Rubrica Entre Nós

Consegui a promoção que sempre sonhei, mas agora minha mãe precisa de mim

“O conflito entre a realização profissional na diáspora e o peso da responsabilidade familiar”

Entre as cartas que recebemos esta semana, uma tocou-nos profundamente. Fernanda, uma leitora emigrada em Lisboa há 8 anos, escreve-nos sobre um dilema que afeta milhares de cabo-verdianos na diáspora: o conflito entre o sucesso pessoal e a responsabilidade familiar. Numa semana recebe a promoção que conquistou com 8 anos de esforço. Na mesma semana, a sua mãe adoece e o seu irmão perde o emprego. Como celebrar quando tudo desaba noutra ponta do mundo? Eis a história.

​A Carta

​Caro Caboverde24.info,

​Chamo-me Fernanda e escrevo-vos de Lisboa, onde vivo há 8 anos. Preciso de partilhar algo que me está a consumir — algo que acho que muita gente da nossa diáspora entende, mas ninguém fala.

​Na terça-feira, recebi um email do meu diretor confirmando a minha promoção. Foram 8 anos de horas extras, projetos, noites mal dormidas. Finalmente tinha chegado. Abri uma garrafa de espumante com uma amiga, e por algumas horas respirei diferente. Pensei: “Consegui. Agora posso descansar um pouco.”

​Na quinta-feira, a minha mãe ligou. Disse-me assim, de repente, em crioulo: “Tua mai ta ma. Teu irmão djuda ku nada.” — Tua mãe está mal. Teu irmão não consegue nada. Desemprego. Doença. Contas atrasadas. Tudo ao mesmo tempo.

​A garrafa ainda está na minha cozinha, meia-cheia.

​Há algo que ninguém explica quando emigras do nosso país: tu ganhas uma vida, mas não podes desistir da outra. A minha mãe não festejou a minha promoção. Ela estava realmente assustada. O meu irmão mandava mensagens desesperadas: “Irmã, as miúdas precisam de ir à escola e não tenho dinheiro. Só tu podes ajudar.”

​Percebi que conseguir esta promoção não é um fim. É um começo de um conflito que nenhuma entrevista me preparou para viver.

​Durante 8 anos, fui a esperança. A que emigrou e conseguiu. A que envia dinheiro. A que tem estabilidade. Mas nestes dias estou a questionar coisas que não deveria questionar: será que tenho o direito de celebrar sucesso sozinha? Será que devo recusar a promoção? Será que devo voltar para Praia?

​Mas voltar é também uma renúncia — renúncia aos 8 anos que investi, aos sacrifícios, à estabilidade que consegui construir lentamente.

​Há centenas de pessoas como eu, espalhadas pela Europa, Brasil, América. Temos carreiras, temos sucesso, temos casas bonitas. Mas temos famílias que sofrem, mães que envelhecem longe, irmãos que perdem empregos, e uma culpa que não cabe em nenhum salário do mundo.

​Gostaria de ouvir outras histórias. Gostaria de saber como outras pessoas resolvem isto — ou se simplesmente aprendemos a viver divididas, celebrando sozinhas, chorando sozinhas, carregando este peso sozinhas.

​Um abraço,

​Fernanda (nome alterado)

​Resposta da Redação

​Cara Fernanda,

​A tua carta toca num dos dilemas mais profundos e menos falados da emigração cabo-verdiana — aquele que ninguém te avisa quando compras a passagem aérea. Emigrar não é apenas mudar de país. É tornar-te ponte entre dois mundos que puxam em direções opostas.

​O que Fernanda descreve pode ser reflexo das fortes responsabilidades familiares que muitas famílias cabo-verdianas vivem no contexto da emigração. Quando alguém da família emigra com sucesso, automaticamente passa a ser a “esperança” — aquela que agora tem a responsabilidade de suportar todos os outros. Uma promoção que deveria ser celebração torna-se peso. Um salário melhor torna-se obrigação. A vida que conseguiste construir torna-se culpa.

​Isto não é fraqueza emocional. É a complexidade real de viver nesta posição.

​A questão que Fernanda coloca no final é a mais importante: “aprendemos a viver divididas?” A resposta é: sim, mas não sozinhas. Há milhares como ela — e como tu, leitor que está a ler isto agora — que vivem este conflito diariamente.

​Fernanda não precisa de escolher entre carreira e família. Precisa também de se permitir reconhecer que ambas são legítimas, e que nenhuma deve sacrificar a outra completamente. Merecia espaço para celebrar, e merecia também apoio quando tudo desaba.

Caboverde24.info — Entre Nós

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  • ​A tua história

​As melhores contribuições serão publicadas aqui, todas as domingos. Não estás sozinho nisto. Há milhares de cabo-verdianos na diáspora — e em Cabo Verde — que vivem histórias como a tua. É hora de as contar.

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