Entre Nós: “Ele voltou, mas eu já não sei se consigo voltar”

“Uma mulher de São Vicente conta como viveu durante anos com os dois filhos enquanto o companheiro estava na Europa

Entre as cartas que recebemos, esta chamou a nossa atenção

​Entre as muitas cartas que chegam à nossa redação, escolhemos esta história porque coloca uma questão que atravessa muitas famílias cabo-verdianas: o que acontece quando alguém parte para a Europa em busca de uma vida melhor e, anos depois, regressa para uma família que entretanto mudou?

​A autora da carta é de São Vicente. Para preservar a sua identidade, a redação decidiu chamá-la de Marta, nome fictício. Alguns elementos da história foram adaptados para proteger a privacidade da autora e das pessoas envolvidas.

“Quando ele partiu, disse-me que seria por pouco tempo”

​Marta conta que quando o companheiro decidiu viajar para a Europa, os dois tinham uma vida familiar já construída e dois filhos pequenos.

“Ele disse-me que ia trabalhar, juntar algum dinheiro e depois voltar. Eu acreditei. Naquele momento, pensava que seria apenas uma separação temporária. Sta quindí pa nos, dizia ele.”

​Os primeiros tempos foram marcados por telefonemas e promessas. “Ele ligava quase todos os dias. Dizia que sentia saudades dos filhos e que tudo aquilo era para nós.”

​Mas o tempo passou. Primeiro foram alguns meses. Depois um ano. Depois outro. E aquilo que deveria ser uma separação temporária começou a transformar-se numa nova forma de vida.

“Fiquei eu, os dois filhos e todas as responsabilidades”

​Enquanto o companheiro estava na Europa, Marta ficou em São Vicente com os dois filhos.

“Quando uma criança ficava doente, era eu. Quando havia problemas na escola, era eu. Quando faltava dinheiro, era eu que tinha de encontrar uma solução.”

​Aos poucos, deixou de esperar que alguém viesse ajudá-la. “Eu aprendi a resolver tudo sozinha. Kil mudjer é duradu, como dizem na minha ilha.”

​Foi também nesse período que percebeu que estava a mudar. “Eu ainda esperava pelo dia em que ele volaria. Mas já não era a mesma mulher que ele tinha deixado.”

​A vida continuou. Os filhos cresceram. As responsabilidades aumentaram. E Marta aprendeu a viver sem a presença diária do companheiro.

“Ele voltou, mas eu já não sei se consigo voltar”

​Foi recentemente que o homem regressou a Cabo Verde e trouxe consigo uma vontade que deixou Marta dividida.

“Ele disse-me: ‘Quero a minha família de volta. Quero voltar para casa.'”

​As palavras que durante anos ela desejou ouvir agora provocaram sentimentos diferentes. “Eu pensei muitas vezes que, quando ele voltasse, seria feliz. Mas quando ele realmente voltou, percebi que tenho medo.”

​Medo de voltar a confiar. Medo de acreditar novamente. E medo de que tudo possa voltar a acontecer. “Eu não quero passar outra vez pelos mesmos anos de solidão. Solidão di lonj, aquela que dói sem gritar.”

“Ele diz que agora tudo vai ser diferente”

​O companheiro garante que os anos na Europa lhe fizeram perceber aquilo que realmente importa. “Ele diz que está cansado de estar longe e que quer acompanhar os filhos enquanto ainda pode.”

​Marta quer acreditar nas palavras dele. Mas já não consegue viver apenas de promessas. “Eu preciso de ver. Preciso de sentir que desta vez ele realmente quer estar presente.”

​Para ela, o problema não é simplesmente decidir se ainda gosta dele. “Eu não posso dizer que deixei de gostar. Ele é o pai dos meus filhos e foi uma pessoa muito importante para mim.”

​O problema é outro. “Não sei se ainda consigo confiar nele como antes.”

“Os meus filhos cresceram sem o pai dentro de casa”

​Marta também pensa nos dois filhos. Eles cresceram vendo o pai sobretudo através de telefonemas, mensagens e visitas ocasionais.

“Eu nunca falei mal do pai deles. Sempre disse que ele estava longe porque precisava trabalhar.”

​Mas reconhece que a ausência deixou marcas. “Agora eles gostam dele, mas também estão habituados à nossa vida sem ele.”

​É por isso que Marta não quer tomar uma decisão precipitada. “Não quero que os meus filhos pensem que finalmente têm o pai em casa e depois tenham de passar por outra separação.”

“Ele quer voltar para a família que deixou. Mas eu também mudei”

​Talvez esta seja a parte mais difícil da história. Marta acredita que o companheiro regressou pensando que encontraria a mesma mulher que deixou em São Vicente.

​Mas ela diz que já não é essa mulher. “Ele partiu e eu fiquei. Durante todos estes anos, nós dois vivemos realidades diferentes.”

​Ela resume assim aquilo que sente: “Eu esperei pelo homem que partiu. Agora voltou outro homem, e eu também sou outra mulher.”

​É por isso que, apesar de ainda existir sentimento, Marta não quer simplesmente abrir a porta e fingir que nada aconteceu. “Não podemos apagar os anos que passámos separados.”

​🟣 RESPOSTA DA DIREÇÃO

Marta, antes de mais, agradecemos a confiança em escrever-nos e partilhar uma história tão pessoal.

​O seu companheiro voltou. Isso é um facto importante. Mas o regresso dele não obriga a que tudo volte a ser como antes.

​Durante os anos em que esteve ausente, você também construiu uma vida. Criou os seus filhos, enfrentou dificuldades, tomou decisões e aprendeu a resolver problemas sozinha. Por isso, não deve sentir-se culpada por ter dúvidas.

​Não precisa de decidir tudo agora. Se ainda existe sentimento, talvez valha a pena conversar. Mas conversar não significa necessariamente voltar imediatamente a viver juntos. Pode existir um período de aproximação. Pode existir uma tentativa de reconstruir a confiança. Podem haver conversas que ficaram por ter. E, sobretudo, pode haver tempo para perceber se as palavras dele correspondem realmente a uma mudança de comportamento.

​Não olhe apenas para aquilo que ele promete. Observe aquilo que ele faz.

​E os filhos? Também acreditamos que os filhos devem ser protegidos de decisões precipitadas. Eles precisam do pai, mas também precisam de estabilidade. Uma família não é necessariamente uma casa onde duas pessoas vivem juntas. Uma família também é feita de respeito, responsabilidade, presença e segurança emocional.

​Marta, dê-se tempo. Talvez a resposta não seja “sim“. Talvez também não seja “não“. Pode ser simplesmente: Ainda não sei.” E essa também é uma resposta legítima.

​Você não precisa decidir o futuro de uma relação numa semana. Se o amor ainda existe, o tempo poderá ajudar a perceber se existe também vontade, confiança e capacidade para reconstruir. E se, depois de tentar, perceber que a relação já não pode ser recuperada, isso também não significa que tenha fracassado.

​Significa apenas que algumas histórias mudam de forma ao longo da vida.

​✉️ TEM UMA HISTÓRIA PARA CONTAR?

Há histórias que guardamos durante anos porque não sabemos com quem falar. Há decisões que parecem impossíveis quando estamos sozinhos. Há dúvidas que gostaríamos de colocar diante de alguém sem medo de sermos julgados.

​A rubrica Entre Nós existe precisamente para isso.

​Se tem uma história, um problema familiar, uma dificuldade no relacionamento, uma situação relacionada com a diáspora, uma traição, uma separação, uma dificuldade económica, uma preocupação ou simplesmente algo que precisa de desabafar, pode escrever-nos.

​A sua identidade será mantida em anonimato total. O nome utilizado na publicação será sempre um pseudónimo, e os detalhes que possam permitir identificar a pessoa poderão ser adaptados pela redação.

Escreva-nos. Talvez a sua história possa ajudar também alguém que está a viver uma situação semelhante.

​🟣 Entre Nós — porque algumas histórias só precisam de alguém que as escute.

Caboverde24.info — Redação

Quer fazer parte deste blog?

Partilhe conosco as suas ideias e experiências!

  • Sugira temas que gostaria de ver aqui publicados.
  • Conte-nos uma história ou experiência de vida que o tenha marcado.
  • Envie fotografias da sua cidade ou da sua comunidade.
  • Divulgue eventos próximos de si e todas as informações que considere importantes para enriquecer a nossa comunidade cabo-verdiana.

A sua participação é essencial para que este espaço seja cada vez mais vivo, útil e próximo de todos nós.
info@caboverde24.com

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *