O episódio surge num momento em que o país regista uma queda de dez posições no ranking mundial da liberdade de imprensa, levantando questões sobre formação, independência editorial e os padrões exigidos aos profissionais da comunicação social”
Um post que gerou reações
Uma publicação recente nas redes sociais, especificamente partilhada na página oficial da Rádio Televisão Cabo-verdiana (RTC), reacendeu com força o debate público sobre os padrões de qualidade e exigência do jornalismo em Cabo Verde. O texto de opinião, de forte cariz reflexivo, partia de uma premissa conceptual simples: cada artigo escrito por um profissional da informação constitui uma avaliação exclusiva do seu real grau de evolução técnica, profissional e ética.
O autor da reflexão — Francisco Carvalho, atual chefe do executivo governamental cabo-verdiano — estabeleceu um claro contraste analítico entre dois modelos distintos de percurso jornalístico. Como referência positiva e de mérito, citou dois nomes amplamente consagrados do jornalismo televisivo português: José Rodrigues dos Santos, pivot da RTP, e Rodrigo Guedes de Carvalho, pivot da SIC. Em contraponto, sem contudo identificar qualquer profissional pelo nome próprio, criticou quem, depois de somar quase quatro décadas de carreira ativa no setor, “tudo o que consegue fazer é produzir uma reportagem a mentir e a deturpar”, num comportamento deontológico que fez questão de classificar como revelador de “nenhuma evolução técnica, profissional, ou pior ainda, ética e moral”.
Quem são as referências citadas?
José Rodrigues dos Santos é jornalista, romancista de sucesso e professor universitário, apresentando o Telejornal da RTP1 de forma ininterrupta desde o ano de 1991. Assume-se como um dos mais premiados jornalistas portugueses da atualidade, tendo sido galardoado com o prestigiado Grande Prémio de Jornalismo em 1994 e com três distinções internacionais da cadeia americana CNN, incluindo o cobiçado Contributor Achievement Award no ano de 2000 — galardão considerado pelos analistas do setor como o equivalente ao prémio Pulitzer no jornalismo televisivo mundial.
Para lá da sua intensa atividade no jornalismo diário, tornou-se um autor de romances ficcionais de grande sucesso comercial e docente na Universidade Nova de Lisboa — um percurso profissional multidimensional que o texto do primeiro-ministro invocou diretamente como um modelo a seguir de evolução profissional.
O ranking da imprensa e o contexto cabo-verdiano
Este episódio mediático surge num momento político e social particularmente delicado para todo o ecossistema dos media no arquipélago. Cabo Verde registou uma queda de dez lugares no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2026, anualmente divulgado pela prestigiada organização internacional Repórteres Sem Fronteiras (RSF), transitando da 30.ª posição ocupada em 2025 para o 40.º lugar da tabela geral entre 180 países avaliados, com a pontuação global do país a descer de 74,98 para 71,98 pontos.
O relatório oficial da organização RSF não se esgota na mera exposição estatística das posições. A organização internacional aponta de forma direta que, embora exista formalmente um conselho independente para nomear os gestores e responsáveis editoriais da RTC desde o ano de 2019, na prática quotidiana as suas decisões administrativas tendem a coincidir com as orientações do poder político vigente, e os órgãos do audiovisual público privilegiam frequentemente a cobertura editorial das iniciativas e agendas governamentais. O relatório assinala ainda que a autocensura nas redações é uma realidade presente no país, e que Cabo Verde mantém uma forte cultura institucional de sigilo, com restrições práticas ao livre acesso a informações oficiais de manifesto interesse público.
O mesmo documento sublinha que, apesar da sua reduzida dimensão demográfica, Cabo Verde possui um cenário mediático relativamente diversificado, contando com cinco canais de televisão abertos, mais de 20 estações de rádio locais e vários órgãos de imprensa escrita e plataformas digitais de informação. No entanto, a complexa geografia arquipelágica continua a erguer-se como um obstáculo técnico à distribuição equitativa dos conteúdos informativos por todas as ilhas do território nacional.
A formação como chave
O debate estrutural sobre a qualidade e o rigor do jornalismo em Cabo Verde não constitui uma novidade nos meandros do setor. A Associação da Imprensa Privada em Cabo Verde (AIPCV) já havia alertado publicamente que o maior desafio estrutural do setor passa obrigatoriamente pela sobrevivência financeira dos órgãos de comunicação social independentes e pela garantia absoluta de um jornalismo de qualidade, livre e totalmente independente de poderes, apontando a crónica dificuldade de acesso direto às fontes oficiais e a regulação assimétrica do mercado publicitário como obstáculos persistentes no terreno.
A mesma associação setorial denunciou em comunicados que os órgãos de comunicação privados vivem num asfixiante contexto de pressão financeira e fiscal que acaba por afetar diretamente o livre desempenho jornalístico nas redações, impedindo as empresas de contratar com regularidade jornalistas devidamente formados, especializados e experientes — limitando, por consequência direta, a capacidade das equipas para realizar jornalismo de investigação de elevada qualidade.
Entre a crítica e a responsabilidade pública
O fator que torna este episódio digno de uma análise ponderada é menos o alvo implícito ou a identidade da crítica — que permanece deliberadamente não identificada no post — e mais o contexto político em que a mensagem é difundida: uma publicação assinada por uma figura pública de primeiro plano do Estado, inserida na página de um órgão de comunicação social de capitais públicos, num preciso momento em que todos os indicadores internacionais apontam fragilidades na independência real dos media cabo-verdianos frente ao poder político.
No quadro de um Estado de Direito e em plena democracia, qualquer cidadão detém o direito constitucional de opinar livremente sobre a qualidade e o desempenho do jornalismo. A grande questão que se coloca aos analistas prende-se com a forma como esse debate crucial pode ser conduzido de modo construtivo pelas lideranças, sem fragilizar a independência editorial das redações e sem criar um ambiente de crispação ou tensão institucional entre o poder político e os profissionais da informação.
Recordamos que…
O debate em torno do desempenho da comunicação social cabo-verdiana adquire uma nova centralidade neste mês de junho de 2026, após uma tomada de posição pública do Primeiro-ministro Francisco Carvalho nas redes sociais ligadas à RTC. O caso coincide com o relatório da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), que ditou a perda de dez posições do país no ranking mundial da liberdade de imprensa de 2026, fixando Cabo Verde na 40.ª posição com uma nota de 71,98 pontos, num percurso histórico onde o arquipélago preserva, desde a abertura democrática de 1991, o valor de não registar detenções de jornalistas no exercício das suas funções.
Caboverde24.info
Fonte: Análise editorial — Caboverde24.info



































