos cinco anos

“Dados do ano agrícola 2025/2026 confirmam a vulnerabilidade do arquipélago às irregularidades pluviométricas, acendendo o alerta para a segurança alimentar de milhares de famílias nas zonas rurais”

A campanha agrícola de 2025 em Cabo Verde encerrou com números que exigem uma reflexão profunda e uma ação governamental imediata. Os dados mais recentes de balanço do ano agrícola confirmam que a produção de milho, o cereal que constitui a base histórica da dieta cabo-verdiana, ficou quase 40% abaixo da média registada no último quinquénio. Este declínio acentuado interrompe a recuperação que se observava em 2024 e volta a colocar a escassez hídrica e a resiliência climática no centro do debate nacional.

Enquanto algumas zonas altas de Santiago (como as encostas da Serra Malagueta) e áreas específicas da ilha do Fogo conseguiram manter níveis aceitáveis de produtividade, a generalidade do país — especialmente as vastas zonas de sequeiro no litoral e nas ilhas mais áridas — enfrentou um cenário adverso, resultando numa colheita estimada em pouco mais de 1.100 toneladas a nível nacional.

O balanço de uma safra “menos boa”

​A expectativa inicial para 2025 era de manutenção dos ganhos agrícolas, mas a realidade climática impôs a sua lei. Ao contrário do ano anterior, onde a distribuição das chuvas foi mais generosa e regular, 2025 caracterizou-se por uma pluviometria errática. As primeiras chuvas, conhecidas como “as águas de semear”, caíram com intensidade suficiente para animar os agricultores a lançar as sementes à terra. Contudo, a continuidade necessária durante as fases críticas de floração e enchimento do grão não se verificou em muitos concelhos.

​Esta quebra de quase 40% em relação à média dos últimos cinco anos não é apenas uma estatística fria; traduz-se visualmente em espigas vazias e, economicamente, em armazéns familiares com stocks drasticamente reduzidos para os meses de “azágua”. A situação é particularmente crítica nas ilhas onde a orografia não permite a retenção de humidade e onde a agricultura de sequeiro é, ainda hoje, a única fonte de subsistência de centenas de agregados familiares.

​Fatores climáticos e a pressão das pragas

​O principal fator para esta quebra produtiva continua a ser a irregularidade temporal das chuvas, um fenómeno exacerbado pelas mudanças climáticas que afetam desproporcionalmente os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS). Em 2025, registaram-se longos períodos de estio intercalados com precipitação que, em alguns casos, chegou tarde demais para recuperar as culturas de ciclo mais longo, como é o caso do milho tradicional.

​Além do clima, fatores biológicos persistentes continuam a desafiar a produção nacional. A presença da lagarta-do-cartucho do milho (Spodoptera frugiperda) continua a ser uma dor de cabeça para os produtores. Embora o Ministério da Agricultura e Ambiente (MAA) tenha mantido ativos os seus programas de controlo biológico e distribuição de iscos, o stress hídrico sofrido pelas plantas tornou-as naturalmente mais vulneráveis a estes ataques. Uma planta com sede é uma planta com defesas baixas, criando o que os técnicos descrevem como uma “tempestade perfeita” para a redução do rendimento final por hectare.

Tabela: Comparativo estimado da produção de milho (2025 vs Contexto Recente)

Impacto na economia rural e pecuária

​A quebra na produção de milho gera um efeito dominó imediato na frágil economia rural cabo-verdiana. O primeiro impacto é sentido na segurança alimentar das famílias, que se veem obrigadas a recorrer muito mais cedo ao mercado retalhista para adquirir o milho, o feijão e outros produtos que, em anos de “boas águas”, colheriam das suas próprias parcelas. Isso aumenta significativamente a pressão sobre o rendimento familiar disponível, num contexto global onde os preços dos bens alimentares importados permanecem voláteis.

​O segundo grande impacto, e talvez o mais preocupante a médio prazo, recai sobre a pecuária. Em Cabo Verde, o milho tem uma dupla função: é alimento humano (o grão) e animal (a palha e o resto da planta). Com menos biomassa produzida, o preço da forragem no mercado informal tende a disparar. Muitos criadores poderão enfrentar dificuldades severas para manter os seus efetivos animais (cabras e vacas) até às próximas chuvas, correndo o risco de repetir ciclos de venda forçada de gado a baixo preço ou, em casos extremos, a perda de animais por subnutrição.

​Caminhos para a resiliência

​Perante este cenário, a resposta das autoridades e dos parceiros internacionais (como a FAO) tem-se focado na mitigação e adaptação. Programas de criação de emprego público para as famílias mais afetadas nas zonas rurais e o reforço da mobilização de água para rega — através da dessalinização e reutilização segura de águas residuais — tornam-se imperativos nacionais. O MAA tem sinalizado a intenção de acelerar a transição da agricultura de sequeiro para uma agricultura irrigada gota-a-gota, mais tecnológica e menos dependente dos caprichos das nuvens. Contudo, 2025 provou que essa transição é um processo de longo curso e que a dependência da chuva ainda dita a sorte de grande parte do mundo rural.

Caboverde24.info

Fonte primária: Relatórios do Sistema Global de Informação e Alerta Agrícola (GIEWS/FAO) e dados de balanço da campanha agrícola do Ministério da Agricultura e Ambiente (MAA), janeiro de 2026.

Nota Editorial: Os dados percentuais apresentados referem-se a estimativas comparativas com a média dos últimos cinco anos. É importante notar que, se comparada exclusivamente com o ano excecional de 2024, a quebra percentual seria superior, mas a comparação quinquenal oferece uma visão mais estrutural da tendência agrícola.

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Uma resposta

  1. A baixa produção do milho não implica necessariamente insegurança alimentar, tendo em conta a sua utilização atual pelas comunidades. Se outrora este cereal era a base da alimentação caboverdiana, não é mais! Às chuvas que caíram fora da época (novembro), permitiram uma forte recarga dos aquíferos, o que vai permitir a disponibilidade de água para o cultivo de hortaliças , legumes, cereais ( milho inclusivo), de modo que os 4 pilares da segurança alimentar e nutricional estarão bem assegurados

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