“A desorganização da cadeia de abastecimento e a falta de planeamento das empresas nacionais pesam mais no bolso dos cabo-verdianos do que a própria insularidade”
Historicamente, os cabo-verdianos habituaram-se a ouvir a mesma explicação para o elevado custo de vida: “viver em ilhas é caro”. No entanto, uma análise técnica recente publicada pela Supply Chain Magazine desafia este refrão. Embora a geografia imponha desafios, a desorganização interna das empresas e a gestão ineficiente da cadeia de abastecimento (GCA) surgem como os verdadeiros vilões que encarecem os produtos desde o porto até à prateleira.
O mito da insularidade como único culpado
A ideia de que estamos isolados do mundo logístico já não se sustenta. Cabo Verde goza de uma conectividade marítima regular, com operadores como o Grupo Sousa (GS Line), o Grupo ETE (Transinsular), a Boluda Lines e a Atlantic Shipping a garantir fluxos previsíveis entre a Europa, os EUA e o arquipélago. O problema crítico reside no que acontece antes da carga e após o desembaraço aduaneiro. Muitas empresas operam ainda numa lógica de reação e improviso, realizando compras sem planeamento da procura e importações sem consolidação de cargas.
O impacto no bolso das famílias
Estima-se que os custos logísticos possam representar até 40% do preço final de bens essenciais em Cabo Verde. Esta inflação interna não se deve apenas ao frete, mas a navios fora de programação, falta de coordenação inter-ilhas e armazenagem ineficiente. Quando uma empresa não gere bem os seus fluxos ou falha pagamentos a fornecedores — o que leva ao aumento de preços e redução de crédito —, quem acaba por pagar a conta é o consumidor final.
A urgência da profissionalização
A transformação do setor exige um novo mindset empresarial. É fundamental que as empresas cabo-verdianas adotem ferramentas de digitalização (como sistemas ERP e WMS), implementem departamentos de logística estruturados e baseiem as suas decisões em dados. O cumprimento de prazos com fornecedores deve ser visto como uma ferramenta logística estratégica para garantir melhores preços e estabilidade operacional, evitando que a própria empresa crie o custo de que depois reclama.
Quem é Samuel Fortes Júnior?
Samuel Fortes Júnior é consultor especializado em logística e gestão da cadeia de abastecimento. Além da sua atuação no setor privado, é docente universitário e formador, dedicando-se à análise e capacitação de quadros para a melhoria da competitividade operacional e eficiência económica em Cabo Verde.
Mudar a rota para garantir o futuro
A logística eficiente não é uma questão de sorte, mas de processos bem desenhados. Enquanto a gestão da cadeia de abastecimento não for tratada como uma função estratégica nacional — tanto dentro das empresas como ao nível do Governo —, continuaremos a discutir apenas os sintomas da inflação e não a doença da ineficiência.
Va-se recordando que, apesar da conectividade marítima regular que liga o país aos principais mercados mundiais, a falta de planeamento interno e a gestão reativa continuam a ser os principais entraves à redução do custo de vida no arquipélago.
Caboverde24.info
Fonte primária: Supply Chain Magazine (Artigo de Samuel Fortes Júnior, fevereiro de 2026)
Nota Editorial: As análises publicadas representam a visão técnica do especialista citado e visam informar o leitor sobre os desafios do setor logístico nacional.





































