Um atum marcado em Cabo Verde há dez anos reaparece no Atlântico equatorial: o que nos diz esta descoberta?

“A recaptura de um atum-olho-grande marcado há cerca de uma década nas águas cabo-verdianas por um barco galego no Atlântico equatorial é considerada um evento científico sem precedentes, com implicações diretas para a gestão sustentável da pesca no arquipélago”

Uma viagem de dez anos pelo Atlântico
No mundo da biologia marinha, há acontecimentos que a ciência classifica como raros e outros como históricos. A recaptura de um atum-olho-grande (Thunnus obesus) marcado há cerca de dez anos em Cabo Verde por uma embarcação galega que operava na zona equatorial do Atlântico pertence, sem dúvida, à segunda categoria.
Um atum-olho-grande marcado há quase uma década nas águas de Cabo Verde foi recapturado no Atlântico equatorial, revelando muito mais do que um simples feito científico. (oantagonista) Para os especialistas, trata-se de um avanço estratégico para a compreensão das rotas migratórias de uma das espécies mais valiosas do oceano.

O programa por detrás da marcação: AOTTP e o papel de Cabo Verde

A marcação deste exemplar não foi fruto do acaso. O Programa de Marcação de Atuns Tropicais no Oceano Atlântico (AOTTP), implementado pela ICCAT, teve Cabo Verde como um dos países focais, juntamente com o Gana, a Costa do Marfim, o Senegal, a África do Sul, a Venezuela, o Brasil, as Ilhas Canárias, os Açores e os EUA. 
Em Cabo Verde, o parceiro institucional do programa era o Instituto Nacional de Desenvolvimento das Pescas (INDP), com sede em São Vicente. (Iccat) A técnica baseia-se em etiquetas convencionais colocadas nos peixes durante operações de captura e libertação, permitindo que, quando recapturado anos depois, os dados sejam reportados e analisados cientificamente.
O programa AOTTP foi lançado em dezembro de 2015, implementado pela ICCAT e financiado pela União Europeia e outros países contratantes, com a coordenação técnica para o Atlântico oriental a cargo do centro de inovação marinha basco AZTI. 

Dos cerca de 8.000 atuns-olho-grande marcados no Atlântico tropical ao longo de décadas de investigação, apenas 587 foram recapturados, o que corresponde a uma taxa de 7,5%. Quase todas as recapturas ocorreram no Atlântico tropical ou equatorial, com deslocamentos rápidos e de longa distância — até 2.000 quilómetros em dois anos. (FAO) Uma recaptura após dez anos está muito além da média histórica, tornando este caso verdadeiramente excecional.

O que este atum percorreu e o que isso significa para Cabo Verde

O atum-olho-grande distribui-se pelo Atlântico entre os 50° Norte e os 45° Sul, não estando presente no Mediterrâneo. Esta espécie mergulha mais fundo do que outros atuns tropicais e realiza movimentos verticais extensos. As evidências disponíveis, incluindo os dados do AOTTP, sugerem que existe um único stock em todo o Atlântico. 
Para Cabo Verde, este facto tem implicações diretas: as populações de atum que atravessam as suas águas exclusivas fazem parte de um ecossistema partilhado com toda a bacia atlântica. A gestão deste recurso depende de decisões internacionais — e de dados como os que este exemplar acabou de fornecer.

Cabo Verde, as pescas e a cooperação científica internacional

Cabo Verde participa ativamente na ICCAT e tem acompanhado as suas reuniões, onde foram adotadas medidas que restringem a pesca de atum-olho-grande juvenil e limitam as atividades em torno dos dispositivos agregadores de peixe (DCP).
Este caso reforça a importância de o arquipélago manter presença ativa nos fóruns internacionais de gestão das pescas. Os dados gerados por marcações nas suas águas servem de base científica para decisões que afetam diretamente as quotas, os períodos de defeso e o futuro das comunidades piscatórias locais.
O objetivo central do programa de marcação é compreender as rotas migratórias e o uso do habitat por parte destas espécies, melhorando a avaliação e a gestão das pescarias tropicais para promover sistemas ecológicos e económicos estáveis e sustentáveis. 

Uma janela científica aberta por uma rede galega

A história deste atum — marcado provavelmente por investigadores ou pescadores parceiros do INDP nas águas de Cabo Verde, e recapturado uma década depois por uma embarcação galega no equador atlântico — é, acima de tudo, um lembrete do quanto ainda há por descobrir sobre os oceanos.
As operações de marcação do AOTTP iniciadas em 2016 já geraram mais de 15.000 recuperações de marcas, com cobertura que vai dos Açores ao Uruguai e da África do Sul à costa leste dos EUA. (Iccat) Um exemplar que passa dez anos no oceano antes de ser recapturado entra para os registos como um dado sem paralelo — e para a ciência das pescas vale mais do que mil capturas comuns.

Caboverde24.info

Fonte: ICCAT/AOTTP — International Commission for the Conservation of Atlantic Tunas

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