“Uma nova análise coloca Cabo Verde acima de grande parte da África Subsaariana em profundidade financeira. Mas ter mais crédito não significa necessariamente ter uma economia mais produtiva.”
Em 30 segundos
💰 O crédito total do sistema financeiro equivalia a cerca de 70% do PIB em 2024, segundo uma análise publicada esta semana.
🏢 Empresas continuam a absorver uma parte importante dos empréstimos, sobretudo em turismo, comércio, construção e serviços.
🏠 O financiamento da habitação tem também um peso elevado no sistema bancário.
📈 O grande desafio poderá estar menos em emprestar mais e mais em direcionar o dinheiro para atividades capazes de gerar produtividade, empresas e emprego.
Um volume de crédito já elevado para a dimensão da economia
Quanto dinheiro os bancos emprestam em Cabo Verde quando comparado com tudo aquilo que a economia produz num ano?
A resposta ajuda a perceber a dimensão que o sistema financeiro já atingiu.
Uma análise publicada esta semana pela revista internacional especializada International Banker estima que, em 2024, o crédito total concedido pelo sistema financeiro cabo-verdiano correspondia a aproximadamente 70% do Produto Interno Bruto.
Quando se considera apenas o crédito destinado ao setor privado, o rácio situava-se entre 53% e 55% do PIB.
Isto coloca Cabo Verde numa posição relativamente elevada em comparação com numerosos países da África Subsaariana, onde o crédito privado frequentemente permanece abaixo dos 30% a 40% do PIB.
Bancos financiam sobretudo a economia que já existe
Mas tão importante quanto saber quanto dinheiro é emprestado é perceber para onde esse dinheiro vai.
A análise, assinada por Carlitos Fortes, administrador do Banco Caboverdiano de Negócios, estima que aproximadamente metade do financiamento está associada às empresas.
Dentro desse grupo, destacam-se atividades ligadas ao turismo, comércio, construção e serviços.
Não é uma distribuição surpreendente. São precisamente alguns dos setores com maior peso na economia cabo-verdiana e, consequentemente, aqueles que tendem a procurar mais financiamento bancário.
O problema é que essa concentração também significa que o crédito reproduz, em grande medida, a própria concentração da economia.
A casa continua a absorver uma fatia importante
A habitação constitui outra grande utilização do crédito bancário.
Dados publicados pelo próprio Banco de Cabo Verde indicam que, em 2024, o crédito às famílias destinado à habitação representava cerca de 32% do crédito concedido ao setor privado.
Já o crédito ao consumo representava aproximadamente 13%.
O financiamento da casa própria tem normalmente prazos longos e está associado a um ativo imobiliário, o que o torna diferente do crédito destinado ao consumo imediato.
Mas o seu peso elevado mostra também quanto do dinheiro disponível no sistema financeiro está ligado ao imobiliário, em vez de ser diretamente canalizado para novas atividades produtivas.
Crédito continua a crescer
A tendência não terminou em 2024.
O Banco de Cabo Verde registou naquele ano um crescimento de 6,7% do crédito ao setor privado, acima dos 5,3% observados em 2023.
E os dados já relativos a 2026 indicavam que o crédito privado continuava a aumentar. Em janeiro, o crescimento homólogo era de 5,2%, movimento que o banco central associava a uma maior procura tanto por empresas como por particulares.
Ou seja: o sistema continua a colocar mais dinheiro na economia.
A questão passa a ser saber se esse crescimento está também a ajudar a transformar a estrutura produtiva do país.
Mais crédito nem sempre significa mais desenvolvimento
É aqui que surge a principal conclusão da análise publicada pelo International Banker.
Para uma pequena economia insular como Cabo Verde, mais crédito não significa automaticamente melhor desempenho económico.
Uma expansão excessiva pode aumentar o endividamento das famílias e das empresas, alimentar pressões no mercado imobiliário e aumentar os riscos para os bancos.
A dimensão do mercado cabo-verdiano, a dependência do turismo e a exposição a choques externos obrigam, por isso, a algum equilíbrio.
Segundo a análise, o nível atual de crédito é, no conjunto, compatível com a estrutura económica do país.
O desafio: financiar novos motores da economia
A questão passa então de “quanto emprestar?” para “o que financiar?”.
Entre as áreas com potencial para receber maior atenção estão os serviços destinados à exportação, a economia azul, as energias renováveis e outras atividades capazes de diversificar a economia.
Existe também o desafio das pequenas e médias empresas, muitas das quais continuam a encontrar dificuldades para apresentar garantias suficientes ou cumprir os requisitos bancários tradicionais.
Mecanismos de garantia, melhor informação financeira das empresas e maior formalização podem ajudar a reduzir essas barreiras.
Ao mesmo tempo, Cabo Verde poderá precisar de desenvolver alternativas ao crédito bancário tradicional, incluindo capital de risco, leasing e outros instrumentos capazes de financiar empresas sem colocar praticamente todo o peso sobre os bancos.
A pergunta já não é apenas quanto os bancos emprestam
Cabo Verde conseguiu construir um sistema financeiro relativamente profundo para uma pequena economia insular.
Isso representa capacidade para mobilizar poupança e transformar dinheiro depositado nos bancos em financiamento para famílias e empresas.
Mas a próxima etapa poderá ser mais exigente.
Com o crédito já a representar uma parcela elevada da economia, o verdadeiro indicador de sucesso não será simplesmente fazer esse número subir.
Será perceber quanto desse dinheiro consegue criar novas empresas, aumentar a produtividade, diversificar a economia e gerar emprego sustentável.
Caboverde24.info
Fontes: International Banker; Banco de Cabo Verde























