“Uma nova ferramenta de prevenção do VIH deverá chegar a Cabo Verde em 2027. A novidade foi apresentada como uma “vacina”, mas essa designação não é tecnicamente correta: atualmente não existe qualquer vacina preventiva contra o VIH aprovada para utilização. O produto que será introduzido no país ainda não foi identificado.”
Em 30 segundos
💉 Cabo Verde deverá introduzir em 2027 uma nova opção de prevenção do VIH, no âmbito da próxima subvenção do Fundo Global.
⚠️ A novidade foi anunciada como “vacina” e assim acabou por ser divulgada, mas atualmente não existe qualquer vacina preventiva contra o VIH aprovada.
✅ Entre as novas ferramentas disponíveis internacionalmente está a PrEP, incluindo medicamentos injetáveis de longa duração.
🔎 O nome do medicamento previsto para Cabo Verde ainda não foi divulgado.
Uma boa notícia, mas com uma imprecisão
Cabo Verde deverá contar, a partir de 2027, com uma nova opção para reforçar a prevenção do VIH, sobretudo junto das pessoas mais expostas ao risco de infeção.
O anúncio foi feito esta segunda-feira, 5 de outubro, pelo ministro da Saúde, Lúcio Fernandes, depois de um encontro com uma missão de alto nível do Fundo Global de Luta contra a SIDA, Tuberculose e Malária, no âmbito da preparação da próxima subvenção destinada ao VIH e à tuberculose.
Ao apresentar as novidades previstas, o ministro utilizou a expressão “vacinas por prevenção do HIV”. A informação acabou por circular como a chegada a Cabo Verde de uma vacina preventiva contra o vírus.
A novidade é real e relevante, mas a designação precisa de ser corrigida: atualmente não existe qualquer vacina preventiva contra o VIH aprovada para utilização. Existem vacinas experimentais em investigação, mas nenhuma está disponível como método de prevenção na prática clínica.
Se não é uma vacina, o que poderá ser?
É neste ponto que entram as novas formas de profilaxia pré-exposição, conhecida pela sigla PrEP.
A PrEP utiliza medicamentos antirretrovirais em pessoas que não têm VIH para reduzir fortemente o risco de adquirirem a infeção.
Durante vários anos, esta prevenção esteve associada sobretudo à toma regular de comprimidos. Hoje existem também alternativas injetáveis de longa duração.
Entre elas encontra-se o cabotegravir e, mais recentemente, o lenacapavir. A Organização Mundial da Saúde recomendou, em julho de 2025, o lenacapavir como uma nova opção de PrEP. O medicamento pode ser administrado apenas duas vezes por ano.
O Fundo Global anunciou, em 24 de setembro de 2026, que está a preparar uma expansão significativa do acesso internacional ao lenacapavir, com maior disponibilidade de versões genéricas prevista durante 2027.
A coincidência entre este calendário e o anúncio feito agora em Cabo Verde torna a evolução particularmente relevante, mas não constitui uma confirmação de que será este o medicamento escolhido para o país.
Vacina e PrEP: a diferença essencial
Embora ambas tenham como objetivo prevenir uma infeção, vacina e PrEP não funcionam da mesma forma.
Uma vacina estimula o sistema imunitário a desenvolver uma resposta contra determinado agente infecioso.
A PrEP, por sua vez, utiliza medicamentos antirretrovirais que permanecem ativos no organismo e reduzem o risco de o VIH conseguir estabelecer uma infeção.
No caso das formas injetáveis, é necessário repetir as administrações dentro dos intervalos estabelecidos e manter o acompanhamento, incluindo testes ao VIH.
É por isso que chamar “vacina” a uma injeção de PrEP pode ser compreensível na linguagem corrente, mas não corresponde à definição médica.
A PrEP já existe em Cabo Verde
A profilaxia pré-exposição não começará em Cabo Verde apenas em 2027.
Segundo a Comissão de Coordenação Multissetorial para o Fundo Global, as novas estratégias de diagnóstico e prevenção começaram a ser implementadas em 2024, com a aquisição dos primeiros materiais, e avançaram durante 2025.
Em outubro do ano passado, a PrEP estava já a ser disponibilizada em São Vicente, Sal, Santiago e Boa Vista. No mesmo processo, 122 profissionais de saúde de diferentes ilhas receberam formação sobre as novas estratégias de diagnóstico e prevenção.
A opção anunciada para 2027 deverá, portanto, representar uma nova etapa na estratégia já em curso.
Uma novidade num momento de redução do financiamento
A chegada da nova opção acontecerá num período particularmente importante para a resposta cabo-verdiana ao VIH.
O Fundo Global atribuiu a Cabo Verde 2.328.535 euros para o próximo ciclo destinado ao VIH e à tuberculose.
A subvenção deverá decorrer entre 2027 e 2029 e representa uma redução de cerca de 38% face ao atual ciclo de financiamento.
Será também a última subvenção regular do Fundo Global ao país, estando o fim deste financiamento previsto para dezembro de 2029.
A transição coloca uma questão adicional: paralelamente à introdução de novas ferramentas, Cabo Verde terá de preparar a continuidade dos programas e assumir progressivamente uma parte maior dos respetivos custos através de recursos nacionais.
O que ainda falta saber
Há agora informações importantes que permanecem por esclarecer: qual será exatamente o medicamento introduzido em Cabo Verde, quando chegarão as primeiras doses, quantas pessoas poderão beneficiar e quais serão os critérios de acesso.
Só depois de o produto ser identificado será possível saber também qual será o esquema de administração.
Por enquanto, há duas conclusões seguras: Cabo Verde prepara uma nova opção de prevenção do VIH para 2027 e não existe atualmente qualquer vacina preventiva contra o VIH aprovada para utilização.
Corrigir a designação permite informar sobre o avanço anunciado sem criar a ideia de que já foi desenvolvida uma vacina contra o VIH.
Caboverde24.info
Fonte: Ministério da Saúde de Cabo Verde; Comissão de Coordenação Multissetorial para o Fundo Global; Fundo Global de Luta contra a SIDA, Tuberculose e Malária; Organização Mundial da Saúde.







































